Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - No Caminho Real - Depoimento de Vera Areão - 3
Walter Jorge

            Continuemos com a saga dessas duas mulheres mãe e filha, enfrentando o desconhecido, sendo olhadas por determinadas pessoas como uma coisa rara.
            Luciana apareceu com problemas devido ao peso do cajado, sua mãe, peregrina veterana do Caminho de Santiago de Compostela onde percorreu aproximadamente seus 800 km, não pensou duas vezes, comprou uma vassoura e de seu cabo transformou em um belo cajado, leve e prático.
            Tiveram a oportunidade de encontrarem um Castelo (quem sabe? Talvez encantado) na sua caminhada, infelizmente não puderam visitá-lo.
            Como tudo na vida têm as suas recompensas, à acolhida que receberam de D. Didi e de sua filha Rita compensaram os momentos de apreensão e receio.

            Continuemos com a leitura da sua narrativa.

No Caminho Real (terceira parte)

5º dia – Inconfidência / Hotel Fazenda Bethânia – 102,1 Km – 20/07

    Luciana mostra a pavimentação em pedra original

            Dormimos bem. Acordamos em nosso horário e às 8:15 estávamos prontas para sair após um gostoso café. Nos despedimos, agradecendo a noite passada com eles. Tinha sido de muito carinho, dando-nos força a seguir. Uma promessa de um dia retornarmos. Fotos de despedida, mais uma volta na pracinha e na venda da família. Dona Didi acompanhou-nos até a saída. Levaremos saudades.

            O dia estava agradável e cedo tiramos os casacos. Os pés não incomodavam. Estávamos muito bem. Hoje seria o trajeto mais longo: 25,3 Km. Pegamos uma estradinha de terra. Conversando, rindo, o tempo passando. Quando passamos no Km 80,3 (do guia), para um jipe, daqueles bem antigos, sem capota. Para e pergunta se queremos uma carona. Lu ficou em dúvida. Eu logo quis. Não pela carona, pois estávamos muitos a fim de caminhar, mas pelo fato de ser um jipe. Adoro jipes... Não teve dúvidas. Mochilas nas costas pulamos dentro dele. Era Ceci, um morador de Inconfidência. Pedimos para ir só até o cruzeiro. Ele falou: fica só a uns 500 metros. Mas era o suficiente. Foi bem gostoso. Nos despedimos e descemos do jipe. Uma foto, agradeci e pedi proteção à todos caminhantes. O visual é gostoso. Rural. Faz bem. Caminhando tranqüilas. O cajado riscava, desenhando a areia do chão. Parecia estarmos sem mochilas. Nada incomodava. Lu grita, na subida de um morrinho: “mãe, olha”. Na nossa frente lá em cima, dois cães enormes (eu achei que o claro fosse uma enorme ovelha). Não deu para falar. Eles vieram ao trote (essa é a palavra) para cima da gente. Foi uma sensação horrível e não tinham medo dos cajados. Parecia quererem nos morder. Nos viramos de costa e ficamos rodando. Eles rodavam também. Parecia não passar o tempo e nenhum carro passava. Lú lembrou-se das bolachas e continuando a rodar, abaixei-me e ela tirou as bolachas de chocolate da mochila. Um pedaço, dois, três. Bastou para que nos tornássemos amigos.

Luciana e os cachorros

            Andamos por mais de 8 Km juntos. Eles iam à frente e quando nos perdiam de vista paravam e sentavam. Ela, uma fila e muito esperta. Ele parecia muito bobo, embora enorme. Era um maschine (nem sabemos a MARCA...). Começaram a passar carros e paravam, preocupados conosco. Nesse momento, passou uma camionete e parou. Perguntou se queríamos carona, se os cães nos incomodavam. Era de Cláudio, um carioca que tem fazenda ali. Sua esposa caminha com eles, e leva um cajado nas mãos. Daí eles não terem medo. Falou também que eles não saberiam mais voltar. O que fazer. Eles não nos deixavam.

            As brincadeiras deles nos divertiam e o cachorro sempre levava a pior. Acabava sempre caindo. Certa hora caiu dentro de um banhado. Metade do corpo dentro. Entravam nas fazendas e ele nunca sabia sair. Tínhamos que parar e abaixar com nossos cajados a cerca para que ele saísse. Parou uma outra camionete. Era Ceci (o do jipe) e perguntou se queríamos carona novamente. Agradecemos e seguimos com nossos mais novos amigos. Queima Sangue estava perto. Ganhamos cana de uma senhora e mais 5 cachorros pretos saíram atrás da gente. Um bar. Paramos já haviam comunicado ao dono dos cachorros e um carro viria buscá-los, mas, nós teríamos que parar, pois ao contrário, iriam conosco.

