Peregrino Walter Jorge

Convide a um amigo a visitar este site
 
 
Peregrinação no Brasil - 8 - Caminho das Missões
Walter Jorge

            Poucas pessoas conhecem a história de um povo que há aproximadamente 5.000 anos saíram da Amazônia Peruana em direção ao Vale do Mamoré, dando início ao ciclo das maiores peregrinações que se tem conhecimento na história do nosso continente.
            Em 500 a.C. impulsionados pela agricultura semi-nômade, pela canoagem, pela índole guerreira e principalmente pela busca do Ivy Mara Ey a “Terra sem Males”, uma parte dos índios Guarani desceram o rio Madeira e ocuparam a Amazônia brasileira, outros seguiram o rumo do Ji-paraná, povoando a Bacia do Prata, para, em seguida povoar o litoral Atlântico.
            É sobre esse povo sofrido que o Caminho das Missões tenta resgatar no seu trajeto.

Caminho das missões (primeira parte)

O início
           
            O Caminho das Missões caminhada realizada no Estado do Rio Grande do sul, foi criado em agosto de 2001, por um grupo de 4 profissionais liberais que atuavam em uma agência de publicidade, em Santo Ângelo, para ser uma alternativa de desenvolvimento econômico regional, a exemplo do “Caminho de Santiago de Compostela” na Espanha.

    Redução de São Miguel Arcanjo

            O referido caminho é um roteiro pelas antigas estradas missioneiras que ligavam as Reduções Jesuítico-Guaraní. No percurso encontramos três Patrimônios Nacionais: os Sítios arqueológicos de São Nicolau (no município de São Nicolau), São Lourenço (em São Luiz Gonzaga) e São João Batista (em Entre-Ijuis), e um Patrimônio da Humanidade, São Miguel Arcanjo no município de São Miguel das Missões, além de dezenas de outros atrativos culturais e naturais.

            O grupo primitivo de idealizadores efetuou diversas caminhadas com o intuito de demarcar o roteiro, efetuar contatos com os moradores das áreas a serem percorridas, bem como com as autoridades municipais locais. O número dessas caminhadas consideradas experimentais foi em número de sete, sendo que a oitava e última antes da sua inauguração oficial, foi realizada no dia 16 de fevereiro de 2002 em um percurso de 180km entre as cidades de São Nicolau a Santo Ângelo, na qual estiveram presentes uns grupos de 14 caminhantes de diversas partes do Brasil estando incluso o autor do referido artigo. A essa caminhada foi batizada como: “Sua última caminhada da Fase Experimental”.

A História

            As missões Jesuítico-Guaraní foram implantadas durante os séculos 17 e 18 nas fronteiras dos impérios coloniais português e espanhóis. Aproximadamente 30 Reduções foram fundadas pelos jesuítas e pela administração espanhola nos vales dos rios Paraná e Uruguai, em território hoje pertencente ao Brasil, Argentina e Uruguai. Cerca de 150.000 índios guaranis viveram durante um século e meio uma experiência única da humanidade. O projeto de catequização dos jesuítas, a serviço da conquista territorial espanhola, teve como modelo as idéias dos mitos e lendas religiosas do paraíso cristão, e fez eco com a busca incessante da “Terra sem Males” dos guaranis.

            Da fusão das duas culturas, a guarani e a européia, nasceu uma nova sociedade que viria surpreender o mundo com seu sistema social cooperativo, baseado nos princípios da economia, da reciprocidade, e com o alto grau de desenvolvimento tecnológico e cultural. A sociedade missioneira, durante seu apogeu, foi alvo das disputas políticas expansionistas das cortes ibéricas (Portugal e Espanha) e teve seu final decretado com a guerra guaranítica (1754-1756) e a expulsão dos jesuítas do continente, em 1767/68.

            Com a expulsão dos jesuítas da América, a conseqüência foi à decadência das Missões. Os índios missioneiros, revoltados com as ações das cortes ibéricas e sem o apoio dos padres jesuítas, aos poucos foram abandonando os povoados dispersando-se pelo território platino. A floresta tomou conta das cidades abandonadas, e toda a experiência desenvolvida em 150 anos ruiu junto às paredes de pedra e barro das suas construções.

            Vencidos, espoliados e despojados de suas terras, os guaranis foram reduzidos a pequenos grupos errantes que atualmente sobrevivem da confecção e venda de artesanatos. Alguns estão em reservas, onde lutam para manter suas tradições e pela manutenção da posse das terras e a preservação da natureza.

