Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - No Caminho Real - Depoimento de Vera Areão - 4
Walter Jorge

            Estamos chegando ao final da caminhada dessas duas mulheres (mãe e filha) que nos idos do ano de 2000, resolveram conhecer um pouco do que o nosso Brasil tem a oferecer em sua beleza natural e história.
            Na caminhada das duas não deixou de ter aquele cão feroz, não um, mais vários, que acabaram se curvando não só pelas bolachas de chocolate oferecidas, como pela simpatia e alegria das mesmas, apesar de que naquele momento a adrenalina estava a mil.
            O Guia que a Vera utilizou como base da sua caminhada, tinha sido recentemente publicado, motivo pelo qual só efetuaram o percurso contemplado pelo mesmo, ou seja, de aproximadamente 176 Km, um pouco mais de 12% do total do percurso de 1400 Km incluindo as duas variantes (vide mapa).

            Continuemos com a leitura da sua narrativa já no final de sua jornada.

No Caminho Real (quarta parte – final)

 7º dia – Pedra do Paraibuna / Simão Pereira – 130,4 Km – 22/07

            O trajeto hoje seria só de 10 Km. Um dia nublado, mas que parecia ser de sol. Não tínhamos pressa alguma. Aliás, pressa mesmo, só quando apareciam os cachorros. Acabamos saindo às 10:00hs. Logo passando a ponte, entraríamos no estado de Minas. Solange e sua mãe andaram uns 500m conosco. A mãe de Solange queria que trouxéssemos uns doces. Mas, não dava para ter mais peso. Uma foto, abraços e tchau.

            Iríamos visitar o museu rodoviário em Mont Serrat. Ao entrar na cidade, um rapaz nos pergunta se éramos do Sul. Era Neneco, que estava nos aguardando. É o responsável pelo museu e Ronald (que tinha passado no dia anterior), pediu a ele para nos recepcionar. Novamente, sentíamos em casa.
 
            No Museu tirei uma foto de Luciana e Neneco, junto à roupa de mergulho. Era toda de couro. Um peso de 25Kg na frente e outro atrás. Uma mangueira, leva até o compressor de ar (manual). Como deveria ser difícil naquele tempo, a extração de pedras preciosas no fundo dos rios. O museu era uma antiga estação de troca de cavalos e mulas, das diligências que por lá andavam. Achamos interessantes. Nunca tinha passado pela cabeça, que as diligências trocavam os cavalos.

            Nos falou Neneco, ser este o único museu daquela espécie na América Latina. E que havia algumas propostas em levarem para Brasília. Seria uma pena, pois o museu faz parte daquela história e nada tem a ver com Brasília. É muito cuidado e o chão lustra. Sugerimos o uso de pantufas, para não riscarmos o chão. Ele achava ótimo, mas o uso de pantufas, tiraria o emprego de 2 pessoas.

            As fontes existentes na Estrada Real estavam sendo tiradas do caminho e indo para lá. Acabou-se o filme e hoje, não conseguiríamos comprar. Não houve mais fotos no dia de hoje.

    Vera ao lado de uma antiga fonte, hoje a mesma se encontra no Museu Rodoviário

            Quando saímos do museu, já eram 11:00 horas. Mas, só faltavam 8 Km. Paramos num bar, um lanche. O sol está bastante quente. Trocamos as roupas na estrada e continuamos. Passamos por um prédio em ruínas, local onde funcionou o Registro de Paraibuna.

            O Registro era mais ou menos a Alfândega, onde era feito o combate ao contrabando do ouro e diamante. Nele também nasceu a mãe de Duque de Caxias. Uma lástima o seu estado, Tiradentes na sua época, também foi responsável pelo patrulhamento dessa região. Seguimos, muito sol. Os 8 Km pareciam terem se transformado em muitos. As costas doíam. O calor estava insuportável. Tive fortes dores nas costas e a cada 300 metros precisava parar. Foi o mais curto e o pior trajeto. Passaram 2 caras de cavalo. O boné de um deles voou para longe. Nos chamaram, “gringa”, e se poderíamos pegar o boné. Nos desculpamos, mas, 30 passos para traz e mais 30 para frente, nesse momento eram mortais. O dedo do pé incomodava e por vezes tive que tirar o tênis, que já tinha se rasgado em 2. Coloquei as sandálias sentindo um grande alívio. O trajeto era pelo asfalto. Agoniante para nós duas. Acredito que se tivesse 1 Km a mais, não iríamos. Que contradição. Ontem, quando deitamos, comentamos: só 10 Km – é moleza. Põe moleza em qualquer outro dia. Acho que o calor, o sol, não são os companheiros ideais para se caminhar. Principalmente, no horário de meio dia. Uma maçã, uma água. Nada. No Km 126,3 uma parada de ônibus. Mas faltavam somente 3 e poucos Kms. Paramos e descansamos.

