Peregrino Walter Jorge

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O Santo Graal XXVII – O Graal Sangue - 3
Walter Jorge

            Não poderíamos encerrar esse assunto (O Santo Graal representando uma participação consangüínea de Jesus), sem trazermos ao conhecimento dos nossos leitores algumas palavras sobre a pessoa de Maria Madalena e o que dela se escreve.

O Graal Sangue – (terceira parte - final)

Quem era maria madalena?

            A Igreja Latina costumava celebrar juntas na sua liturgia as três mulheres de que fala o Evangelho, e a liturgia grega comemora separadamente; Maria de Betânia, irmã de Lazaro e de Marta; Maria a denominada de pecadora “a quem muito foi perdoada porque muito amou”; e Maria Madalena ou Maria de Magdala, a possessa curada por Jesus, que o seguiu e assistiu com as outras mulheres até a sua crucificação. Ela também teve o privilégio de vê-lo ressuscitado.

            Nosso primeiro passo será estabelecer a identidade da “outra Maria”, encontrada nos quatro Evangelhos. Existem fortes indícios de que Maria Madalena pode ser identificada como Maria de Betânia, a irmã de Marta e Lázaro, mencionada nos Evangelhos de Lucas e João. Essa amável Maria sentava-se aos pés de Jesus, enquanto sua irmã, Marta, servia os convidados (Lucas 10:38-42); depois, ungiu Jesus com bálsamo de nardo (João 11:2, 12:3).

Maria  Madalena em uma pintura de Caravaggio – 1596

Referências bíblicas a Maria Madalena incluem informações de que ela era uma das mulheres que acompanharam Jesus depois que ele a curou da possessão de sete demônios (Lucas 8:2, Marcos 16:9). Também é apontada como uma das mulheres aos pés da cruz (Marcos 15:40, Mateus 27:56, João 19:25) e uma das que chegaram à tumba às primeiras luzes da manhã da Páscoa (Marcos 16:1, Mateus 28:1, Lucas 24:10, João 20:1-3). O Evangelho de João afirma que ela foi sozinha ao sepulcro e encontrou Jesus, acreditando, primeiramente, que ele era o jardineiro. Chegou a abrir os braços para abraçá-lo quando reconheceu, chamando-o de “rabboni”, uma forma afetuosa da palavra “rabino”, “mestre”. Obviamente, essa Maria chamada “a Madalena” era uma amiga e companheira bastante íntima de Jesus.

            A Igreja ocidental tem uma antiga e forte tradição que apóia a idéia de que só havia uma amiga querida de Jesus chamada Maria. A bíblia Canção de Salomão interpreta com freqüência na tradição judaico-cristã como uma alegoria do amor de Deus por seu povo, era muito popular entre os cristãos durante a Idade Média, São Bernardo de Claraval (1090-1153), em seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos, comparou a noiva da canção, simbolicamente, como a Igreja e com a alma de cada um dos que crêem. O protótipo que ele selecionou para ilustrar essa “Noiva” de Cristo era Maria, a irmã de Lázaro, que se sentou aos pés de Jesus, absorvendo seus ensinamentos (Lucas 10:39-42) e que, mais tarde, ungiu os pés dele com nardo e secou-os com o próprio cabelo (João 11:2, 12:3). Mas São Bernardo também disse repetidas vezes em seus sermões que era possível que essa Maria de Betânia fosse a mesma Maria Madalena, assim como pela opinião de São Gregório Magno que viu indicada em todas as passagens do Evangelho uma única e mesma pessoa.

            Novecentos anos antes de São Bernardo, em Alexandria, um teólogo cristão chamado Orígenes (aproximadamente 185-254 d.C.) identificou Maria Madalena especificamente como a Noiva do Cântico dos Cânticos. Essa associação foi amplamente aceita e louvada na Idade Média.

