Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Roncesvalles a Larrasoaña - 28 Km

A Santiago: 750 km


Sexta-feira, 14 de Setembro de 2001

Dormi melhor em Roncesvalles, mas ainda com problema de sono e um ponta de dor de cabeça, certamente pela mistura da cerveja à tardinha com o vinho da janta.

Acordei cedo, sentei na cama e à luz da lanterna da Júlia fiz algumas anotações. Na saída, tomamos café num bar próximo à Colegiata com um bocadilho de queijo e presunto, metade do qual reservei para comer durante a caminhada rumo a Larrasoaña. Saímos com chuva bastante forte, boa oportunidade para testar chapéu, capa e botas, tudo tendo funcionado muito bem. Vários arco-íris festejavam nossa saída de Roncesvalles.

A etapa até Larrasoaña foi bastante difícil, porque, além da chuva, o terreno é acidentado e o monte do Erro é duro de vencer. As amoras estão presentes em todo o caminho como parte da exuberante e bela vegetação da Navarra. Próximo a Larrasoaña, estávamos comendo amoras para recompor um pouco as energias e a glicose, quando passaram duas senhoras a quem cumprimentamos e que nos disseram que as amoras não estavam muito bonitas porque as chuvas haviam sido fracas. A maioria das amoras eram mirradas, realmente, mas sempre havia exemplares graúdos. Fiquei imaginando, e comentei com meu parceiro Ricardo, que os peregrinos medievais, além da rede de conventos, mosteiros e abadias para apoio e assistência, podiam contar com a generosidade da natureza, com seus frutos e a caça abundantes.

Chegada a Larrasoaña, em torno das 17h30min, por ponte medieval, que os guias referem como Ponte dos Bandidos. Por ali também foi a saída no dia seguinte. O albergue é bem atendido por um senhor, que gosta muito dos brasileiros, mas as instalações, apesar de limpas, são precárias e a contribuição compulsória é de 500 pesetas. A rotina é sempre a mesma: chegada, instalação, banho, lavagem de roupas, e reconhecimento do lugar para ver onde se pode comer. O único para isso é um bar de um basco agressivo e mal educado, com preconceito contra brasileiros. Por falta de alternativa, ali jantamos e tive contato com uma família de Porto Alegre: uma senhora de nome Helena caminhava com o filho Ricardo (mesmo nome do meu parceiro carioca), moradora da Vila Assunção, e cujo marido médico estava em congresso nos USA.

A janta foi farta e gostosa: primeiro prato, sopa de feijão e segundo prato, uma chuleta bem gostosa, com fritas. Na mesma mesa, estavam duas irmãs paulistas que havíamos encontrado em Roncesvalles, moradoras há muitos anos na Suíça. Muito simpáticas, a Cristina e a Teresa.

Burgos - monumento ao Peregrino