Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - No Caminho Real - Depoimento de Vera Areão
Walter Jorge

            Escrevemos no número anterior sobre a Estrada Real ou como muitos a chamam de Caminho Real e trouxemos para conhecimento dos nossos leitores um artigo sobre o real significado de Estrada Real no Brasil Colonial.

            A partir desse número, apresentamos o relato emocionante de uma peregrina e de sua filha que, embreando-se por aquele caminho, travou conhecimento com a sua beleza natural, com a exuberante fauna, conversou com os moradores situados ao longo do mesmo, sentiu frio, calor, teve medo e apreensões, no entanto não deixou de sorrir para a vida.

            Vamos deixar que o nosso leitor participe do Caminho Real através de suas palavras, a peregrina Vera Areão e a sua filha Luciana palmilharam o mesmo em julho de 2000.

            Para melhor acompanharmos os seus passos e nos deliciarmos com as suas aventuras, dividimos seu depoimento em alguns capítulos, dessa maneira cada um de nós poderá acompanhar e compartilhar a saga da caminhada de Vera e da sua filha Lú, duas mulheres com as suas mochilas desbravando nosso Caminho Real.

        Guia utilizado por Vera e Luciana

NO CAMINHO REAL (primeira parte)

1º dia – Até Petrópolis (RJ) – 27,5 Km – 16/07

            “Não é apenas passeio. O caminho exige muito. E a recompensa está na satisfação em contemplar o feito”.

            Recém chegada de Santiago de Compostela... “Trazendo na mochila, mil histórias para contar, nos olhos, o brilho de um vencedor e um coração cheio de amor para compartilhar...” Chega-me às mãos, a Revista Isto É (26/01/2000), com a reportagem: “Pé na Estrada, falando da Estrada Real e do lançamento do guia por Raphael Olivé do trecho Rio/Juiz de Fora. Não tive dúvidas. E, em 16/07/2000, junto com minha filha Luciana, às 11:00hs de um domingo frio e chuvoso, meu amigo Rafael Sarnelli nos deixava um pouco acima de “Raiz da Serra”, para iniciarmos nosso caminho. Mochilas nas costas, cajados na mão e a certeza de querer chegar, juntos com nossa força interior, partimos. Uma buzina do carro de Rafael, era o nosso início.

            No começo, meio inseguras, mas, logo conseguimos acertar o passo. Olhando para trás, víamos a Baixada Fluminense cada vez mais longe. Paisagem belíssima, uma cachoeira à direita. Nos doía ver o lixo jogado ao longo da Serra. Poucos carros passavam por nós e curiosos nos olhavam. Muitos homens na beira do caminho, algumas casas muito velhas, por vezes nos deixavam meio alertas. Mas não muito. Seguíamos em paz.

            Em Lopes Trovão uma parada em um bar à beira da Estrada. Uma coca-cola, um papo de futebol. Todos queriam saber aonde íamos. Nesse ponto, o tempo começou a chover. Fazia muito frio, muita neblina. Alguns perguntavam se era promessa. Seguimos em frente, pois o frio estava aumentando, fomos pernoitar em Petrópolis em uma pousada denominada de Pousada da Rua Tereza.

2º dia – Petrópolis / Nogueira – 42,5 Km – 17/07

            Uma noite dormida maravilhosamente bem. Nós acordamos às 7:30hs. Embalamos os dedos dos pés com micropore (rotina diária) e assim os dedos não roçam e não criam bolhas. Um dia de bastante sol, mas muito frio. Um gostoso café, hora de partir. Tínhamos combinado com Ronald (da Pousada de Simão Pereira) de nos encontrarmos às 9:30hs na rodoviária. Ele vinha com um grupo e iriam caminhar até Simão Pereira. Nós iríamos caminhar somente neste dia com eles. Seguindo o guia chegamos na rodoviária. Estávamos bem. Luciana arruma alguma coisa no pé. Nada pode incomodar e os pés têm que estarem sempre bem. Tiramos um pouco das roupas e nos sentimos melhores.

