Diário de Luiz Felipe

por  LUIZ FELIPE BRASIL SANTOS

1º. dia - 08/09/2000 (sexta-feira) - RONCESVALLES


Chego a Madrid às 06 h. 30 min. , após uma viagem de 9 h. 30 min. pela IBERIA desde São Paulo. Òtimo vôo em um BOEING A340.

Ainda no Aeroporto de Guarulhos, na fila do "check in" , identifico, pelo traje e pelos cajados que já porta, um típico peregrino. Conversamos ainda na fila . Chama-se Lúcio e viaja com a esposa, Tereza ("Tera") . É a segunda vez que fará o caminho, já o tendo percorrido em maio/junho-99, sozinho. Trouxe agora a companheira. Partirão de Saint-Jean-Pied-de-Port. Combinamos que, chegando em Pamplona, dividiremos um táxi até Roncesvalles. Carrega já três cajados, por ele mesmo confeccionados. Promete me presentear com um deles. São paulistas, de São José dos Campos.

No avião, sento ao lado de uma senhora, paulista também, com 74 anos de idade, chamada Carlota. É enfermeira graduada (doutorada) e professora de enfermagem (aposentada). Pertence a um grupo católico denominado "EQUIPES DE NOSSA SENHORA", e está em uma excursão que vai participar de um conclave dessa organização, que acontecerá em SANTIAGO DE COMPOSTELA, após percorrerem, de ônibus, parte do "caminho francês". Informa que serão cerca de 20.000 casais participantes, provenientes do mundo inteiro. É uma pessoa muito simpática e com grande vontade de viver e participar da vida. Conversamos bastante durante o vôo.

Agora, na chegada ao aeroporto de Madrid, verifico que meu vôo para Pamplona não é o mesmo em que seguirão Lúcio e Tereza. Partirei às 11 h. 30 min., enquanto eles vão às 07 h. 35 min. . Fica prejudicada, assim, nossa combinação quanto ao táxi. Ademais, também não herdarei o cajado que me fora prometido... As surpresas começaram... Agora são 08 h. e 10 min. e estou sentado no saguão do Aeroporto, onde terei de permanecer por mais de três horas. Paciência... Lúcio e Tereza partiram há pouco e acredito que não vamos nos encontrar mais, porque eles pretendem fazer o Caminho em ritmo bastante lento, pois Tereza não tem treinamento suficiente para a empreitada. Aliás, parece-me que ela não está muito convicta de que deveria fazer o Caminho, muito menos de partir de Saint-Jean.

Às 14 horas chego a Roncesvalles, de táxi (6.500 pesetas = 65 reais) . Alojo-me na Hospedaria LA POSADA (também 6.500 pesetas a diária), que funciona em um prédio secular, bem restaurado. Para minha surpresa, encontro Lúcio e Tereza, que estão almoçando aqui, junto com duas outras paulistas (Cleide e Concha), que também chegaram hoje. Vão se hospedar no albergue dos estudantes e amanhã irão de táxi para Saint-Jean, sem as mochilas, que deixarão com o pároco de Roncesvalles, para pegar na volta. Almoçamos juntos e eles me convencem a reduzir o peso da mochila (que excede 10 quilos), remetendo o excesso, pelo correio, para Madrid, para que eu mesmo retire na volta. Uma ótima idéia ! Resolvo reduzir uma peça de cada roupa e dispensar o dicionário e o gravador.

Roncesvalles

Após o almoço, saímos a passear em Roncesvalles, que é menor que mínimo (não mais de 500 metros, de uma ponta a outra, ao longo de uma rodovia), habitado, segundo dizem, por apenas cinco (5) famílias.

Visito a igreja, que é pequena, mas impressionante (séc. XV, um dos primeiros templos góticos da Espanha). Estão afinando o órgão, o que aumenta a sensação de grandiosidade e transcendência. Hoje (Dia da Virgem de Roncesvalles), a missa do peregrino será às 19 horas, excepcionalmente, seguida de festa na comunidade. O pároco aconselha que reservemos, no Hostal Sabina, o menu do peregrino (1.000 pesetas), o que faço.

Venho a conhecer mais três brasileiros. Ricardo, um oceanógrafo carioca, que já estudou em Rio Grande, e duas outras paulistas, cujos nomes não tive a oportunidade de indagar. Até agora, no primeiro dia, já são SETE brasileiros que conheci por aqui.

Ia esquecendo : quebrei os óculos escuros, que estavam no bolso da calça (ao deitar no banco do aeroporto de Madrid, enquanto esperava o vôo para Pamplona) . Preciso, com urgência, comprar outro, pois os dias estão muito claros.

No caminho para Roncesvalles, o táxi parou em uma pequena agência bancária, em Burguette, onde fiz o câmbio a 190 pesetas por dólar.