            Resolvemos continuar. Muitos carros passando. Sentamos na entrada de uma porteira. Só queríamos chegar. Em Simão Pereira perguntamos pelo hotel. Faltava ainda 1 Km Andamos uns bons metros e novamente perguntamos: “Falta 1 Km”. Nos olhamos. Uma pracinha, um bar. Gritaria e foguetes. Tudo pareceu irritar-nos. Passou um Senhor e nos falou que o hotel ficava a uns 600 metros. Os 600 metros mais longos que caminhei até hoje. Só queríamos chegar. Um morro e é lógico: tínhamos de subir.

            Acredito que tudo tenha triplicado de peso. Passaram 3 ciclistas, após uns outros bons minutos de caminhada e falaram: o hotel, só falta 1 Km. Aí era morrer. Nossa, que briga com os Kms. Quanto mais andávamos, mais eles pareciam crescer. Na verdade, Simão Pereira só olhamos. Não curtimos nada. Após uma curva, avistamos: Pousada Boa Vista Country. Ela estava ali. Era só subir mais um pouquinho. Ronald veio nos receber. Que coisa gostosa. Tomamos 2 cocas, quase num gole só. Conversamos com seus pais, pessoas super amáveis. Nos fizeram sentir em casa. Fomos para o quarto, tirar botas, mochilas. Um gostoso banho nos deixou novamente em pé. Fomos para sala, assistimos a um jogo de futebol, após um super almoço. Lemos um Projeto de Ronald sob o tombamento de várias construções ao longo da Estada. Um Estudo e Projetos muitos bem elaborados. Ele sabe que é um trabalho lento e duro, pois depende muito dos políticos. Mas sabe que se não houver algum movimento, o pouco que resta de nossa história, também irá embora. Bom papo. O lugar é muito tranqüilo e bonito. Subi e conversei com a mãe de Ronald. Tinha interesse em saber sobre o Caminho de Santiago. Trocamos muitas experiências, a cada dia, novas emoções, novos amigos. A cada amanhecer, caminhar é nosso lema. Mais tarde chegou a irmã de Ronald e sobrinhas. Era o aniversário do pai dele e uma sobrinha. Luciana faria aniversário amanhã. Convidaram para participarmos da festa. Tinha um bonito bolo, com 3 velinhas. Uma era para a Lú. Foi um momento bem especial. Fiquei feliz por ela.  Longe de casa e ela tinha seu bolo de aniversário. Outros doces, salgadinhos, 3 parabéns cantados. Foi muito bom. A recompensa do dia de sol. Quando fomos dormir, já estava perto de meia noite. O papo rolou gostoso. Obrigada a ele, por todo carinho. Ronald nos comprou um filme. Amanhã teríamos fotos.

 8º dia – Simão Pereira / Castelinho – 152,3 Km – 23/07

            Acordamos às 7:30 hs. Uma ótima noite. Café, papos, abastecemos a garrafa de água. Ronald deu-nos maçã e laranjas, que seriam o nosso lanche. Tempo nublado, bom para caminhar. 8:15 hs – nosso horário habitual. O trecho é bastante tranqüilo. O rio estava situado ao lado esquerdo, vamos seguindo o seu caminho. Carros passam. A maioria Fusca. Hoje Luciana completa 27 anos. Certamente, o início de uma nova fase. Ela segue normalmente na minha frente. Seus passos são maiores, mas tem o cuidado de olhar sempre para trás. É o nosso penúltimo dia. Os caminhantes normalmente, não gostam quando está perto de terminar. A paisagem é bonita. Fotos e parada para refletir... Seguimos. Chegamos a Barão de Cotegipe. O lugar se resume basicamente à estação.
 