Maria Madalena na Casa de Simão, o Fariseu
Philippe de Campaigne – 1656

O Evangelho de João identifica com clareza a mulher que ungiu Jesus com o precioso bálsamo como a irmã de Lázaro (João 11:2), e a tradição francesa chama Madalena de “a irmã de Lázaro”. A Igreja Católica Romana nem sequer tem uma data dedicada a essa Maria de Betânia, embora os dias de Marta e de Lázaro sejam celebrados no calendário anglicano. Seria de esperar que a Igreja honrasse essa “irmã favorita”, dedicando-lhe uma festividade, como faz com os outros amigos de Jesus. Entretanto, existe um dia em que se homenageia Santa Maria Madalena – 22 de Julho -, exatamente uma semana antes do de Santa Marta. É mesmo natural e correto que o dia da mais importante das irmãs-santa sejam celebrado em primeiro lugar. As festas dedicadas a Santa Maria Madalena, ficam restritas as comunidades paroquiais na qual têm o seu nome como Padroeira.

            No século VI, o Papa Gregório I estabeleceu que Maria Madalena e Maria de Betânia eram a mesma pessoa, o escritor Laurence Gardner em seu livro “A Linhagem do Santo Graal”, assim se expressa:

            “Para sermos precisos, ela jamais é chamada de Maria de Betânia na Bíblia. Ela e Marta são apenas chamadas de “irmãs” na casa de Lázaro de Betânia. O titulo completo de Maria era irmã Miriam Madala ou, como é mais conhecida Maria Madalena. Gregório I, Bispo de Roma (590-604), e São Bernardo, o abade cisterciense de Clairvaux (1090-1153), confirmaram que Maria de Betânia era Maria Madalena”.

            Ainda com referência ao assunto dos nomes, também devemos analisar o nome de Madalena que, às vezes, é escrito como Magdalena e tem variantes européias como Magdalene, Maddalena, Madeleine e Magdalen. Geralmente há uma sugestão de que o nome Magdalena deriva de um lugar chamado Magdala, e eles realmente têm a mesma raiz em migdal, que significa “torre”.Mas esse fato não é suficiente para determinar que Maria tenha vindo de Magdala. Sabemos apenas que ela se uniu à pregação de Jesus na Galiléia (ou seja, a região norte da atual Haifa).

            Maria Madalena era uma mulher de posição, instruída e descendente de uma família real, vejamos o que nos diz o escritor Laurence Gardner em seu livro intitulado “O Legado de Maria Madalena”.

            “Segundo Jacopo (1229-1298), o pai de Maria Madalena chamava-se Syro (ou Syrus). Como Syro, o Jairo, ele era o sacerdote chefe (subordinado ao sumo sacerdote de Jerusalém), e Maria faz sua primeira aparição bíblica como a filha de Jairo, que Jesus fez se levantar da morte em Mateus 9:18-25. Essa forma iniciatória de elevação da “morte” (trevas) figurativa para o nível da “vida” (luz) em comunidade foi parte de um processo de instrução chamado “o caminho”, realizado aos 12 anos. Na seqüência da filha de Jairo, Marcos 5:42 confirma o fato, declarando: “Imediatamente a menina se levantou e pôs-se a andar, pois tinha 12 anos. E logo foram tomados de grande espanto”.

            “Jacopo depois explica que Syro era um nobre sírio, cuja esposa Eucharia (mãe de Maria) era da família real. Ele também afirma que Madalena “nasceu de uma linhagem nobre e que seus pais eram descendentes da linhagem dos reis”. Em um manuscrito bem mais antigo do arcebispo Rábano Mauro, Eucharia é descrita mais detalhadamente como descendente da Casa Real de Israel, que não era a Casa Davídica da Judéia, mas da sacerdotal Casa Hasmoneana dos Macabeus, que reinaram em Jerusalém de 166 a.C. até a ocupação romana de 63 a.C. sob o general Pompeu”.

            A obra de Jacopo di Voragine, intitulada “La Légende de Sainte Marie Madalene”, contém sua grande compilação, a famosa “Légenda Áurea (Lenda Dourada).

Maria Madalena e os anjos (Guercino, 1622)

Todo ano, de 23 a 25 de maio, realiza-se um festival na cidade de Les-Saints-Marie-de-la-Mer, na França, no santuário dedicado a Santa Sara, a egípcia, também chamada de Sara Kali, a “Rainha Negra”. As pesquisas revelaram que esse festival, cuja origem remonta à Idade Média, homenageia uma criança “egípcia” que acompanhava Maria Madalena, Marta e Lázaro quando de sua chegada à região, num pequeno barco, por volta do ano 42 d.C. Parece que se difundiu entre os habitantes locais a suposição de que a criança, por ser “egípcia”, tinha a pele escura. Como não se encontrou nenhuma outra explicação razoável para a sua presença, deduziu-se, posteriormente que ela devia ter vindo da Betânia como serva da família.

