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por Zerob Peregrino

Este site foi feito para mostrar a todos os que apreciam a natureza, as artes, e os esportes de aventura, acrescidos de pitadas de magia e religiosidade, que existe uma rota milenar que conduz peregrinos a Santiago de Compostela, na Espanha, perfeita para ser realizada em bicicleta, esperando por qualquer um que se aventure.

José Roberto e Aurelio percorreram em bicicleta os 850 km de trilhas, quase sempre montanhosas, desde Saint Jean Pied-de-Port na França até Santiago de Compostela na Espanha e têm muito a contar sobre a aventura, desde o planejamento da viagem, os preparativos, o roteiro, os custos, enfim, o esquema completo para realizar este verdadeiro sonho.

Se você também pensa em um dia fazer o Caminho de Santiago, não se assuste. Ele oferece um pouco de dificuldades, assim como tudo na vida, mas não se trata de nada próximo ao impossível. Todos os dias, vários peregrinos chegam a Santiago tanto a pé, como em bicicleta ou a cavalo, em busca das graças do apóstolo, ou guiados por quaisquer outros motivos que seus íntimos possam sugerir..

Uma FAQ (Frequently Asked Question) foi elaborado para tirar todas as dúvidas sobre como fazer o Caminho de Santiago, pretendendo ser dinâmico a ponto de incluir qualquer pergunta que você queira fazer, com a respectiva resposta. Você pode gravá-lo para ler off line.

Cruz de Ferro

Versões em inglês feita por Glaucia Costa da Silva, e em espanhol feita por Jose Roberto Pinto de Almeida

Castelo dos Tempários em Ponferrada



Nosso Caminho chamou a atenção da impressa, muito pela bike Zöhrer HPV usada pelo peregrino companheiro de viagem, Aurélio Moreira. Leia as reportagens nos jornais espanhois sobre a nossa passagem pelo Caminho de Santiago:

A Santiago con ritmo de samba

El progresso, viernes, 29 de septiembre de 1995

Durante este verano han sido muchos los peregrinos que pasaron por Sarria recorriendo el Camino Francés en direccìón a Compostela, pero todavía quedan individuos que pueden sorprender a los vecinos por la originalidad de sus métodos de peregrinaje. Éste es el caso de Aurelio Moreira da Sìlva, un brasileño que utiliza para su desplazamiento un nuevo protótipo de bicicleta que le permite viajar acostado. EI imnovador medio de transporte cuesta cerca de tres mil dólares y fue construído en Brasil, aunque tuvo su origen en Alemania. Aurelio Moreira viaja acompañado de Roberto Pinto de Almeida, aunque éste último utiliza una bicicleta convencional.

Sarria Delegación - Los dos brasilenos son ingenieros de electricidad. Llegaron en avión desde São Paulo a Madrid y luego viajaron en tren hasta Saint-Jean Pied de Port, desde donde iniciaron su peregrinación. No siguen un esquema predeterminado por etapas, por lo cual no saben con certeza si Ilegarán a Santiago manana o el domingo. Los viajeros aseguran que no esperaban causar tanta expectación en la gente ni en los medios de comunicación. En los motivos de su peregrinación se entremezclan razones religiosas y culturales. Aurelio Moreira ya había visitado Espana en otras ocasiones. En concreto, había estado en Madrid y Barcelona. Sin embargo, manifìesta que en esos momentos no vio lo interesante que podía resultar este país. Los dos brasilenos confiesan ser seguidores de Romario y de su equipo, y no creen que el deportivista "Bebetiño" regrese a jugar en Brasil.

Passagem por Sarria - El progresso, viernes, 29 de septiembre de 1995

El peregrino de la bicicleta "rara"

La Voz de Galicia, Sábado, 30 de septiembre de 1995

De todos los peregrinos que han llegado este ano a Santiago, el brasileño Aurelio Moreira da Silva ha sido sin duda uno de los más originales. Moreira Ilegó desde Roncesvalles en la original «bicicleta ergonómica» que se ve en la fotografía. Junto a Aurelio, pero en una bicicleta normal de montaña, hizo el Camino Jose Roberto Pinto de Almeida. Ambos son ingenieros eléctricos y se mostraron absolutamente satisfechos de acabar la Ruta Jacobea y reconocieron que el extrano vehículo de Aurelio despertó la curiosidad de mucha gente durante todo el viaje.

