Diário de um Magro

por  CARLOS ALBERTO

De Cacabelos a O Cebreiro - 37 km

A Santiago: 153 km


Quinta-feira, 04 de Outubro de 2001

À noite, fiquei com receio de problemas digestivos, tive sono agitado e intermitente. Tomei um dos remédios da Gládis e acabei não tendo problema.

Ontem, quando voltava para o albergue, depois da janta, um peregrino cruzava, cambaleante de cansaço, a ponte sobre o rio Cúa e o ajudei a localizar o refúgio. Hoje de manhã, aquele peregrino saiu do albergue à mesma hora em que recomecei a caminhar rumo a Villafranca del Bierzo. Estava escuro e acabamos nos aproximando, porque eu iluminava o caminho para ambos, já que ele não tinha lanterna. Fomos juntos até Villafranca del Bierzo, a 8 Km de Cacabelos. Era frei franciscano, Simon, pároco de Medjugorje, na Croácia. Falava precariamente o francês e o espanhol, mas conseguíamos nos entender, ainda que com dificuldade.

Não me demorei em Villafranca del Bierzo. Separei-me do frei no albergue, onde ele parou para dar um telefonema à procura de um convento de franciscanos na cidade. Demorei-me apenas o suficiente para tomar café num bar e retomei logo o caminho. Optei pela alternativa da montanha, ao invés da carreteira, por onde se passa também por um túnel, tudo a tornar essa etapa uma das mais difíceis de todo o Caminho de Santiago de Compostela. O caminho a partir de Villafranca del Bierzo pela variante da montanha é duríssimo, além de dois quilômetros mais longo, mas tudo fica amenizado pela beleza das paisagens na cruzada da montanha, cuja subida muito forte inicia ainda dentro da cidade, onde num muro há advertência sobre essa dureza, aliás registrado no guia El Pais. Realmente muitíssimo difícil, mas esse preço alto vale pagar, porque a beleza que se descortina lá de cima é deslumbrante. Passa-se por floresta de castanheiras. Registrei numa foto um morador e produtor da localidade, que queixou-se da pouca rentabilidade das castanhas, cujo ganho financeiro mais suculento fica com o intermediário. Na Espanha como no Brasil, e certamente como em todo o mundo regido pelo sagrado mercado.

Na descida da montanha, encontrei um casal que já havia visto e cumprimentado na parada para desjejum em Camponaraya. Eduardo e Rose são gaúchos de Caxias do Sul, moram em Barcelona onde ele, administrador de empresas e professor, faz doutorado em economia. Após a descida da montanha, é inevitável um trecho de uns 6 Km pela carreteira, com tráfego muito pesado e perigoso para o peregrino, que tem que caminhar por estreito acostamento.

Em VegadeValcarce, parei para almoçar no "Mesón de las Rocas" e foi um horror. Meu nível de exigência não é elevado, mas foi impossível comer o peixe que serviram como segundo prato. O primeiro ainda deu para engolir. Levantei em silêncio, paguei e saí. Só então entendi porque era o único cliente no restaurante.

Na saída, trocando a água do cantil na fonte do vilarejo, um sujeito pediu para caminhar comigo. Era um canadense de Quebec, Normand Beaudin. Eu estava hesitando sobre se subiria o Cebreiro ou se dormiria no refúgio em Las Herrerias para enfrentar a dura subida no dia seguinte. Caminhando com o canadense, aposentado da empresa pública de águas, achei que dava para encarar. E encarei, mas a jornada foi duríssima. Depois de Las Herrerias, a subida é muito árdua. Chegamos no vilarejo La Faba, tomei uma mineral e uma cervejinha e comprei três bananas. Depois dali, o canadense foi em frente, estava mais em forma do que eu. E não consegui acompanhá-lo. Tem 62 anos e um pique formidável. Cheguei exausto no alto de O Cebreiro às 17h30min, junto com uma moça alemã, que peregrina com o sobrinho com cerca de 9 anos, que já havia avistado em Cacabelos.

Depois de carimbar a credencial e instalar-me no albergue, jantei com os caxienses Eduardo e Rose, pessoas muito agradáveis. Ele é colorado fanático, e identifica-se na Europa como brasileiro do Rio Grande do Sul, gaúcho, tão impregnado está desse sentimento, no que não é bem acompanhado pela mulher. Ficou muito satisfeito quando soube que tenho sentimento aproximado e que o meu amigo Ricardo Naveiro, carioca parceiro da primeira semana de caminhada, tem consciência e reconhece a característica diferenciada do povo gaúcho.

Cirauqui