            O nome Sara significa “rainha” ou “princesa” em hebraico. Essa Sara é também caracterizada nas lendas locais como uma “jovem”, não mais que uma criança. Existe, portanto, num pequeno povoado do litoral da França, um festival anual em homenagem a uma menina de pele escura chamada Sara. O histórico dessa lenda está no fato de a criança se chamar “princesa”, em hebraico. Uma filha de Jesus nascida depois da fuga de Maria Madalena para Alexandria teria cerca de 12 anos na época da viagem à Gália referida na história.

            Ela, como os príncipes da linhagem de Davi, é simbolicamente negra, “não reconhecida nas ruas” (Lamentações 4:8). Madalena era ela própria o “Sangraal”, no sentido de ter sido o “cálice”, ou receptáculo, que um dia carregara “in útero” a descendência real. A negritude simbólica da Noiva dos Cânticos e dos príncipes davídicos das Lamentações se estende a essa Maria escondida e a sua filha. O festival de Sara Kali, a Negra Sara, parece assim acontecer em homenagem a essa mesma criança simbolicamente negra.

            O tema da “negritude” da princesa perdida mencionada e sua identidade como Noiva-Irmã negra e filha de Sião, é importante demais para deixar de ser analisado com certa profundidade. Ele está refletido nos santuários da Madona Negra, na Europa, alguns dos quais contêm estatuas extremamente antigas. Acredita-se que a Nossa Senhora de Rocamadour, uma estátua que fica perto de Toulouse, no coração da região albigense, tenha sito visitada por Carlos Magno no século IX. Feita de cedro, suas mãos e seu rosto foram pintados de preto. Outras estátuas incluem Nossa Senhora de Valcourt (século X); Nossa Senhora de Myans, padroeira de Savoy (uma escultura com data anterior ao século XII); Nossa Senhora de Montserrat (século XII); Nossa Senhora de LaSarte (século XIII); e a Nossa Senhora da galeria subterrânea da Catedral de Chartres. Todas essas representações da Madona Negra parecem anteceder o poder da Inquisição.

            Uma segunda estátua popular da Madona Negra está em Chartres. Lembrando da discussão sobre Boaz – a coluna esquerda quebrada do Templo de Salomão em Jerusalém - parece mais do que uma simples coincidência o fato de que essa Madona Negra seja chamada de Nossa Senhora do Pilar. É claro que a razão óbvia é o fato de ela estar sobre um pilar. Mas alguém poderia ter escolhido esse local especifico para colocá-la. Seria mais uma referência oculta à outra Maria, a viúva de Jesus?

            Uma das Madonas Negras mais famosas é o ícone de Nossa Senhora de Czestochowa, a padroeira da Polônia, a quem o Papa João Paulo II prestava especial devoção. Credita-se a ela o fato de ter protegido a nação polonesa da destruição causada pelos exércitos de Gustavo Adolfo durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). A lenda diz que esse ícone de Nossa Senhora foi levado do Império Bizantino para a Polônia no século X. Curiosamente, o lado esquerdo do rosto da Madona apresenta um talho. Ela não apenas é negra como está ferida.

            Existe, ainda hoje, uma forte adoração a Sara no sul da França, que era especialmente significativa nos primeiros séculos da Era Cristã. Sara era retratada pelos artistas como tendo a pele escura por isso o apelido Kali (negra), do Sânscrito. Tornou-se muito adorada pelos ciganos desde então, pois estes são originários da Índia, e seu culto sempre foi proibido e seus devotos perseguidos pela Inquisição.

            Um fato curioso é que foi o mesmo papa – João Paulo II - quem consagrou em 4 de julho de 1980 a Basílica de Nossa Aparecida (o maior Santuário Mariano do mundo). Nossa Senhora da Conceição Aparecida padroeira do Brasil é também uma Santa de cor negra. Em 1978 a sua imagem sofreu um atentado que a reduziu em quase 200 fragmentos. A mesma foi totalmente reconstruída pela artista plástica Maria Helena Chartuni, na época restauradora do Museu de Artes de São Paulo.

