Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Gonzar a Melide - 32 km

A Santiago: 52,5 km


Domingo, 7 de Outubro de 2001

No caminho a Gonzar, encontrei duas ou três vezes um rapaz espanhol, de Cadiz, de nome Servando Márquez. No albergue desse vilarejo, mantivemos contato e combinados sair muito cedo rumo a Melide. De fato, antes das 6h estávamos arrumando a mochila e o mesmo estava fazendo um casal, Luiz, madrilenho, e sua mulher, Gisela, berlinense.

Saímos do albergue de Gonzar cerca das 6h30min, usando lanterna para orientação no caminho. Caminhamos sem parar até às 9h30min, quando fizemos alto na área de descanso de um pueblo, para comer um bocadilho e tomar um suco de laranja. Como quase sempre ocorre na Galícia, chovia muito, o que torna essa província muito verde e úmida.

Feito o lanche, caminhei firme até Palas de Rei, com muita chuva, obrigando a uma parada numa cafeteria, para uma taça de café quente com um bolo tipo madalena. Ainda sob chuva forte, saí da cafeteria e estava me informando sobre a saída do Caminho, quando ouvi alguém me chamar. Era o madrilenho Luiz, que esperava com sua mulher berlinense, numa esquina, que a chuva amainasse, já que sua capa não era lá essas coisas. Luiz e Gisela falam alemão entre si, e ela tenta se comunicar com a gente num espanhol muito precário. Conversamos um pouco e toquei em frente.

Apesar da chuva e do vento, não estava achando a caminhada muito difícil, muito embora o guia mostre essa etapa com a convenção das "três botinhas". Paradoxos do Caminho de Santiago de Compostela!

Caminhando tranqüilo e descansando quando sentia necessidade, cheguei a Melide às 15h, sem o esgotamento físico de outros finais de etapa. Não voltei a sentir nada no músculo adutor da coxa esquerda, que me preocupou bastante ontem na chegada a Gonzar. A pomada e a massagem cuidadosa foram eficientes, com alguma ajuda do Matamoros.

Continua chovendo muito em Melide. Às 17h30min, saí para assistir uma missa na "Capilla del Carmen", recomendada pela hospitaleira do albergue como muito bonita. Voltei da missa ainda sob chuva, com a capa de peregrino, o que deve ter-me emprestado um aspecto de monge medieval.

Com fome, fui para meu beliche aquecer-me e esperar as 20h, quando os estabelecimentos começam a fornecer a "cena". Fiquei pensando em telefonar para casa, depois da janta, e que Santiago de Compostela está a duas jornadas.

Antes de chegar a Melide, passava pelo pueblo de Furelos, quando uma senhora à porta da igreja convidou-me para entrar. Na igreja, estavam Luiz e Gisela já de saída. A senhora fez uma verdadeira exposição sobre aquele templo dedicado a San Juan Bautista, de origem pré-românica, igreja pequena, mas com uma significativa e rica iconografia em seu interior. Há uma imagem de Santa Luzia, com dois mantos, por baixo um vermelho e por cima um branco, ambos com carga simbólica, e um Cristo crucificado com a peculiaridade de ter a mão direita despregada da cruz, pendendo disponível para auxílio ao peregrino necessitado.

Catedral de León - pórticos