Em Santiago - La Voz de Galicia, Sábado, 30 de septiembre de 1995

Indurain pudo nacer en Brasil

El Correo Gallego, sábado, 30 de septiembre de 1995

JOSÉ ROBERTO PINTO Y AURELIO MOREIRA SALIERON DE RÍO DE JANEIRO HACE TRES SEMANAS PARA PALPAR LA MAGICA RUTA A RITMO DE PEDALADAS

Ambos son ingenieros eléctricos pero han dejando gustosos el juego de chispas para sembrar pedaladas hasta Santiago "yendo siempre sobre el Camino, nada de andar por la carretera'; subraya José Roberto. Mientras Aurelio, cuya estrambótica bici ha generado mares de simpatía, reseña "la maravillosa comunicación entre todos los, que hacen el Camino".

SANTIAGO 
Xavi San Martín. Ambos conocen todo el mapa de Sudamérica de algo más que mirarlo, como delata su perfecto castellano y coinciden en relatar: "trás acabar el recorrido hemos comprobado que es mucho más maravilloso de lo que planeas al principio. AI salir coges el mapa y dices de aquí a aquí en tanto tiempo, salimos de aquí tal día ... todo muy frío, pero luego te quedas a ver un pueblo, o conversas con la gente; surge como magia entre los que recorremos el Camino".

Conocieron la Ruta Jacobea a través de las líneas y fotografías de los libros editados sobre la misma en su país. Aurelio (casado, 53 anos) ya había venido antes a Espana, "pero siempre para estar nada más que tres o cuatro días" . Sin embargo, para José Roberto (soltero, 39 anos) este peregrinaje es su primer asomo a la península "y estoy encantado".

Dialogan afables sobre catedrales, paisajes, gentes, culturas ... piedras simbólicas sobre las que han sembrado las pedaladas de este viaje. Le explico a Roberto que Galicia es una tierra conquistada por la futbolitis y que se gozó el triunfo de Brasil en el mundial: "¡ah! sí, que alegría ... creo que Bebeto marcó tres goles".

Em Santiago - El Correo Gallego, sábado, 30 de septiembre de 1995



Já de volta ao Brasil, o jornal "O Campista" fez uma reportagem grande sobre a nossa viagem, para estimular seus leitores, aventureiros, amantes da natureza e praticantes de camping, a fazer o Caminho de Santiago:

De bicicleta, desvendando os "mistérios" do Caminho de Santiago, na Europa

O Campista, novembro de 1995

Fé, misticismo, curiosidade. O que leva um homem a percorrer os 850 quilômetros do Caminho de Santiago, na Europa? Aliás, o que leva milhares de pessoas a fazer esse roteiro, todos os anos? É difícil de explicar. A esses ingredientes pode se adicionar, ainda, o simples desejo de viajar, de conhecer mais um lugar, de fazer turismo, passear, curtir a vida. Uma coisa simples. Mas nem tanto. Afinal, como há muito tempo está escrito, há muito mais coisas entre o céu e a terra, do que supõe a -nossa vã filosofia. A pé, a cavalo ou de bicicleta. Uma viagem espiritual inesquecível que revitaliza o homem, que se encontra com o seu verdadeiro eu e até com o seu verdadeiro Deus.

Coincidências no caminho: Aurélio Moreira da Silva, de 53 anos, e José Roberto Pinto de Almeida, 39, engenheiros eletricistas, conheceram-se durante um curso de comércio internacional, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e descobriram que tinham algumas coisas em comum. Entre elas, o costume de andar de bicicleta e uma vontade, de certa forma inexplicável, de fazer a antiga rota religiosa na Península Ibérica. Do sonho, do encontro, da união, a realização do sonho.

