Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - No Caminho Real - Depoimento de Vera Areão - 2
Walter Jorge

            A Saga das duas caminhantes (mãe e filha) continua.

            Subiram a Serra sem ao menos desconfiarem dos problemas que poderiam acontecer com duas mulheres completamente desprotegidas, sentiram na pele o preconceito de não serem aceitas em uma pousada porque estavam andando a pé, mochilas nas costas e provavelmente com as roupas sujas. Será que seriam guerrilheiras do passado em pleno século XXI ?

            As duas não esmoreceram, seguiram em frente, sempre existe uma alma caridosa a ajudar o seu semelhante.

            Continuemos a ler o seu relato.

No Caminho Real (Segunda Parte)

3º dia – Nogueira / Itaipava – 54,1 Km – 18/07

    Luciana e Vera na subida da serra

            Acordamos em nosso horário de 07:00hs. Realmente, um bom sono. Tomado o café, hora de seguir para Itaipava. Mochila nas costas, cajados nas mãos, hora das fotos

            O dia parecia ser bom para caminhar. Faríamos do Km 42,5 até 54,1. Estávamos bem dispostas. Aproveitei a luz do abajur e sequei minhas calcinhas. No começo, caminha-se ainda entre algumas casas, mas não é mais tão urbano. Passamos numa loja e compramos uma vassoura (R$ 8,00), pois o cajado de Lú estava bastante pesado. Pegamos só o cabo. Fomos à farmácia, compramos dorflex e micropore. Nossos pés estão bem. Estamos tranqüilas. Seguimos com muita calma, cada uma no seu rítimo. As pessoas nos olham bastante e sempre que podem, perguntam o que estamos fazendo. O relevo com bastantes pedras é bonito e agradável. Olho as pedras e tenho uma certeza: jamais terei coragem para escalar uma, admiro quem o faz. Tem pedras enormes. Aliás, morros de pedras.

            Passamos pela Igreja de Nogueira, e chegamos ao oratório. Ele fica numa parede, direto na rua. Simples, mas bastante bonito. Fiz minhas preces, agradeci e pedi proteção para nosso caminho.

            Seguimos atentamente o guia. Não podemos errar. Não há marcação no trajeto, mas, o guia nos tem sido fiel e companheiro. Seguimos. Achei que a máquina fotográfica fosse pesar mais. Ando com ela no pescoço.

            Foi neste trajeto, encontramos com uma senhora sozinha, vendendo toalhas de prato, para arrumar um dinheiro para seu marido que estava na UTI. Não compramos, mas demos o dinheiro a ela. Era também de Florianópolis e morava por ali. A gente ficou triste, agradeci por poder estar ali caminhando, por querer caminhar. Bem diferente do caminhar de nossa conterrânea. Essas coisas me deixam meio ruim. Mas, existe em todo lugar. Falamos a ela, que iríamos rezar pela recuperação de seu marido. O trecho estava agradável, mas, logo chegamos na Estrada União e Indústria. Passamos por uma loja e Luciana comprou uma calça (cereja c/ flores). Ficou bonita. Ela estava com calor e a outra calça estava molhada. Já saiu com ela da loja. Aproveitei para ir ao banheiro e comemos uma maçã gostosa. Um telefone público e algumas ligações. A estrada é bastante movimentada. Continuamos a caminhar. Alguém nos para, e pergunta se eu era a Vera. Era Helô, a dona do Spa onde ficaríamos. Estava na cidade com sua amiga Sônia, fazendo compras. Foi super legal. Ouvir teu nome, em um lugar totalmente estranho. Combinamos de almoçar/jantar com elas. Nos despedimos e seguimos. Passamos no correio, compramos selos para mandar postais. Ainda não tínhamos encontrado postais em lugar algum. No Km 51,9 do guia erramos, pegando uma ponte anterior. Só nos demos conta no Km 52,2 quando manda seguir à direita. Se seguíssemos, estaríamos voltando.

            Encontramos ao lado do caminho um castelinho, aproveitamos e fizemos fotos do mesmo, interfonamos, perguntando se podíamos visitar. Muito bonito mesmo. Espiamos pelos buracos do portão, com os olhos cada vez mais abertos. Um castelo verdadeiro. Sem poder entrar, nos resta sonhar e imaginar. Asas aos sonhos.

            Parecia aquelas histórias de fadas segundo informações, todos os móveis foram a leilão e hoje ele é alugado para festas e filmagens. É realmente lindo e polo que pudemos ver, muito bem cuidado.

            Paramos em um bar. Descanso, mochilas no chão. Que alívio. Lú diz que esse novo cajado é bem melhor. Pedimos coca-cola. Não vendia coca. Foi o primeiro bar que entrei (não me lembro de outro) e não tinha coca ou pepsi.

            Hora de seguir, estávamos bastante perto. Vai dando uma preguiça. Avistamos o Spa, do outro lado do asfalto. Pular muretas com mochila, não é tão fácil para quem é baixa. Luciana foi devidamente fotografada. Chegada ao Spa.