            Uma parada num bar. Uma coca-cola e paçocas. Um papo, o pessoal curioso.
À direita uma igreja abandonada no topo de uma colina. Uma enchente levou a ponte que ligava a Igreja ao lugar. Tentaram (segundo o pessoal do bar), reconstruí-la uma vez. Não deu certo. Então, fizeram uma nova igreja. Nos parece ter sido muito bonita. Está quente.

            A estrada deveria ser muito bonita, pois, embora hoje, com asfalto, é agradável caminhar nela. A impressão é de que vamos entrar numa pequena floresta. Não há acostamento, mas, muito pouco carro passou. Luciana é quem cuida do guia e nos leva. Eu gosto mais de seguí-la. Já por 8 dias pendurado em seu pescoço, já faz parte do nosso dia-a-dia. Tudo está tranqüilo. Iremos até o Castelinho. Seguimos. Km 144,2, vemos as residências no DNER abandonadas. É o descaso com as obras e coisas públicas. Comentamos, quantas outras devem existir em nosso país. Ficamos a pensar. Uma parada, uma olhada no guia. Comemos maçã.

            Seguimos para Matias Barbosa. A entrada da cidade é muito bonita, toda arborizada, uma calçada gostosa de se caminhar. Está quente e as sombras das árvores são ótimas. É bem limpinha. Matias Barbosa (o nome é homenagem a um aventureiro português). Era um importante registro. Paramos numa padaria (com bastante opção) e nos sentamos num banco da Pracinha, para comermos nossos sanduíches com sucos. O tempo começa a mudar rapidamente e começa a esfriar. Parece que vai chover. Colocamos as capas para cima e colocamos casacos.

    Capela centenária em Matias Barbosa

            Passamos pela Igreja da cidade, casa de antiguidades. Tudo fechado, talvez por ser domingo. A saída da cidade foi bastante desagradável. Fomos bastante importunadas. Foi um trecho bem ruim, do Km 148 até o 151. Homens passavam e mexiam com a gente. Na estrada, os carros faziam questão de passarem bem encostados, dando a sensação de que o retrovisor bateria em nós. Havia necessidade de ir bem pelo cantinho. Já estávamos pensando em amanhã pegarmos um ônibus, caso o caminho continuasse assim. Não nos sentimos seguras. Que alívio quando no Km 151,3 abandonamos a rodovia. Novamente gostoso caminhar. Parecia que ia chover. Vontade de chegar. No meio da tarde avistamos a Pousada Castelinho.

            O local é bastante bonito, com uma linda vegetação. Fátima veio nos receber. Havia muitos ônibus e cantorias. Um pastor recitava em um microfone. Para nós, aquele barulho era muito alto. Muita gente, muito barulho, buzinas. Não contávamos com isso, mas, faz parte. O pessoal da redondeza passa o domingo lá. Fazem pescaria. Era encontro de alguma Igreja. Nós só queríamos uma cama para deitarmos. Começava a chover e esfriar. O quarto era bem limpo e o banheiro também. Tomamos um gostoso banho. As cobertas é que cheiravam ruins. Pedimos outras, eram piores. O jeito era colocarmos roupas e dormirmos assim. Saímos para o bar, para jantarmos. Realmente, não era a nossa noite. A comida, provavelmente restos do almoço, com um aspecto ruim, tudo muito misturado. Mas, tínhamos fome. E era o jantar de aniversário da Lú. As pessoas com pés descalços e sujos entravam e saiam do balcão. Não foi legal. Tantos lugares, tudo tão limpo. Ainda bem que era a última noite. Lú acordou-se às 3 da manhã e não conseguiu mais dormir. Passamos frio, pois não dava mesmo para usarmos as cobertas. Queríamos que o dia clareasse. As 7:00, já estávamos prontas para seguir. O café da manhã: sem comentário – péssimo. Foi uma parada que deveríamos ter tirado. Realmente, no guia nem consta como hotel. Jamais retornaremos lá.