            No período das disputas pelo território das Missões, que a partir de 1801 foi conquistado para o Brasil, as reduções foram saqueadas inúmeras vezes, e a partir de 1825, com a chegada dos imigrantes, grande parte do material foi reutilizado em construções públicas e privadas, acelerando o processo de destruição das antigas edificações. Hoje a herança missioneira está expressa na indestrutível grandeza de suas obras e nas raízes culturais do povo gaúcho.

A Cruz Missioneira

            A “Cruz Missioneira” é um símbolo místico da região do chamado “Território das Missões”, território esse que abrange sul do estado do Rio Grande (RS) e áreas do Paraguai e Argentina.

            Quanto ao seu verdadeiro nome, perde-se no tempo, ela é uma “Cruz Episcopal”, teve as suas origem na Idade Média, possuindo muitas semelhanças com as usadas pelos Cristãos nas Cruzadas, tendo uma importância muito grande entre os Cavaleiros Templários. Espalhado pelo mundo existe uma série de outras, como a “Cruz de Lorena”, a “Cruz de Borgonha” a “Cruz Episcopal”, a “Cruz Patriarcal”, a “Cruz de Caravaca” e muitas outras.

            Existe duvidas a respeito da sua primeira localização, atualmente encontra-se no Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, nas proximidades do Museu e presta-se para belíssimas fotos tendo como fundo as ruínas da Igreja da Redução de São Miguel muito bem conservada. Alguns informam que ela estava localizada no cemitério de São Lourenço ou também no próprio cemitério de São Miguel, no entanto, o que tudo indica, devido ao seu porte e peso, deveria estar localizada em algum ponto importante de alguma Redução como um símbolo a ser talvez venerado como a “Cruz de Cristo”.                                                                         
       

    A Cruz de Caravaca

O seu tamanho é de aproximadamente 4 metros de altura, entalhada em um único bloco de pedra grês, um verdadeiro monólito portando os seus braços em haste dupla, não temos dados sobre seu real peso, acreditamos que deva ter algumas toneladas. Devido a alguns detalhes nos seus entalhes os quais reproduzem os existentes na “Cruz de Caravaca”, como se fosse uma replica da mesma, julgam alguns que os Jesuítas a trouxeram daquela localidade situado na província de Múrcia na Espanha.

            Um outro ponto que se perde nas brumas do passado é quantas outras cruzes idênticas a essa existe, temos notícias da existência de outras em ex-Reduções, bem como em alguns outros locais na Europa.

A população católica personificada nos dois braços, veio a representar para o povo daquela região do Rio Grande (RS) mais do que um simbolismo, uma fé redobrada, uma esperança.                                                                           

Desenvolvimento do Caminho

            O trajeto inicial que era de aproximadamente 180km ligando as cidades de São Nicolau a Santo Ângelo, posteriormente em 2005, teve o seu percurso acrescido, passando a ter o seu ponto inicial na cidade de São Borja, ficando com 327km, o roteiro após a sua ampliação é o seguinte:

            De São Borja a Passo da Barca ...........................          17km
            Passo da Barca a Sarandí ....................................         20km
            Sarandí a Fazenda São Pedro .............................          15km
            Fazenda São Pedro a Samburá ...........................          20km
            Samburá a José Velho .........................................        27km
            José Velho a Fazenda ..........................................        29km
            Fazenda a São Nicolau ........................................         27km
            São Nicolau a Rincão dos Teixeiras .....................          31km
            Rincão dos Teixeiras a São Luiz Gonzaga ...........            17km
            São Luiz Gonzaga a São Lourenço Mártir ............            27km
‘           São Lourenço Mártir a São Miguel das Missões ...             23km
            São Miguel das Missões a Carajazinho .................          32km
            Carajazinho a Parque das Fontes ..........................         27km
            Parque das Fontes a Santo Ângelo ........................         15km

    Cartão do Peregrino no Caminho das Missões

            Atualmente é oferecido aos participantes dessa caminhada que conta com uma infra-estrura para dar apoio, um guia, que além de conduzir os mesmos, discorre sobre a sua parte histórica, três tipo de percurso são oferecidos:

            14 dias – 327km – de São Borja a Santo Ângelo;
              7 dias – 172km – de São Nicolau a Santo Ângelo;
              3 dias –   74km – De São Miguel das Missões a Santo Ângelo.

            O caminhante ao iniciar seu caminho, recebe um Cartão do Peregrino que deve ser apresentado nos locais credenciados com a finalidade de receber o selo do Caminho das Missões o que vem atestar, quando completo, a realização do mesmo.

            No próximo capítulo, para conhecimento dos nossos leitores, iremos trazer com maiores detalhes, o itinerário dos 14 dias a ser percorrido, partindo de São Borja até a sua conclusão em Santo Ângelo.
           
            Aguardem.  
 

Enviado por Walter Jorge
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright  1996-2003