Quando o Sagrado se manifesta através do profano

por Francis França

CALZADILLA DE LA CUEZA A SAHAGÚN – 11/06/02

Contando com os 7Km que caminhamos perdidos, chegar em Sahagún significava terminar uma etapa de mais de 30Km. Eu raramente caminhava distâncias como aquela, preferia fazer o meu Caminho “despacio”.

A caminhada foi realmente dura, seguindo a auto-estrada, com direito ao barulho de um trânsito intenso. Paramos várias vezes para tomar um pouco de ar, água e aliviarmos a dor nos ombros e nos pés. O calor era pouco menos que insuportável, e as minhas dores resolveram se manifestar todas ao mesmo tempo, em igual intensidade.

Já estávamos quase dentro da cidade quando uma seta amarela indicou uma estrada perpendicular à rota. “Estúpida seta”, pensei. Meus pés doíam, minhas pernas doíam, minhas costas doíam, meus ombros doíam e aquela seta estava indicando um enorme contorno, a fim de passarmos por uma igreja do século XII. Eu já tinha visto dezenas de igrejas como aquela, estava cansada e meu mau-humor estava no vermelho.

Coisas como as que aconteceram em seguida me fizeram pensar que Deus nunca se zanga conosco ou, se se zanga, não demonstra. Isso porque eu estava tendo uma atitude não muito respeitosa com o Caminho, e mesmo assim Ele me abençoou.

Junto À igreja havia uma área de descanso com algumas mesas, bancos e muita sombra. Ali estava estacionado um caminhão. Um senhor, uma senhora e uma moça terminavam seu piquenique.

Nós nos “atiramos” num banco à sombra para descansar um pouco, o senhor do caminhão abanou e eu abanei de volta. Ele caminhou até nós, deu uma olhada como analisando o estado lastimável em que nos encontrávamos, aproximou-se e disse, com ares de tio: “Vocês gostariam de uma cerveja?”.

Sei que parece profano dizer isso, mas no fundo acho que o Caminho nos conduziu até ali por causa da cerveja, e não da igreja.

Tomamos uma Mahou gelada oferecida por nosso “anjo”, tiramos fotos, conversamos. A moça disse que já tinha feito o Caminho, perguntaram-nos como estávamos indo. Foram breves os instantes antes de eles partirem, mas serviram de estímulo para terminarmos a etapa.

Toda a tensão da caminhada se dissolveu diante dos olhares amáveis daquelas três pessoas que nem imaginavam, ao sair de casa, que ensinariam uma grande lição a uma peregrina brasileira e a um peregrino grego num bosque no meio da Espanha.

Eu e Tino ficamos mais um tempo pensando que, dali pra frente, deveríamos pensar duas vezes antes de reclamarmos do que o Universo colocava em nosso Caminho.

Hoje o fato me remete a uma frase que eu viria a ouvir mais tarde no Caminho e que teria se aplicado perfeitamente àquela situação. Foi nosso amigo, o escocês Gland, que dissera: “O Caminho nunca tira nada de nós, ele apenas nos dá de um jeito diferente”.