    Vera e Luciana com um grupo de caminhantes

            Mais uma etapa. Sem dores, sem bolhas. Certamente estávamos cansadas. Mas bem. Muito verde. Tudo alegra e alivia a gente. Chegada, abraços e acomodações. Bastante frio. Conhecemos o pessoal e Sucrilho (um sagüi bastante bonitinho). Mais tarde Helô nos chama para almoçarmos com ela e Sônia, em sua casa. Comida integral farta e gostosa. Estava muito gostoso. Um creme de abacate (repetido várias vezes), foi fatal, para que não coubesse mais nada. Rolou um papo super gostoso. Já noite, subíamos para o Spa. Uma lareira, uma canastra, papos e mais tarde um chá. O carinho com que fomos recebidas é o ânimo para o dia seguinte. Um sonho demorado, muita coberta e cama.
 4º dia – Itaipava / Inconfidência – 76,7 Km – 19/07
 
            Acordamos cedo café e as 8:30 hs já estávamos no caminho. Teríamos 22,6 Km até Inconfidência. O dia parece que será bom. Atravessamos o asfalto, estradinha de chão. É bom caminhar assim. Era a primeira vez realmente, entre natureza. Parecia que o trajeto, a partir de agora, seria mais rural.

            Tranqüilas, chegamos a Pedro do Rio, antigo Sítio do Alferes Caetano. A estação de trem desativada. Parada para uma foto. É uma pena a gente ver a quantidade de estações desativadas. Algumas, até abandonadas. Deu-me uma vontade de andar de trem. Passamos num açougue, pois tínhamos R$ 50,00 e seria bastante difícil trocar neste trajeto. A sós na estrada. Nada passa por nós. Hora de um xixi. Abaixadas, ouvimos o barulho de um carro. Não deu tempo. Carro cheio de gente. Após algum tempo o carro retorna, abaixam os vidros e gritam: “mijonas”. Foi bastante engraçado e a cena deve ter sido bastante feia, para quem viu. É impressionante como rimos por qualquer coisa. Certamente é porque estamos super abertas, tranqüilas e leves. E tudo que nos chega são de risos ou profundo sentir.

            No Km 56,5 atravessamos o viaduto sob a rodovia Rio-Juíz de Fora. Uma cascata de água pela escada, nos fez parar novamente. Um barulho gostoso. (ao lado, um depósito de lixo. Pode?) Continuamos. Uma forte subida, alguns cachorros. Fomos bem. Placa do Sítio Bela Vista. Uma casa ao lado, um papo com o pessoal, bebemos uma deliciosa água de uma moringa de barro.

            Uma gostosa estradinha semicalçada. Não conseguimos saber, mas parece ser resto da antiga estrada, por causa das pedras não uniformes. Seguimos para Secretário. Estradinha de asfalto, sem acostamento. Mas, a paisagem é linda. Fotos, uma goiaba no pé. Não conseguíamos andar pela esquerda, pois as curvas (da estrada) faziam os carros passarem próximo ao barranco. Nos sentimos mais seguras indo pela direita com muita atenção.

            Seguindo, encontramos três ciclistas de Brasília. Tinham saído de Petrópolis até Juiz de Fora. Conversamos, trocas de e-mail e lógico, pose para as fotos. Essa troca de experiência é muito boa. Acharam legal, mãe e filha juntas. Dividindo, somando, rindo, diminuindo ou aumentando o passo para estarem sempre pertos. E nos elogiaram pela coragem de estarmos sós. Continuamos. Um bar perto da entrada de Secretário. Mais à frente, um orelhão e ligamos para casa e para Marita, que fazia aniversário.

            Um dia gostoso de caminhar. Muitas coisas para vermos, muitas sensações. Uma boa parada em Secretário. Fomos a uma padaria. Muito boa, com mesinhas para sentarmos e banheiro limpo. Comemos empadão de galinha e “milk shake”. Entrou na padaria, “Pedro” artista da Globo, que fazia vida privada. Ficamos a imaginar o que o levava até aí. Em secretário tem bastante lugar para se comer. Até um “self service”. Tudo bem limpinho. Conversamos com o pessoal e todos queriam saber o que duas mulheres faziam ali sozinhas. Sempre falávamos que vinha um grupo atrás. Eles achavam melhor esperarmos. Todos são bastante curiosos. Era hora de partir. Tínhamos ainda 12 Km. O guia fiel nos levava tranqüila. Um posto por aqui, uma placa, uma escola, uma bica.

            Seguimos. Estávamos super bem. Então, começamos imaginar de como poderia ser a professora Rita. Eu achei que ela era de meia idade, usava óculos e bem simpática. Lú achou que ela era bem divertida e pretinha. Essa coisa de imaginamos, é super gostoso. O caminho bem gostoso e a temperatura também. Não tínhamos nada mais a fazer, a não ser viver aquele dia. E estava muito bom. Isso da gente não saber o que vamos encontrar, é maravilhoso e a mente ia e vinha, numa constante criação. Ouvimos um barulho no mato. Eu só ouvi o barulho. Luciana viu um grande macaco a correr. Imaginei aquele macaco correndo atrás de nós. Nem pensar.