            Uma coca, uma banana e água pro cachorro (a nossa água). Batemos um bom papo. Não tínhamos pressa em seguirmos. Contaram que o nome do lugar é porque há anos, mataram ali um homem e queimaram seu sangue. É gostoso ouvirmos essas histórias. Chegou o carro. Levaram-nos. Ela chama-se “carol”. Ele, tem 6 meses e não entendemos o nome. Ficamos com pena em deixarmos os amigos. Nos sentíamos seguras com eles. Hora de seguir. Iríamos dormir no Hotel Bethania. 12,9 km pela frente.

            Uma parada e descanso. O destino agora: Paraíba do Sul. Passada a Igreja de Santo Antônio (Km 95,2), começamos a sentir a realidade do trecho urbano. A chegada até a ponte sobre o rio Paraíba do Sul, nos foi bem complicada. Havia muitas bifurcações e a todo o momento tínhamos que perguntar. As calçadas com postes no meio faziam com que tivéssemos que andar na rua. Achamos este trecho urbano bastante sujo e super ruim. Ainda olham aos caminhantes de uma maneira desconfiados. Ficamos aliviadas quando achamos a ponte. Não tivemos a mínima vontade de ficar ali: Procuramos postais. Até agora não conseguimos encontrar nenhum. Uma vontade louca de chegar no hotel. Foi gostoso caminhar até Fernandó: a passagem por Paraíba, numa outra vinda, seria dispensada. Fomos até a antiga estação de trem. Restaurada e limpinha. Descansamos e seguimos. Fomos em direção ao trevo da BR 116. Trecho ainda urbano. Ruim atravessar o trevo da BR. Em frente, pegamos uma estradinha de areia. Novamente voltaria a ser gostoso. A areia, o cheiro do mato, em direção ao hotel.

            No meio da tarde, chegamos ao término de outra etapa. Quando passamos na entrada do hotel, um cheirinho gostoso de café. D. Tereza e seu marido nos aguardavam e logo trocamos abraços. Um bom quarto um gostoso banho e um café de recepção. O hotel é simples, mas o local é muito bonito. Logo chegou sua filha. Conversamos bastante. Era uma antiga fazenda da família. O jantar muito farto e gostoso. Papos com os outros hóspedes, uma televisão e cama. Estava muito frio.

 

 6º dia – Bethania à Paraibuna – 122,2 Km – 21/07
           
            Uma boa noite. Fria e bastante cobertas. Temos dormido, comido e bons banhos. Agradeço por isso. Parece ser novamente um bom dia para caminharmos. Um bom café. O marido de Tereza nos trouxe bananas para levarmos. Tereza achou melhor levarmos sanduíche, pois o trecho é super desabitado. Prontas e com água, seguimos. Logo de início uma boa subida. A estrada é toda de terra, como bem gostamos. O silêncio, o barulho da natureza. Que bom se fosse tudo assim. Ninguém passa, nenhum carro. Sabemos que não existem bares no trajeto.

            Vamos... Seguindo o guia. Muitos cachorros. De longe já nos latem. Difícil ver alguém. Carro, muito menos. Temos todo o tempo para observarmos a natureza. A cada dia, parece que a gente está mais leve. Estamos a sós, carregando nas costas, tudo aquilo que realmente precisamos. Nada mais do que está ali será preciso.                                                     
 