 9º dia – Castelinho / Juiz de Fora – 175,5 Km – 24/07

            A vontade era pegar um ônibus e irmos para Juiz de Fora, para comermos. Qualquer coisa, mas que tivesse higiene. Estava fresquinho e saímos a caminhar. Para nossa alegria, o caminho é bem gostoso.

            Andamos e toda impressão da noite anterior, já tinha passado. Estávamos nós novamente a caminhar. Olhamos, lá na frente alguns bois nos olharam. Paramos, pois eles tentaram voltar. Será que tínhamos que pular a cerca? Não pareciam muito felizes em nos ver. Nisso, chega uma menina, diz para Lú tirar o casaco vermelho, pega o cajado e manda os bois embora. Questão de prática, pois ela estava também toda de vermelho.

    Vera em um belo trecho em direção a Juiz de Fora

            Os bois continuaram até um sítio e nós, calmamente atrás.     Estava muito agradável caminhar assim. Sentíamos, que em breve iríamos terminar nossa etapa e conseqüentemente hora de voltar para casa. Eu não gosto do último dia. Não sei se a vontade é terminar logo ou, se a vontade é que não terminasse nunca. Chegamos em Caetés. Um lugar muito pequenino, porém simpático. Todos nos cumprimentavam. Lá, em um bar estava a irmã que cuida da Igreja, após nos ver fazer uma foto, veio com as chaves na mão abrir a Igreja. Falou que a pequena Igreja tem uns 150 anos. Muito singela e simples, com bonitas imagens. Necessita de reforma. O altar todo trabalhado à mão, veio da Itália. Teve orgulho em nos mostrar. Fiz minhas preces e agradeci por estarmos ali e termos conseguido fazer o caminho, de uma maneira muito alegre e tranqüila.

            A localidade tem uns 800 habitantes e tudo é bastante simples, mas limpinha. Continuamos. Estradinha de areia, já estávamos muito perto do final. Fotos e falamos que pegaríamos um ônibus para entrarmos em Juiz de Fora. A cidade seria visitada na próxima etapa, até Ouro Preto. Esperamos poder fazê-la. Agradecemos. Vamos andando, andando... No Km 159,7 do guia, o Hotel Fazenda do Lago, segundo informações está fechado.

            Daqui a pouco, pegaríamos um ônibus para entrarmos na cidade. Tudo já estava muito perto. Um lindo dia de sol, mas bastante frio. Paramos, uma maçã, Luciana resolveu que iria deixar ali seu cajado. O cajado, que tanto apoio nos dá. Arrumou-o direitinho encostado no mato e cerca, e a foto de despedida. Achou meio estranho deixá-lo. Afinal, tinham vindo juntos até ali. O que ela sentiu, só mesmo ela poderá dizer.

    Praça São Mateus em Juiz de Fora

            Não era hora de falarmos. O silêncio falou por nós. Não demos mais nenhum passo... Ficamos ali, olhando os matos, sentindo os cheiros. Uma borboleta amarela voa entre nós, talvez desejando-nos felicidade. Também não havia pressa tínhamos o resto do dia para nós. Alguns carros passavam, olhavam. Desenhei com meu cajado a areia do chão, dizendo tchau ou talvez um breve adeus... Ele voltou comigo. Já se tornou companheiro de várias jornadas.

            Para mim, ficou a sensação de que nada acabou. Só era mais uma etapa... A outra virá logo após.

            “O caminho, se faz ao caminhar”.

            Olho para trás, como talvez pudesse voltar. Sinto-me bem, tranqüila e agradecida, por tudo que pude ver, sentir e fazer, mas, é hora de voltar...

            Obrigada a todos, que de alguma maneira incentivaram nosso caminho, na Estrada Real.
            Vera. Para quem quiser contatar com as mesmas, o seu e-mail é: areao1@yahoo.com.br.

            Esperamos que os nossos leitores tenham apreciado a saga dessas duas mulheres desbravando um caminho ainda quase desconhecido dos brasileiros.
            Obrigado a Vera Areão e a sua filha Luciana.

            No próximo artigo iremos trazer para os nossos leitores mais um Caminho Brasileiro de Fundo Histórico.

            Aguardem.
 

Enviado por Water Jorge
 
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