            Chega o ônibus de Juiz de Fora e desce o pessoal. Inconfundíveis. Mochilas nas costas, cajado nas mãos. Para que apresentações. Vêm os abraços. Andamos um pouco, paramos e Ronald pede para fazermos um círculo, fala um pouco sobre nosso caminho e faz um agradecimento. Um cajado no centro e todas as outras mãos em cima dele. Foi um momento muito bonito, de carinho, troca de energia e forças. Seguimos e na entrada do túnel da antiga ferrovia, a primeira foto do grupo.
            O caminho até Nogueira é totalmente urbano. Achamos muito ruim caminhar em pequenas calçadas, muitos carros. As casas quase começam nas calçadas. Parece bastante sujo. Bem diferente de ontem. Mas, entre tudo isso, tem muita coisa bonita a se ver. Estamos contentes. Caminhamos conversando com todos, trocando idéias e experiências. É impressionante. Todos já se sentem bastante íntimos. Parecemos uma filinha indiana em alguns trechos. O pessoal achou que fomos corajosas em fazermos a Serra sozinhas o que não é recomendável, pois está bastante abandonada e o número de assaltos e estupros é alto. Agradecemos aos nossos amigos e protetores.

            Uma foto na Fazenda Samambaia, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Não é possível visitar. Era um ponto de parada dos viajantes.

            Em Correias uma parada na praça e uma chegada na farmácia. Comprar: micropore, vick vaporub (para passar nos pés antes de caminhar) e dorflex (é sempre bom tomar um antes de dormir). Continuamos. Está agradável caminhar. Começamos a sentir deixar o grupo. O pouco contato foi bastante forte. Mas, Nogueira vem chegando e temos que deixá-los. Não queremos forçar. Ir até Itaipava seria bastante para nós e provavelmente estaríamos bastante doídas para o dia seguinte. Uma foto, abraços e desejos de bom caminho para todos.

            Muitos acenos e o grupo se foram. Nogueira é bastante bonitinha, tem uma pequena pracinha e algumas pousadas. É um local onde pessoas do Rio têm casa de campo. Bonitas casas e jardins. É bem limpinha. Saímos à procura de Pousada. Andamos, uma fechada, outra fechada. Estávamos bastante cansadas. Nos informaram sobre a Pousada dos Eucaliptos. Alguns bons metros. A mochila parecia ter triplicado o peso. Nogueira não é ponto de parada pelo guia, mas, mesmo assim, ficamos. Uma boa rampa e uma linda pousada. Decidimos ficar lá. Quando entramos, o rapaz que nos atendeu fez uma expressão tão ruim quando nos viu de mochilas e cansadas, que foi dizendo: custa R$ 80,00. Nem tínhamos falado nada. Queríamos apenas sentar e um tomarmos um copo de água. Nos sentimos super mal, pagando por apenas caminhar. Pensamos então, como são tratados os andarilhos. É um dos erros de nossas vidas o pré-conceito. Deixou bem claro que lá não tinha comida e que teríamos que sair para poder comer. Ficamos bastante tristes. Não havia mais o que conversar e saímos.

            Encontramos um Senhor com uma charrete e pedimos para nos levar ao próximo e único hotel aberto: Pousada Canto da Terra. Super bonita, toda em estilo inglês. Um apto ótimo, com frigobar e TV. Preço...R$ 137,00. Super salgado para um caminhante. O negócio era passar cartão. Fazia frio. Nos jogamos na cama. Um banho bastante prolongado deixou-me refeita. Um bom jantar, um papo gostoso com a proprietária e uma noite de sonhos.

            O que estará reservado para essas duas peregrinas mãe e filha na sua trajetória pelo Caminho Real?
            Aguardem.
 

Enviado por Water Jorge
 
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