Artigos Peregrinos

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O Refúgio do "Rato"
Alexandre Barros
Uma grande ansiedade me tomava, no dia em que eu, finalmente, chegaria a Villafranca del Bierzo, terra do famoso "bruxo" Jesus Jato, personagem de inúmeros livros sobre o Caminho de Santiago e de documentários de televisão, inclusive do Globo Repórter. Há algumas pessoas ou lugares, durante o Caminho, que são famosos e é sempre grande a expectativa e a esperança de encontrá-las, como MMe. Debril (quando estive em SJPP ela ainda vivia), D. Felícia, a Cruz de Ferro, a temível subida ao Cebreiro, as planícies monótonas de Castilla, o Monte do Gozo, o galo e a galinha de Santo Domingo de La Calzada e vários outros. Mas a perspectiva de conhecer o famoso "Rato", para mim, só era superada pela expectativa da subida ao Cebreiro (que, percebi, não é nenhum bicho de sete cabeças).

No dia em que cheguei a Villafranca, caminhei sozinho durante todo o tempo, por opção. Encantei-me com as inúmeras famílias trabalhando na colheita da uva, em El Bierzo. Aconteceu, inclusive, um fato, no mínimo, pitoresco: eu queria tirar uma foto de um grupo, no meio das parreiras, mas fiquei constrangido de fazê-lo, pois, se para mim aquilo era atração de turista, para eles era trabalho. Não me sentia à vontade. Aproveitei então que havia um trator parado na beira da estrada e, colocando-me atrás do mesmo, como se fosse tirar uma foto da geringonça, apontei para os "campesinos", do outro lado do trator. Qual não foi a minha supresa quando, de repente, uma moça, muito bonita, por sinal, gritou para os demais e apontou em minha direção: "Mira, la foto!".

Putz! Fiquei super sem grança, pois havia sido flagrado. Qual o quê! Ao invés de me reprimir ou de se virar as costas, os agricultores fizeram uma grande festa, virando-se todos para mim, para posar deliberadamente para a foto. Desarmado e desconcertado, saí detrás do trator e caprichei nas fotos. Ao invés de ralhar comigo, dois dos agricultores vieram até mim, com um sorriso aberto até as orelhas, perguntando de onde eu era (ficaram incrédulos e não entenderam porque um brasileiro maluco atravessa o Atlântico para andar a pé por 800 km na Espanha) e me oferecendo uvas e comentando sua atividade. De repente, um deles me pegou pelo braço e me levou até seu pequeno "coche", estacionado ali perto. Foi então que, num dos gestos que mais me emocionaram em todo o caminho, me ofereceu um cantil (desses de material imitando pele) com vinho, cheio de orgulho, dizendo que tinha sido produzido por sua família e que era para refrescar, pois o calor era muito forte. Tomei varios goles daquele delicioso vinho, legítimo "del Bierzo" e ele sempre insistindo para eu tomar mais, dizendo que era "sano". Me despedi de todos, agradeci pelas fotos e pelo vinho e segui, em direção a Villafranca, radiante de felicidade.

Parei em Cacabelos e me esbaldei num delicioso almoço solitário, comendo um carneiro assado e tomando mais vinho.

Resultado: saí dali completamente tonto. Foi uma experiência bem interessante, caminhar, sob o sol das três da tarde, com o mochilaço nas costas, bêbado. Eu cantava e ria sozinho o tempo todo, explodindo de alegria. Felizmente, com a caminhada, o sol e o suor, o efeito do vinho passou logo. Mas foi ótima a embriaguez fortuita, enquanto durou, eh, eh!

Por volta das 17h, finalmente, cheguei a Villafranca, exausto, sob um sol escaldante. Pelas informações do guia e até pela própria aparência, o albergue municipal deveria ser melhor que o Ave Fenix, mas foi para este último que eu me dirigi. Não iria perder a oportunidade de ficar num dos mais famosos refúgios do Caminho, que já havia sido todo destruído pelo fogo (que, suspeita-se, tenha sido criminoso) e que estava sendo reconstruído pelo "Rato" e por sua família.