            No livro “Segredos Perdidos da Arca Sagrada” de Laurence Gardner, ele se referindo ao assunto sobre Maria Madalena, informa:

            A irmã de Jesus, Maria (conhecida como Maria de Tiago ou, mais popularmente, Maria Jacó) acompanhou Maria Madalena à Gália no ano 44, como o detalhado em “Os Atos de Madalena” e no antigo manuscrito “História da Inglaterra” nos arquivos do Vaticano. Santa Maria Jacó foi uma sacerdotisa nazarena, que ficou mais conhecida na Europa como Maria, a Egípcia. Na Inglaterra, seu culto era difundido na época medieval; é retratada como uma sereia ao lado de Maria Madalena em uma janela na Igreja de Santa Maria, em Paris.

Maria Madalena de Pieter Pauwel Rubens – 1618

Mais adiante relata: “São Bernardo e seus Cistercienses fizeram bom uso da restabelecida Academia Judaica em Gellone ao compilar suas traduções dos antigos manuscritos de Jerusalém, após o Concílio de Troyes. Porém isso causou grande preocupação entre os bispos católicos, que não podiam descobrir nada do que estava acontecendo. Eles sabiam que Gellone fora, por muito tempo, uma base cultural de Maria Madalena e que os Templários faziam seu juramento a Betânia e à Madalena. Além disso, a catedral de Notre Dame era originalmente dedicada a ela, como “Nossa Dama”. Além disso ao sul de Gellone, perto de Narbonne, estava Rennes-le-Château, onde a igreja fora consagrada à Maria Madalena em 1059. Essa Região (oeste e noroeste de Marselha, no Golfe du Lion) era conhecida então como Languedoc – nome derivado do dialeto daquele povo: a “langue d´oc”.

            Os bispos estavam convencidos de que, qualquer que fosse a natureza do tesouro secreto dos Templários, ela residia em alguma parte do Languedoc ao sul da França e, assim, em 1209, o papa Inocêncio III decidiu enviar suas tropas. Um exército papal de cerca de 30 mil soldados entrou na região, sob o comando de Simão de Montfort. Eram enganosamente adornados com a cruz dos Cruzados da Terra Santa, mas seu propósito era absolutamente diferente. Haviam sido mandados para exterminar a herética seita Cátara (Os Puros); o papa e o rei Felipe II da França desconfiavam que eles guardavam o misterioso tesouro e estavam conluiados com os Cavaleiros Templários contra a Igreja de Roma”.

            Em alusão ao centro de Languedoc, Albi, a campanha foi chamada da Cruzada Albigense – ao menos é o que se diz. Porém, o nome tem uma implicação muito mais importante. “Albi” era, na verdade, uma variante da antiga palavra provençal “yilbi” (uma elfa); os catáros referiam-se à sucessão messiânica de Maria Madalena (o “Sangréal”: Santo Graal) como os “Albi-gens”: a linhagem dos elfos. De todos os cultos religiosos que prosperaram no período medieval, o catarismo era o menos ameaçador (oportunamente falaremos sobre a fortaleza de Montségur, um dos últimos baluartes dos catáros).

            Não são poucas as evidências sobre o referido assunto, em Vézelay ficava a grande Basílica de Santa Maria Madalena, e São Bernardo de Clairvaux, patrono dos Cavaleiros Templários do século XII, estava bem ciente dessa associação simbólica entre Salomão e Jesus, Abishag e Madalena. Por isso, ele exigia a obediência da Ordem ao castelo de Maria e Marta. A catedral de Notre Dame dos Templários da França fora originalmente consagrada a Maria Madalena, a Senhora da Luz, a catedral de Notre Dame de Chartes, descreve a unção de Betânia em seus magníficos vitrais de Madalena, concluindo encontramos no Sermão 57 do seu Sermão dos Cânticos, Bernard menciona Maria Madalena como “Noiva de Cristo”.

            Sobre esse tema historiadores já escreveram centenas de livro a respeito, no entanto o silêncio continua pairando sobre o Vaticano, nem um raio de luz emana dos segredos que a sua biblioteca contém sobre o assunto.

            No próximo artigo iremos trazer para os nossos leitores, um outro assunto ainda mais polêmico.

                O Santo Graal – A Cabeça de Deus.

            Aguardem.
 
Enviado por Walter Jorge
 
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