Diário de Luiz Felipe

por  LUIZ FELIPE BRASIL SANTOS

12º. dia - 20/09 - CASTROJERIZ


Saí de Burgos às 08 horas. Choveu durante a noite, mas não estava mais chovendo no momento em que saí. As ruas estavam ainda molhadas. Não tive dificuldade de localizar a saída, pois o hotel onde me hospedei situava-se bem no percurso do Caminho. Isto, aliás, é bastante curioso, uma vez que ao entrar em Burgos eu me havia perdido, só chegando ao hotel por mero acaso...

Depois de caminhar durante cerca de meia hora, passei pelo albergue de peregrinos, que fica bem na saída da cidade, verificando que o pessoal estava em preparativos para partir. Muitos, por certo, já tinham seguido àquela hora.

Ventava muito, e em sentido contrário ao que eu seguia, o que tornava o ato de caminhar extremamente sacrificado, exigindo esforço redobrado. Ainda bem que na véspera havia comprado o pulôver, caso contrário congelaria, já que a sensação térmica devia estar por volta de uns 5 graus .

Minha intenção era seguir a etapa de hoje até Castrojeriz, o que soma 40 km.

Caminhei todo o tempo sozinho, mas em todas as paradas encontrei com um rapaz alemão, que também viaja só. É um tipo meio esquisito. Chama-se Darius. Conseguimos nos entender, no básico, em espanhol, italiano e inglês, apesar de nenhum de nós dominar bem qualquer dessas línguas. Darius também seguiu até Castrojeriz, ficando no albergue.

“Ayuntamiento” de Burgos


A jornada de hoje foi para mim a mais exaustiva até agora. Provavelmente pelo esforço de caminhar contra o vento, cheguei a Castrojeriz completamente exaurido e faminto, às 17 h e 30 min. . Depois de passar por dois monumentos notáveis (as ruínas do monastério de San Anton e a Colegiata) adentrei na cidade, que, como em geral ocorre com essas antigas e pequenas cidades espanholas, parece uma cidade-fantasma. Quase não se vê pessoas. O único movimento é produzido pelos peregrinos e pelos gatos, que são abundantes.

Depois de caminhar um pouco pela Calle Mayor, vejo a fachada de uma pequena hospedaria ("La Cachava"), que parece uma miragem no deserto. Indago se há vagas e recebo resposta afirmativa. Na verdade, verifico depois que sou o único hóspede neste dia. O local é extremamente aconchegante e decorado com muito bom gosto e requinte nos mínimos detalhes, sendo atendido pelos proprietários (Angel e Avelina), que residem no local. Fico sabendo que a hospedaria existe há apenas 3 meses. Informam-me também que hoje pela manhã partiram daqui para Frósmita três brasileiros (Fernando, Ronald e Jorge) .

No momento em que escrevo, acabei de jantar na própria hospedaria e vou em seguida me recolher ao quarto. Tudo aqui é muito silencioso e tranqüilo. Há uma suave música ambiente sempre no ar (um concerto de piano). Espero dormir bem, pois a jornada de amanhã não vai ser fácil.

Falei com a Leninha e, mais tarde, com o Marques. Parece tudo em ordem. Disse ao Marques que Santiago mandou dizer a ele que o espera aqui no ano que vem...

Ia esquecendo : cruzei hoje com uma peregrina francesa que faz o caminho com um jumento, o qual conduz a maior parte da carga. Fotografei-os. De quando em vez o jumento empaca e a cena é bastante curiosa.