Peregrino Walter Jorge

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O Santo Graal - XLVIII - A Opera de Parsival e o Graal
Walter Jorge

            Não foi somente os escritores, pesquisadores e historiadores que escreveram sobre o “Santo Graal”, caçadores de tesouros tentaram encontrá-lo sem sucesso, governantes tentaram descobri-lo nas cavernas para ter em suas mãos o poder do mando e da conquista. O que podemos dizer com referência aos compositores?

            Também eles foram atraídos pelo poder do “Graal” sobre as suas mentes, nesse artigo vamos abordar uma figura bastante controvertida devido aos seus pensamentos, o compositor Wilhelm Richard Wagner.

A Opera de Parsival e o Graal

            Wilhelm Richard Wagner foi um compositor alemão, considerado um dos expoentes do romantismo e dos mais influentes compositores de música clássica já surgido. Recebeu desde o seu nascimento em 22 de maio de 1813 em Leipzig, a benéfica influencia de uma família de artistas. Compôs grandes produções com textos baseados nas lendas épicas escandinavas e germânicas e da literatura clássicas, incorporando neles um pouco do espírito religioso, veio a falecer em 13 de fevereiro de 1883 em Veneza.

Wilhelm Richard Wagner

            Sua primeira ópera, composta em 1833 para teatros das províncias, chamou de “Die feen” (As fadas) e foi considerada tão complexa que somente foi levada aos palcos cinco anos depois de sua morte por volta de 1888.

            Na sua juventude foi acossado por problemas econômicos e amorosos que forçou a emigrar para Paris, aonde veio a fracassar como músico, não poude estrear nenhuma de suas óperas apesar de haver composto a estupenda “Rienzi”, elaborada para grandes teatros. De volta a sua pátria, a estreou com grande êxito e por fim foi aclamado.
            Como compositor de óperas, criou um novo estilo, grandioso, cuja influência sobre a música da época e posterior foi forte. Polêmico ao extremo, angariou ao longo da vida inúmeros desafetos.

            Sua música como extensão dos referidos textos, são magnificamente emocionantes. Naturalmente para seu Parsival, Wagner tomou como modelo o “Parzifal” de Wolfram Von Eschenbach e fez com ela uma espécie de um drama místico cristão. É sabido que o musico alemão leu a referida obra em 1845 durante sua permanência em Marienbad, porém leu o “Perceval” de Chrétien de Troyes em 1860 em Paris. Sem embargo, a fonte indubitável de sua opera é a obra de Wolfram, seu preferido. Inclusive ele havia composto “Lohengrin”, outra opera baseada nas palavras do escritor alemão. Em sua autobiografia, Wagner mesmo disse “Com um livro debaixo do braço (os poemas de Wolfram Von Eschenbach) me adentrei no bosque e, sentado as margens de um riacho, me distraia em companhia de Titurel e Parsival, personagens desses poemas tão estranhos, e sem embargo, tão familiares”.

Textos de Wagner autografados pelo Tenor John Mitchinson, pelo Diretor Edward Downes e pela Soprano Lorna Haywood, em uma versão de 1972

            E logo explica sua inspiração para a idéia inicial de Parsival: “A Sexta feira Santa me despertou antes um sol resplandeceste: o jardim florescia, os pássaros cantavam, e ao final, podia sentar-me na varanda da pequena casa para desfrutar da propicia tranqüilidade que tanto havia desejado. Inspirado por essa tranqüilidade, de repente me recorda de que era Sexta feira Santa e relembro qual a importância desta data se me havia presenteado lendo a Wolfram antes de compor o “Parsifal”.  Não me havia ocupado do poema de Parsival desde que estive em Mariembad (1845), quando idealizei “Los Maestros Cantores” e “Lohengrin”. Agora se forma uma idéia e a mesma se apodera de mim por completo, e, partindo de meus pensamentos sobre Sexta feira Santa rapidamente concebi todo o drama em três atos, e compus um esboço da idéia”.