Um Cruzeiro no Caminho Real

           Todos têm sido amáveis e gentis. Não é normal verem duas mulheres sozinhas, de mochilas a caminhar. Olhamos tudo. O céu, as nuvens e as várias tonalidades da vegetação. Quantos tons de verde em um pedacinho só. Notamos que as fazendas são bastante abandonadas. Certamente foram grandes fazendas que, deixadas de herança, perderam-se no tempo. No quilômetro 113 não encontramos a Fazenda Gran Cruz. Ela já deveria ter chegado. Andamos um pouco: uma bifurcação. Paramos, pois a bifurcação parecia seguir para qualquer lado. Tinham a mesma trilha. Em um sítio à direita, vimos movimento. Chamamos até aparecer alguém. Já tínhamos passado da Fazenda Gran Cruz. Ela tinha sido vendida e o proprietário colocou o nome de Chaparrau. Perguntamos pela capelinha e ele nos falou ser a mais ou menos 1 Km para frente. Seguimos então, na bifurcação. Paramos para comer os sanduíches, que tínhamos ganhado no hotel. Uma maçã fez-se de sobremesa. Descansamos e seguimos. Conversávamos o quanto à viagem tinha sido, ou melhor, estava sendo boa. Tínhamos muito tempo para nós duas e também cada uma o seu. Falamos que como ríamos e topávamos tudo. Passamos pela Entrada da Cachoeira da Fazenda Santa Clara do Paiol. Um barulho gostoso e fresquinho. Havia também um quiosque, tudo no maior abandono e mato crescido. Aspecto de abandono de uma coisa tão bonita. A casa, mais para frente, tinha um ar bem pior. O descaso dos proprietários. Dá a impressão que eles preferem vê-la destruída a doar. Depois viemos, a saber, que o proprietário tem uma outra linda Fazenda. (Mundo Novo, parece o nome) e que ele não ligava para as outras. No outro dia, falando nos bares, conversa de bar, falaram ser ele uma pessoa bastante difícil de se lidar e não fazia ou ajudava em nada para a melhoria do lugar. Uma pena. Seguimos com os pensamentos: quanta terra. Um dia muito bom para se caminhar.

            Como é bonita a vegetação, o relevo. Uma boa caminhada ainda. Avistamos a tão esperada Pedra do Paraibuna. Valeu a espera. Digna de fotos. Neste trecho, como o chão era de areia e pouco trilhado, encontrávamos os furinhos de cajado. Certamente de Ronald e sua turma, que tinham passado um dia antes. Por vezes, os furinhos, ou melhor, as marcas tão juntinhas, davam a sensação de o caminhante estar cansado.

            É gostoso, pois é sinal de que alguém também caminhou por ali. Vamos... Sobe, desce, plano. Tudo está bem. Há união da gente com a natureza, com o carinho. Tudo conspira a favor e, os amigos lá de cima, certamente atentos para que estivéssemos sempre certas. Término da tão gostosa estradinha de chão. Uma placa indicava acesso ao hotel. Mas era por meio de matos e teríamos que abrir a porteira. E se tivessem cachorros? Paramos, mas resolvemos seguir o guia. No início do asfalto, vimos à placa que indicava: Pousada Hotel Fazenda “Pedra de Paraibuna” – Paraibuna-Levy Gasparian – RJ. Ainda estávamos no Estado do Rio. Retornamos por uns 500 metros até o hotel. Gostamos de vê-lo. Fomos recebidas pelos pais de Solange e Mauro. Que bom. Não tínhamos sinais de cansaço. Só Luciana que estava com uma incrível fome e pediu um sanduíche. Chegada a Paraibuna. O rio com as suas corredeiras, ótimo para “rafting” e a maravilhosa Pedra do Paraibuna, com o montanhismo, tornam-na uma gostosa cidade. Para completar, as velhas locomotivas “Maria Fumaça”. Hoje por ali, só passam trens de cargas.

            Nos acomodamos, no ap. frigobar e até televisão. Para um caminhante, isso é um luxo, mas, super gostoso. Muitos papos, histórias. Estávamos sem luz, por troca da fiação elétrica, tendo chegado somente às 18:00hs. Mas, a luz do refeitório e a energia dos chuveiros não vieram. Eram apenas, pequenos detalhes. Esquentaram um grande caldeirão de água e eu tomei um bom banho. Lú optou por ficar sem e lavou-se na água fria. Já não estava tão frio. À noite, conversamos, trocamos idéias e Solange falou sobre o projeto turístico para o lugar e um pouso para os parapentes. O jantar foi na cozinha. Bom, pois as cozinhas são sempre os lugares mais aconchegantes. Conversávamos sobre o caminhar, a troca de experiências, conhecimentos e o contato direto com os moradores. Impressionava cada vez mais, o carinho com que éramos recebidas. Nos recolhemos para o quarto. Uma televisão, cobertas. Logo o sono chegou. Nós acordamos quase 8 horas, depois de uma maravilhosa noite.

            Aguardem a continuação do relato da peregrina Vera e de sua filha Lú pela Estrada Real.
 

Enviado por Water Jorge
 
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