            Mais tarde, na casa da professora Rita, tio Heitor contou, que há muitos anos havia muito macaco, mas, uma febre acabou com eles. Agora, estavam reaparecendo.
            Adiante, encontramos vários bois e vacas, que foram andando a nossa frente, entrando numa clareira para passarmos.

            Depois encontramos 3 homens montados em cavalos. Mais tarde passamos por eles. Estavam tentando tirar uma vaca caída em um buraco. Os olhos de dor nos deixaram tristes. Caminhamos sem falar por algum tempo. Estradinha de areia, sol não muito forte. Notamos que estávamos sem água. Aí é que dá sede. Saber que não se tem. O negócio era caminhar. Inconfidência não deve estar longe. Nenhuma casa por perto. Após alguns minutos, uma casinha bem lá embaixo. Chamamos e pedimos água. Deixamos a mochila lá em cima e descemos rápidas, mas, um cachorro nos fez frear. Uma moringa cheia de água fresquinha. Que presente. Agradecemos e seguimos. Santa mulher e bendito sítio. Ficar mais atentas na água seria bom. Bem, na verdade, já estávamos caminhando com uma só garrafa de água e nunca cheia. Novamente no pique.

            Olhava o céu, via o desenho das nuvens. Estava agradável. Seguimos... Ao subir um morrinho, avistamos sinais de Inconfidência. Uns bons metros na frente, uma Sra. com uma criança. Nos aproximamos e logo imaginamos ser a professora Rita. Nos sorriu e veio a nos receber. Era D. Didi, mãe de Rita, que junto com sua netinha Inês, estava a nos esperar. Abraços e parece que já eram íntimas. Essas pequenas coisas são bastante grandes para quem está a caminhar. Primeiro, Helô a nos chamar pelo nome. Agora, D. Didi a nos receber. Foi um momento gostoso. Sua simplicidade, alegria, o orgulho de seu lugar, o prazer em nos hospedar, jamais esquecerei. Logo nos levou para sua casa (nossa casa também), e logo conhecemos Rita, que nos recebeu sorridente, nos oferecendo água, suco. Sentadas na varanda da casa, logo já éramos velhas amigas. Conhecemos seu pai, hoje acometido de um derrame, mas participativo na medida que podia. Veio Virgínia, que fez quitutes maravilhosos para comermos. Aproveitei para lavar roupas e depois fomos conhecer a cidade. D. Didi nos acompanhou em tudo. Fomos ao museu. Ela foi à primeira pessoa responsável, quando de sua inauguração. Olhamos com bastante calma. Nos chamou a atenção, uma foto de Tiradentes sem barba. Os ossos expostos, D. Didi nos falou que eram do braço de Tiradentes, embora a placa faça referência as pernas. Vimos também à foto de D. Ana, com quem provavelmente Tiradentes tenha tido uma filha com ela. Contado pelos moradores.

            Inconfidência era o antigo Arraial de Sebollas. É um dos lugares onde os ossos de Tiradentes ficaram expostos. Contam que na porteira de D. Ana, a maleta de Tiradentes (lá exposta) era de madeira. Imaginamos o peso. Fomos à pracinha, foto na Estátua de Tiradentes.

            Nos contou D. Didi, que quando o museu foi inaugurado, as casas foram pintadas de azul e brancas. Perguntamos sobre o por quê do branco e azul e alguém arriscou que seriam as cores da coroa.

            Fomos à Igreja, que estava sendo limpa, para a festa do final de semana. Nos convidaram a ficarmos para a festa. Bem que gostaríamos. Um grande Cristo numa cruz vindo da Itália. Muito bonito. Depois fui conhecer a casas paroquial, que era uma das construções da antiga fazenda. A casa grande, já não tinha mais. D. Didi falava com tristeza. O lugar é bastante gostoso. Um bom café, rosquinhas. Aproveitei para lavar minhas roupas. Luciana saiu para telefonar. Existe um telefone num bar, onde o dono faz a ligação e passa o fone pela janela. Achamos o máximo.
            Gostamos do lugar, das pessoas. O jantar foi excelente. Comemos bastante mesmo. Doces, eram as sobremesas. Muita conversa, muitas histórias do lugar. Tiradentes é figura constante. Hoje já está menos frio. Nos sentamos todos na sala. Família reunida, para assistir a novela “Laços de Família”. Todos ríamos e falávamos. Eis que entra um morcego. Imaginem a correria. Luciana correu com o pessoal para a cozinha. Eu me tranquei no banheiro. Bichinho pegado rimos bastante. Que susto... Só mesmo um docinho e um chá para baixar os ânimos. Hora de se recolher. Camas gostosas, cobertas e um bom sono. O que nos esperaria amanhã? Tínhamos vontade de ficarmos mais um dia por ali.

            Vamos continuar acompanhando a Saga da Vera e da Lú (mãe e filha), pelo Caminho Real.
            O que estará sendo reservado para as mesmas.

            Aguardem.
 

Enviado por Water Jorge
 
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