Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Reliegos a Leon - 24,5 km

A Santiago: 310,5 km


Sábado, 29 de Setembro de 2001

A jornada até Leon foi fácil. O sacrifício do dia anterior valeu a pena, para que Leon pudesse ser adequadamente visitada. Comi uma maçã na saída de Reliegos e toquei para Mansilla de las Mulas, onde tomei um bom café. Em Leon, cheguei cerca das 14h. A sinalização para o peregrino que entra em Leon é perfeita, inclusive com orientação bem nítida para a escolha do albergue, o municipal ou o das religiosas. Dirigi-me ao albergue das Irmãs, onde o acolhimento foi muito simpático, e onde muitos peregrinos chegavam.

Tomei banho, lavei roupa, descansei um pouco, com direito a uma hora de sono, levantei fui à luta para conhecer Leon. A catedral é fantástica. Visitei, ainda, outras jóias culturais e históricas desta cidade bimilenária, fundada pela VII Legião Romana, segundo dá conta um monumento próximo à Igreja de San Isidro.

Valeu a pena forçar um pouco a barra na etapa a partir de Terradillo de Templários, para que a chegada a Leon fosse tranqüila e pudesse a cidade ser apreciada como deve. Telefonei para casa e fiquei sabendo da morte da Iná. Retornei à Catedral de Leon e recolhi-me numa ala lateral para refletir um pouco, elevar o pensamento e deixar as lágrimas fluir, lamentando nossa recíproca incompreensão, enquanto um casamento de gente chique se realizava na nave principal, ao som de música belíssima.

Saindo da Catedral, voltei ao albergue para participar de ato litúrgico, que as Irmãs Carbajalas realizam diariamente com os peregrinos.

A janta foi razoável num "Mesón" próximo ao albergue, recomendado por um funcionário que deve receber alguma gorjeta. Sentei à mesa com um baianinho muito espiritualizado, de nome Gilmar, que havia conhecido em Carrion de los Condes e a quem havia avistado durante o caminho. Politizado, relatou ter sofrido perseguição de carlistas, comentou que toda a Bahia sabe que ACM mandou matar um genro, e que sua filha viuva depois suicidou-se, que ACM mantém um casamento apenas de fachada, e que Luiz Eduardo realmente era cocainômano. Estuda filosofia na Puc de Salvador, mora numa comunidade católica de favela, já pensou ser padre, mas encontrou dificuldade para compatibilizar alguns valores religiosos católicos com certa compreensão que tem da espiritualidade. Depois de Santiago de Compostela, vai ao sul da França ficar dez dias numa comunidade tipo Emaús. Quanto à faculdade, diz ter negociado com os professores sua ausência de cinqüenta dias, devendo apresentar trabalhos.

À noite, dormi com dificuldade graças aos roncos no beliche ao lado, tanto do hóspede da parte de cima quanto de baixo. Dei uns dois ou três puxões no saco de dormir do que estava na parte superior. Adiantava um pouco, e logo os roncos retornavam. Apesar de tudo, acordei disposto a retomar o caminho.

Trecho de Caminho - Palencia