Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Larrasoaña a Pamplona - 15 Km

A Santiago: 722 km


Sábado, 15 de Setembro de 2001

A saída para Pamplona foi por volta das 8h20min, após o basco do bar ter sido grosseiro com o Ricardo e comigo. Mas recebeu tranqüila e firme resposta, incidente em que contamos com a solidariedade silenciosa de duas jovens espanholas de Barcelona, à mesa do café.

O trajeto até Pamplona foi tranqüilo em meio à exuberância natural da Navarra. Caminho fácil, com chegada por Trinidad de Arre, onde tem mais uma ponte medieval, próximo à qual paramos para descanso e alongamento, com alguns registros fotográficos, inclusive de fachadas de casas fartamente decoradas com flores nas sacadas. Arre é ligada a Villava, onde paramos em simpático bar para um café preto com mineral. Parede do bar era decorada com pôster e camiseta com dedicatória e autógrafo de Miguel Undaráin, celebre e celebrado campeão de ciclismo, natural do lugar.

A caminhada por Villava e Burgada, que são ligadas, algo como Esteio e Sapucaia, no RS, grande Porto Alegre, mas muito mais bonitas, foi tranqüila e agradável. Quando nos demos conta, estávamos chegando a Pamplona. Paramos à beira da ponte medieval de Magdalena, sentamos num banco e repassamos os dados históricos do Guia El País. Em seguida, tiramos fotos e visitamos a antiga fortaleza. Lembrei de Santo Inácio de Loyola e dos jesuítas. Falei a respeito para o Ricardo, subsidiado pela leitura de duas biografias do fundador da Companhia de Jesus.

O Ricardo precisou ir até uma sapataria para tentar impermeabilizar os tênis. Quando estávamos ali, chegou uma senhora com forte paralisia facial, percebeu que éramos brasileiros e nos adotou. Falou que tinha morado em Porto Alegre por muitos anos, que era espanhola nos papéis, mas brasileiro no coração. Tinha morado na Av. Independência, fora religiosa e deixara a Congregação da Imaculada Conceição para cuidar na Espanha da mãe idosa e doente.

A conversa a fez perder seu ônibus para o local da residência, motivo para sair pelo "casco viejo" conosco, mostrando-nos os sítios históricos de maior interesse, inclusive o lugar onde Inácio de Loyola tombou ferido, onde há um monumento alusivo. Deu-nos uma pequena aula de geo-política sobre a questão basca e a Província da Navarra, ajudando-nos a melhor compreender o problema.

Albergue lotado, nos acompanhou na procura de Hostal. No primeiro, de uma conhecida de nossa acompanhante, não havia vagas. Era o Hostal Príncipe de Viena, mas no segundo, Hostal Navarra, tivemos sorte. Ali ela nos deixou, nos despedimos, ficamos com seu cartão, e promessa de contato com dona Laura, que adora o Brasil e os gaúchos especialmente. Falou da família Seguézio e do neurologista Miguel Muratore.

Nos instalamos no Hostal Navarra e saímos para continuar percorrendo o centro histórico de Pamplona. Passamos pelo ofício de turismo para apanhar material, visitamos a cidadela, a Igreja de San Fermin, Igreja Fortaleza de San Nicolás e a Catedral.

Cansado e faminto, mas impressionado com Pamplona e seus sítios históricos, telefonei para a Gládis, falei com ela, a Luzia e o Bruno. Jantamos no Bar Oreja, uma salada mista ótima, com salmão e fritas, acompanhado de um vinho tinto passável.

Voltando para o Hostal, pedi informação sobre bandeiras com determinado mapa e inscrição basca para um velhinho defronte à Igreja fortaleza de San Nicolás. Um simples pedido de informação se transformou numa agradável conversa com o senhor Francisco Xavier, navarro da melhor cepa. Muito dados que ele passou sobre os bascos e navarros coincidiram com os da ex-religiosa Laura. O povo de Pamplona é acolhedor e caloroso. A cidade é um espetáculo, ainda mais vibrante naquela noite por causa do jogo entre o Osasuña local e o Barcelona. As ruas e bares nesse sábado à noite fervilhavam de gente.

Finalmente, depois de tomarmos um aperitivo no balcão de um bar, o que é normal ali, fomos para o bem cuidado Hostal Navarra, com o espírito mais de turistas interessados em história do que de peregrinos.

A vida social, a convivialidade e o encontro de pessoas e famílias acontecem muito nos bares, que regurgitam de gente na virada do meio dia e à noitinha.

Convento San Anton - Castrojeriz