Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Grañon a Villafranca Montes de Oca - 29 km

A Santiago: 527,5 km


Sábado, 22 de Setembro de 2001

Acordei por volta das 6h com o movimento dos belgas. O padre ofereceu café da manhã aos peregrinos. Não há dúvida que o tratamento dispensado pelo padre hospitaleiro aos peregrinos é inesquecível.

Na saída de Grañon, com o caminho precariamente sinalizado e ainda um pouco escuro, erramos a rota os belgas e eu. Queimamos um tempo em torno de uma meia hora para corrigir. Consertado o engano, caminhei firme, mas ainda sentindo um pouco os pés, principalmente o esquerdo. Passei por vários lugarejos, Redecilla del Camino, Castildelgado e outros, com periódicas paradas para descanso. Cheguei a Belorado, que é início/final de etapa no guia El Pais, por volta das 12 h. Visitei a igreja de Sta. Maria, século XIV. Pensei em almoçar e depois prosseguir, mas o horários de almoço dos espanhóis é muito bizarro. Só serviriam depois das 13h. Resolvi comprar algo para comer no caminho e tocar direto até Villafranca Montes de Oca. Depois de comprar bebida energética, castanhas, yogurte e bocadilho de queijo e presunto, telefonei para casa e acho que interrompi o sono da Gládis. Estava com vontade de dar notícia. Quando dei-me conta de que em Porto Alegre eram 6h da manhã de um sábado, falei rapidamente e sugeri que ela voltasse a dormir.

Logo na saída de Belorado encontrei os dois ingleses descansando e fazendo um lanche. Quase não consegui comunicar-me com eles, porque meu inglês é muito precário e o francês de um deles mais precário ainda. São atenciosos, mas distantes e parcimoniosos como costumam ser os súditos de Sua Graciosa Majestade.

Um pouco antes de Tosantos, em local de descanso aparelhada com sombra, mesas, bancos e fonte, parei para comer. Um cão pastoreando uma ovelhas ali perto me recepcionou em silêncio. Como ambos estávamos sozinhos, assobiei chamando-o para nos fazermos companhia, mas aparentemente ele não topou, porque afastou-se para perto das ovelhas. Azar dele, o lanche estava bom.

Cheguei por volta das 17h em Villafranca Montes de Oca, tendo passado antes pelas ruínas do Convento de San Fiz (São Félix), onde dizem que foi enterrado don Diego de Porcelos, legendário cavaleiro fundador de Burgos.

Albergue fechado, ao que parece por causa de uma festa da cidade neste sábado. A solução foi ir para o Hostal El Pájaro, onde ocupei o quarto n.º 3, onde cheguei muito cansado. Reagi tomando duas "cañas" de cerveja gelada, antes de subir para o quarto para lavar roupas e tomar banho. A janta só seria servida depois das 21h. Os espanhóis e seus horários! Aproveitei para remeter uns postais para Porto Alegre. No Hostal estão os ingleses e o italiano fascista e maluco, que havia visto em Santo Domingo de la Calzada, e que certamente não fez a etapa a pé, porque não o avistei no caminho.

Caiu uma chuva fortíssima antes da janta. Fiquei pensando que poderia chover no outro dia, quando pretendia sair muito cedo do Hostal, para ir até Burgos, distante uns 40 Km, com o que faria três etapas em dois dias.

Quando cheguei ao Hostal El Pájaro, sentado a uma banqueta do bar, tomava uma "caña" de cerveja, e vi afixado um papel impresso com este interessante poema sobre o Caminho de Santiago, que anotei:

"Camino de Santiago,
Así comienzas, Camino,
Primero en el corazón
Del piadoso peregrino.
Tú, Camino, eres el mismo,
Pero nunca eres igual
Son palabras de Machado
Te hacen, Camino, al andar.

Dejas sierras, buscas llanos,
Te iluminan las estrellas
Y te ensanchas por los campos
Donde se reflejan ellas.

Subes montes, cruzas valles,
Aqui um río, una ladera
Te adentras em mar de espigas,
Camino de Compostela.

Ofreces al caminante
Árboles con su frescor
Y él descansa su fatiga
Que harmoniza un ruiseñor.

Tú sabes de los secretos
De los rumores del tiempo
Escuchando en tu silêncio
Queda absorto el pensamiento.

Eres testigo de fé,
De esperanzas y de añelos
Que se llevan en el alma
Com lenguaje de los cielos.

Los pueblos y las iglesias
Fueron marcando tu huella
Que aún perdura en ti, Camino,
Hasta da la Gallícia bella." (Amalia Seoane)

Saint Jean Pied-de-PortChegada em Santiago de Compostela