De engenheiros a peregrinos: Aurélio e José, cada um a seu modo, decidiram realizar a viagem. As motivações foram diferentes e maturadas em diversas fases. Leituras de reportagem e de livros. Após o inesperado encontro, a decisão. Fazer o passeio, de bicicleta. José, em uma moutain bike, um pouco sofisticada, com suspensão especial, peças de reposição e alforjes; Aurélio, em uma muito especial, uma Zöhrer, reclinável, de design avançado, de produção nacional.

Documento em ordem, dinheiro separado, destino traçado, opções feitas. No início de setembro começa a "viagem". Primeiro, de avião até Madri. Levando as bicicletas na bagagem. Da capital espanhola, de trem, até Irun-Hendaye, na França. E o sonho de tantos anos vai se transformando em realidade. Em seguida, nomes e cenários. No dia 8, de Bayonne a Saint Jean Pied de Port, onde começa efetivamente o caminho, na base dos Pirineus.

Finalmente, peregrinos. A mística começa a se desvendar. E tudo o que atraiu a dupla brasileira surpreende a cada pedalada, a cada nova paisagem. A cultura, os povos, a beleza, a arquitetura. Os refúgios, para pernoites, a alimentação, a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago. O clima. Setembro, final do verão, início do outono. De manhã, na estrada. Ou melhor, no caminho. Todo o percurso normalmente, a pé, é percorrido em um mês, trinta dias. De bicicleta, varia em função de uma série de fatores. Em média, dura 19 dias. Tempo suficiente para um verdadeiro encontro.

A maior parte do tempo nós viajamos pelo campo, pelo mato. A receptividade do povo aos peregrinos, a acolhida, são incríveis: nós dormimos em refúgios para peregrinos, mantidos pelas prefeituras e pela igreja - diz José Roberto. Aurélio destaca que durante os 19 dias da viagem os dois pedalavam de quatro a seis horas por dias. Problemas, só com algumas subidas. Mas a novidade, a vontade de vencer o desafio, todo o clima, mantinha a dupla acesa. A cada dia, "uma alegria" e "uma tristeza" acometiam os dois. Tanto, que após percorrerem o caminho resolveram 'pedalar mais 250 quilômetros; na Galícia: ( A cada dia ficávamos felizes por estarmos cumprindo cada etapa que nos dispusemos a vencer; e ao mesmo tempo, ficávamos tristes pois, a cada etapa vencida, ficávamos perto de acabar "o caminho".

Um roteiro milenar de fé

De acordo com antigos documentos, após a crucificação, os apóstolos espalharam-se por diversas partes do mundo, tendo um deles, Tiago, o irmão de João, seguido para a Espanha, então parte do Império Romano, tendo desembarcado na Galícia, indo até Zaragoza, e lá fundado a devoção à Virgem do Pilar. Após pregação por sete anos, Tiago retomou à Terra Santa, acompanhado de dois discípulos, Teodoro e Atanásio.

Tiago foi preso e decapitado em Cesaréia, por ordem do Rei Heródes Agripa, tomando-se o primeiro dos apóstolos a morrer martirizado. Diz a história que a viagem de retomo durou sete dias, em um barco de pedra, pilotado por anjos. Tiago foi sepultado por volta do ano 44, na Galícia. O túmulo foi redescoberto no ano de 813, devido à uma visão fantástica de luzes e chuva de estrelas, indicando o local. Nesse ponto, Afonso II, rei das Astúrias, mandou construir uma capela de pedras e um monastério, para os monges Agostinos.

As pessoas passaram a viajar de diversos pontos da Europa para visitar o túmulo do apóstolo, percorrendo um longo caminho e cheio de perigos, que ficou conhecido ao longo dos séculos como Caminho do Campo de Estrela, ou de Compostela, em referência às luzes vistas pelos antigos, e a Via Láctea. Daí nasceu uma longa tradição que chega até aos dias de hoje, depois de mais de mil anos. Atual catedral que guarda os restos de São Tiago, foi iniciada em 1075. Diversas religiões apresentam a tradição das peregrinações: assim, no Cristianismo, Romeiro é quem vai a Roma; os que vão a Jerusalém são Palmeiros (de palmas); na religião judaica, a lei determinava que os homens maiores de 12 anos deveriam visitar o Templo de Jerusalém nas três principais festas: Páscoa, Pentecoste e Tabernáculo; entre os muçulmanos, a tradição os conduz até a Meca, para prestar contas dos pecados e das faltas.