Ao chegar, de cara encontrei o Flores, o brasileiro comandante de vôo da Transbrasil, do qual falamos dias atrás. Entrei, me "registrei" com a senhora Jato e subi para o "quarto" (não vi o bruxo). Ao chegar, quase voltei par trás, já quase arrependido de não ter optado pelo refúgio municipal. A aparência era a pior possível: escuro, muita poeira, cheio de frestas por onde entrava o sol e, certamente, de noite, o frio, além de um amontoado de beliches mal conservados. Mas lembrei-me então da histório do refúgio, do sofrimento, sacrifício e dedicação da família Jato, reconstruindo-o com as próprias mãos e apenas contanto com a ajuda de voluntários e doações. E, além disso, peregrino é peregrino e resolvi ficar, pois, afinal, AQUELE era o refúgio de Jesus Jato. AQUELE era o AVE FENIX e o próprio nome já dizia tudo: havia ressurgido das cinzas.

Relaxei e procurei um local onde supostamente faria menos frio de noite (e, de fato, a noite ali foi muito fria, pois entrava vento por todos os lados), pois, afinal, o que eu poderia esperar de um refúgio que havia sido destruído pelo fogo? Desci, tomei banho num simples, mas excelente chuveiro e preparei-me para ir cumprir meu ritual diário, após a chegada aos refúgios: sair para fotografar a cidade e suas atrações.

Foi quando percebi que havia um outro quarto, no piso de baixo, próximo à escada, bem melhor, todo reformado, da melhor qualidade, mas que estava reservado apenas para peregrinos maiores de 40 anos. De repente, minha decepção inicial foi substituída por uma admiração ainda maior por aquela família de hospitaleiros. O conforto estava sendo priorizado aos peregrinos teoricamente mais necessitados, de menor vigor físico (digo teoricamente, pois vi muita gente idosa dar um banho de caminhada em mais novos). Um claro sinal de respeito e amor pelos mais velhos. Naquele momento, aquele refúgio passou a ser o melhor do CS e esqueci totalmente o desconforto inicial.

Saí, dei a volta por trás, para visualizar totalmente o Ave Fenix, suas obras de recuperação e sua curiosa localização, abaixo do nível da rua que leva à igreja próxima, a Igreja de Santiago de Villafranca del Bierzo. Caminhei por toda a cidade, sempre fotografando tudo: muralhas, igrejas, imagens etc. Descobri, inclusive, que há um terceiro refúgio, privado, num seminário ou convento, não me lembro ao certo, de aparência muito boa, mas que custava o dobro do preço normal. Valeu conhecer, mas não me arrependi de não ter ficado ali.

Era domingo, então grande parte da população se dirigia para a Igreja, para assistir à missa. Fui junto, como, aliás, fiz várias vezes no CS (nunca fui a tanta missa em tão pouco tempo, por opção e me sentindo muito bem com isso). Novas emoções me aguardavam ali.

A missa transcorria normalmente, eu atento às palavras do padre, quando percebi que havia, atrás do altar, uma outra pessoa, uma espécie de "auxiliar" deste, também de batina, mas com um velho e surrado tênis por baixo, além de uma desgrenhada barba por fazer. Pensei: esse cara, se é que é padre, poderia pelo menos cuidar da aparência, durante as missas.

Para minha surpresa, na hora do Evangelho, o padre passou a palavra para o "auxiliar" e percebi que este também era um padre. Apesar de ler o Evangelho em espanhol, percebi logo que se tratava de um estrangeiro. Perconceituoso, pensei: por que é que o Padre passou a palavra, logo no Evangelho, para alguém que sequer sabe ler em espanhol? (Céus, como fui idiota!!!).

Após a leitura, o padre "titular" retomou a palavra e foi logo explicando os motivos daquele outro padre tê-la feito e o porquê de seu sotaque carregado: ERA UM PADRE BRASILEIRO QUE ESTAVA FAZENDO O CAMINHO DE SANTIAGO!!!!!!!!!

Caramba! Uma série de sentimentos tomou conta de mim: vi qua havia sido preconceituoso, intolerante, impaciente e, acima de tudo, idiota! Pelo menos eu estava no melhor local para pedir perdão por todos aqueles pensamentos, o que fiz logo. Paralelamente, senti uma enorme alegria e por estar assistindo àquela missa, ali, naquele dia e naquela hora. Após a mistura de sentimentos, foi muito emocionante ouvir o Evangelho, numa missa no Caminho de Santiago, lido por um padre brasileiro e peregrino a Santiago.

