Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Estella a Los Arcos - 21 Km

A Santiago: 661 km


Terça-feira, 18 de Setembro de 2001

Depois da primeira noite de bom sono em Estella, talvez pelas boas condições do albergue e por ter lanchado e não jantado, levantei sem muita pressa, porque só poderia ir para a estrada depois das 9h, quando abriam os Bancos. Precisava fazer câmbio, o que fiz no Banco Atlântico, U$ 200, pegando em seguida o caminho indicado pelas onipresentes flechas amarelas. Antes de irmos ao Banco, Ricardo e eu paramos para tomar café numa cafeteria, onde encontramos a brasileira Helena, seu filho Ricardo e uma menina australiana que os acompanhava, estes com problema intestinal. Na conversa, Helena nos deu a dica de um produto do Banco de Boston, bem prático, o Visa-Travel Money, que anotei por me parecer bom.

A caminhada desde Estella foi fácil e agradável. Passamos pela famosa fonte de vinho em Irache, onde fizemos registros fotográficos e experimentamos do vinho, que não é lá essas coisas.

Falei durante muito tempo com um casal francês da Bretanha, que caminha com mais dois casais, um deles suíço, todos seguramente com mais de 65 anos. É comum na Europa pessoas mais velhas irem para a estrada com mochila e tudo.

Na rota até Los Arcos, caminhamos mais de 12 Km em região bastante isolada. Andei largos trechos sozinho para habituar-me ao fato de que após Logroño, onde Ricardo interrompe, não mais terei meu parceiro de jornada. O casal paulista, Rodnei e Cleusa, por vezes caminhava conosco. As frutas continuam abundantes no caminho: uva, maçã, pêra, figos gostosíssimos, e as onipresentes amoras, das quais estou enfarado de tanto comer.

Chegamos a Los Arcos por volta das 16h. Albergue de boa condição, 500 pesetas de contribuição. A rota foi a de sempre: chegar, descansar um pouco. Fazer alongamento, tomar banho, lavar roupa e sair à luta pela comida da noite e lanche para o deslocamento na etapa seguinte.

Voltamos a encontrar a portoalegrense Helena, que nos falou ter deixado o filho Ricardo e a menina australiana, ainda necessitados de recuperação do problema intestinal, num hostal.

Às 20 h, assistimos missa na impressionante igreja barroca de Los Arcos, com magnífico órgão também barroco, integrados os seus tubos à própria estrutura do templo, com um som muito bonito. Na saída, falei com o padre que havia tocado durante a cerimônia, o qual me disse que o instrumento é do Séc. XVIII.

Depois da missa, os peregrinos são abençoados pelo celebrante, convidados a ir para a frente do altar e a informar de onde são, recebendo um "santinho" de São Tiago, com uma oração impressa na língua do país de origem do peregrino. Minha colocação na extremidade do grupo fez com que fosse o primeiro a responder a pergunta do jovem padre, baixo e forte, como ser os bascos. "Where are you from?" "I´m from Porto Alegre, in Brazil."

Tirei algumas fotos do interior magnífico do templo e saímos para tomar um aperitivo digestivo num bar ali perto.

A janta, antes da missa, fora um massa muito gostosa feita pela paulista Cleusa e uma sopa pronta feita pelo Rodnei, acompanhado, para variar, de vinho e pão. O Ricardo arrumou a mesa e eu lavei os pratos. Depois, tratamos de ir dormir, porque a jornada até Logroño promete.

Rumo a Rabanal del Camino - após Astorga