Há algumas rotas que levam a Santiago. Entre elas, Vila Tolosina, partindo de Arles, na França. Via Podensis, considerada uma das principais, partindo da porta da catedral de Le Puy, na França, para onde convergiam peregrinos de Strasburgo, Colônia e Gênova. Via Turonenses, ponto de partida em . Tours ou Paris, para onde vinham peregrinos das ilhas britânicas, Flandes (Holanda), e norte da França. Via Limosina, que partia de Vézelay, passando por Limoges e indo até Roncesvales (Espanha).

Atualmente muitos dos peregrinos usam essa última via, partindo de Saint Jean Pied de Port, na França, ou já de Roncesvales, quando preferem fazer todo o percurso em território espanhol. Todas as rotas encontram-se em Puente la Reina. Desta cidade até Santiago, a rota é conhecida como o Caminho Espanhol.

Experiências e Equipamentos

Com a experiência de várias viagens ao exterior e, principalmente, com a autoridade de quem venceu todas as fases desta verdadeira jornada, José Roberto e Aurélio dão alguns conselhos para os campistas que quiserem experimentar esta façanha. E, como autênticos amantes da natureza, como todos os sócios do CCB, vão logo avisando que a satisfação só é completa quando o passeio é percorrido a pé, de bicicleta ou a cavalo. O passeio também pode ser realizado de carro, pelas estradas. Mas aí é outra história. Não é o verdadeiro caminho.

Primeiro, o peregrino deve decidir como irá realizar o seu sonho, percorrer todo o caminho. Depois, organizar todo o roteiro, adquirir guias e mapas. Todo o trecho é muito bem sinalizado. E um alerta: o ideal é realizar o passeio sozinho ou, no máximo, em dupla. O passeio convida à reflexão, precisa de certa rigidez nos horários e decisões. Para os campistas que optarem pelo percurso a pé ou a cavalo, até Santiago de Compostela, algumas "dicas":

Levar pouca bagagem. Só o que for extremamente necessário. Roupas leves, objetos de higiene pessoal, caixa de primeiros socorros, saco de dormir, e um kit de ferramentas, alforjes e câmara de reserva. Para os "pedestres", sapatos confortáveis e mochila. No avião não esquecer de esvaziar os pneus da bicicleta (que, aliás, pode ser adquirida na Europa).

O passeio espiritual, que permite conhecer dezenas de belos povoados, custa, em média, 30 dólares por dia, mais a passagem de avião. Os peregrinos não podem deixar de pegar o seu passaporte na Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, na França. É a prova de que todo o percurso foi percorrido (é carimbado a cada povoado).

José Roberto, que já morou por 7 anos na Amazônia, é um aficionado por turismo de aventura, amante da vida ao ar livre, ainda hoje se emociona, como Aurélio, ao lembrar das "pedaladas". Os dois, ao mesmo tempo, recordam algumas coisas que mais os "tocaram" durante toda a viagem:

Para não chegar à noite em Santiago, dormimos no Monte do Gozo, e pela manhã fomos à igreja. Entregamos o passaporte e recebemos o certificado, carimbado pelo padre, dom Jaime, que ao saber que éramos do Brasil quis nos falar. Ficou impressionado por alguém ir de tão longe para demonstrar sua fé. Nos pediu uma oração e que durante a missa fizéssemos sua leitura. Foi um dos momentos mais emocionantes, a leitura, do púlpito, dentro da Catedral de Santiago.

José Roberto e Aurélio foram alvo de reportagem da imprensa local, inclusive devido ao design diferente da bicicleta. E, felizes, repetiam que, depois de tanto tempo de espera, depois de tantas pedaladas, a chegada, a sensação de terem realizado um sonho, de terem conseguido momentos inesquecíveis de paz, tudo só lhes trazia um imenso prazer e a certa de que "valeu a pena" e que, quem sabe, um dia, repetirão a dose.

O Campista, novembro de 1995