O padre titular, após sua homilia, passou a palavra ao Padre Paulo, o brasileiro, mas este também fazer a sua própria homilia, em português, dirigida especificamente a um grupo de jovens adolescentes de Portugal, que estavam sendo conduzidos por ele a Santiago.

Após a missa, fui até a sacristia e me apresentei ao Padre Paulo (que tinha a mesma idade que eu, 32 anos), que ficou muito feliz em saber que havia um brasileiro assistindo à missa e, ainda mais, fazendo o Caminho de Santiago. Nos despedimos ali, mas só aquele momento já havia valido por todas as missas que assisti no Caminho.

Após jantar num boteco lotado, voltei ao refúgio. Até então, não havia visto o "bruxo". De repente, eis que entra um senhor de aparência simples, mas de expressão firme: era ele! Mais emoção! Finalmente eu estava diante daquele ícone do Caminho, o famoso Jesus Jato. Não fiz nada, permaneci sentado e fiquei apenas olhando-o, sem ter como me aproximar. Afinal, o que eu, um simples peregrino, entre milhares de outros tantos, principalmente brasileiros, iria dizer ao Sr. Jato? Que era brasileiro, que já o havia visto na TV, que havia lido livros que o mencionavam, que admirava seu trabalho? Coloquei-me no meu lugar e fiquei na minha, talvez esperando um momento mais propício, pois ele parecia estar ocupado.

Bem mais tarde, lá pelas 11 da noite, eu já me preparava para dormir, quando voltei ao refeitório, decidido a puxar conversa com o "Rato" (gente, quando digo "Rato" ou "bruxo", não é no sentido pejorativo, mas apenas tomando uma liberdade de brincar com o mesmo - liberdade esta que ele não me deu, reconheço). Ele jantava com sua família e com alguns amigos. Além de conversar com ele, eu também esperava que fosse haver o ritual da "queimada". Infelizmente, não houve o ritual e Jesus continuou o papo por toda a noite e eu é que não iria intrometer-me na conversa, apenas para dizer que o admirava e blá, blá, blá.

Fui dormir, um pouco frustrado, reconheço. Mas o sono falava mais alto e peregrino tem que dormir cedo.

No dia seguinte, não vi mais o Rato, mas apenas seu carro, parado do lado de fora, com a mochila de vários peregrinos, que ele iria levar até o alto do Cebreiro, como já é tradicional. Pensei: isso eu não faço; minha mochila vai comigo onde eu for; e se a subida do Cebreiro faz parte do Caminho, minha mochila vai junto (orgulho besta, admito).

Saí de Villafranca del Bierzo realizado, feliz por ter conhecido e ficado no refúgio da família Jato. Na saída da cidade, há duas alternativas de caminho, uma pela "carretera", mais fácil, outra por uma trilha à direita, passando por uma subida super forte e longa, pelo alto das montanhas. Optei pela segunda, claro (novamente o orgulho besta, pois "peregrino não procura facilidades", eh, eh). Ainda bem: lá do alto (nossa, a subida foi realmente um sofrimento!), pude ter a melhor vista de Villafranca, ainda tomada pela neblina da manhã. Lá embaixo, outros peregrinos seguiam pela estrada, sem mochila.

Continuei pela crista da montanha e, para minha alegria, encontrei de novo o Padre Paulo e seus jovens portugueses, que também optaram pela montanha. Conversamos durante um bom tempo, quando ele me confessou estar estudando na Itália e, por conhecer os pais de um dos jovens, havia sido convidado para guiá-los, a partir de Ponferrada, até Santiago. Era um grupo "light", pois tinham carro de apoio e tudo o mais, que levava o rango e as mochilas. Mas foram tão receptivos, tão fraternos, que não senti nenhuma inquietação, por estar no meio de um bando de adolescentes, de idade média de 13 ou 14 anos. E me encheram de perguntas sobre o Brasil.

Fui convidado para almoçar com eles, almoço este composto de sanduíches e sucos, que o carro de apoio trouxe. O melhor ainda estava por vir: o Padre Paulo tocava violão (que vinha na "carrinha", como os portugueses chamam as vans) e nos brindou com várias melodias.

A partir dali, nossos caminhos se separaram, pois segui na frente e não os vi mais. Mas foram alguns dos momentos mais fortes, marcantes e de felicidade que tive no Caminho.
 
Enviado por Alexandre Barros
 
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