Também alguns autores asseguram que nas fontes de “Parsival” existe uma evidente influencia budista, a que Wagner havia mostrado um grande interesse em o pensamento na literatura do Oriente. Na obra lírica que nos ocupa é evidente que o sentido do poema de Wolfram de ter tido outro tratamento por parte do músico, conforme se iam manifestando suas desenvolvidas idéias. O músico reconhece estas diferencias em uma carta enviada a Mathilde Wesendonck datada de 30/05/1859, antes de compor sua ópera, na qual explica sua própria visão da história:

O espanhol Plácido Domingo é considerado um dos mais destacados intérpretes de Parsival, nessa foto ele está com o Graal

            “Me eis disposto de novo desfavoravelmente com respeito ao poema de Parcival. Considerando bem as coisas, tenho a convicção de que se trata de um trabalho difícil em alto grau. Amfortas é o centro sobre o qual gira o assunto principal. Meditando sobre ele, fez-me lembrar de pronto muito claro que é semelhante a mim a Tristão no terceiro ato, porém com uma progressão de intensidade não imaginada ainda. A ferida ocasionada pela lança e a outra que tortura seu coração lhe causa tanto sofrimento que só aspira a vencer a morte. Em vão tem esperado a cura por meio da adoração do Graal, mas o Graal não só não remediara sua tortura, como também sinto que as aumentara, porque a contemplação lhe recorda a imortalidade. No meu julgamento o Graal é o cálice da ceia, no qual José de Arimatéia recolheu o sangue do Salvador crucificado. Que terrível significado adquire assim a situação de Amfortas com respeito a esse cálice milagroso! Ele sofre uma ferida ocasionada pela divina lança em uma pecadora aventura e deve seguir consagrando o sangue que verteu um dia do costado do Salvador ao morrer na cruz, renunciando e sofrendo pela salvação do mundo. Que abismo entre um sofrimento e outro!”.

            Em êxtase ante ao maravilhoso cálice que enrubesce com sublime e doce resplendor, Amfortas sente renovar-lhe a vida e afastar-se da morte ansiada. Ele vive e se reanima em sua vitalidade, porém a ferida fatal se abrasa, mas que nunca. A mesma adoração se tem convertido em dor. Como chegar ao fim? Como conseguir sua libertação?  Nessa forma leva sobre si, como uma carga, os sofrimentos da humanidade inteira por toda a eternidade. É por isso que deseja a afastar-se do Graal, desentender-se dele, na loucura de sua desesperança. Ele o deseja para poder morrer, mais foi designado para guardar o Graal. E esta eleição não foi realizada por um poder cego, e sim que recaiu nele porque era digno. Ninguém como ele reconhece a força milagrosa do cálice e sua alma anseia como a de ninguém contemplar o Graal, que ele surpreende-se de admiração, proporcionando-lhe o poder de viver, ao mesmo tempo em que o sofrimento é eterno. Deverei escrever toda esta e a sua musica correspondente? Ah! Não obrigado. Que outro intente tal empresa. Eu não levarei sobre os meus ombros uma carga tão pesada”.

             Não obstante tais afirmações, Wagner compôs seu monumental “Parsival”, bem que ao rítimo de suas próprias idéias.

Várias tem sido as gravações realizadas da ópera Parsival de Wagner, assim como também seus interpretes e diretores, nessa foto ilustramos a versão comandada pelo húngaro Ferencsik János

            Sua vida pessoal foi bastante atribulada. Era perdulário e por várias vezes teve de abandonar o lugar em que vivia por causa da perseguição dos credores. Gostava de viver no luxo. Era casado quando teve de mudar de Munique, na Baviera, para o exterior por causa de seu relacionamento com a esposa do pianista e maestro Hans Von Bulow, Cosima, que era filha de Franz Liszt e mais tarde se tornaria sua segunda esposa.

            Estamos quase chegando ao final desse palpitante assunto que tem motivado um volume cada vez maior das historias a seu respeito.

            Finalmente o que realmente será o “Santo Graal” ou simplesmente o “Graal”? Um cálice, um prato, uma pedra, um livro, um caldeirão, uma lenda, um sonho ou algo mais?

            Aguardem, nossas conclusões no próximo artigo.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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