Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 24 - Caminho ou Romaria a Bom Jesus de Pirapora
Walter Jorge

            No artigo anterior falamos sobre a caminhada ou Romaria do Padre Cícero ou “Padim Ciço” como é carinhosamente chamado pelos seus devotos, nesse artigo vamos dar continuidade às Romarias trazendo para os nossos leitores, uma outra Caminhada também denominada de “Romaria a Bom Jesus de Pirapora”. Essa Caminhada poderemos dizer que é “diferente”, porque nela tomam parte não só os pedestres, como também seguem cavaleiros, ciclistas, charretes, jeeps, motocicletas, carros e até equipamentos agrícolas.

Sua História

            Perde-se no tempo quando se iniciou realmente a Romaria de Caucaia do Alto e bairros vizinhos à Bom Jesus de Pirapora. A tradicional peregrinação inicialmente contou apenas com a mobilização das pessoas que foi se sofisticando até que, nos dias de hoje, contar com uma Associação civil sem fins lucrativos.

            É uma romaria diferente das demais, pois em síntese, é composta não só de pedestres, como também de ciclistas, charreteiro, cavaleiros, máquinas agrícolas, motoqueiros, jeeps e veículos de apoio. Cada bloco tem um encarregado (usa uma faixa indicativa no braço) que vai à frente junto com a bandeira, e um culateiro (de camisa vermelha) que encerra o segmento. O roteiro entre Caucaia e Pirapora é de aproximadamente 70 quilômetros.

Placa comemorativa aos 50 anos da Romaria

            Após todo esse aparato, na sua retaguarda vamos encontrar os carros de apoio: carro pipa, veterinário, ambulância, policia e caminhões do “prego” (para onde apelam os exaustos), os romeiros seguem a partir de sexta feira à noite e no decorrer da madrugada de sábado, rumo a Bom Jesus de Pirapora, repetindo a tradição de seus pais, tios e avós, numa demonstração inequívoca da cristalização dos costumes cristãos antigos.

            A história da romaria data de 1938 quando quatro amigos se juntaram aos romeiros de São Roque para irem a cavalo até Pirapora, participarem de uma missa e voltarem a Caucaia. Em 1939, os amigos repetiram a caminhada com os são-roquenses, e os caucaianos os esperavam em Araçariguama para prosseguirem juntos até Pirapora.

            Em abril de 1940, animados pelas peregrinações anteriores, Pedro Borges, Antonio Carrerro (ambos de Caucaia do Alto), Benedito Pires (Água Espraiada) e Durval Rocha (Vargem Grande Paulista) decidiram fundar oficialmente a primeira romaria de Caucaia do Alto à Bom Jesus de Pirapora levando uma bandeira nominativa, bordada em azul e branco por Dona Chiquinha Noronha, começava assim a epopéia religiosa do lugarejo de tradição cavaleira. Ano após anos pessoas se integrava a Romaria, buscando suas bênçãos. Cada um levava seu farnel com comida e água nos cavalos, já que naqueles caminhos de terra dificilmente encontrariam onde se alimentar.

            Em 1945, João Pires Justo aderiu ao cortejo manejando seu carroção de carga, puxado por 6 animais; em 1948 Dona Tonica foi a primeira mulher cavaleira a se juntar ao grupo; em 1950 Batista Ribeiro liderou um grupo de 10 pessoas criando o segmento de pedestre e logo mais em 1952, D. Soracy Bleinat Andrade Mendes passa a ser a primeira romeira pedestre.

            A cada ano que se passava o volume de cavaleiros participantes da romaria foram aumentando, bem com o número de ciclistas, pedestres, e aqueles que iam dirigindo seus implementos agrícolas, bem como houve a incorporação de jeeps e motocicletas.

            Em 1980, ao comemorarem os quarenta anos de romaria, o presidente da Associação Pedro Vaz, sugeriu um show para comemorar a data com alguma coisa diferente. Fernando Pires ajudou a organizar, e aí se iniciou a época dos shows de chegada em Caucaia. Esse primeiro show foi de Sérgio Reis.

            Em 1981 o jornal Estado de São Paulo noticiava a 41ª. Romaria em 11 de abril, na qual o número de participantes ultrapassava de 4.000. A partir dessa época, a romaria passou a acompanhar os temas da Campanha da Fraternidade da Igreja com sendo seus lemas; além da devoção, se inicia um processo e reflexão dos temas que envolvem a igreja.

            Em 1990 foi realizada uma exposição histórica sobre os 50 anos da romaria na EESPG Sidrônia Nunes Pires, quando foi doada uma placa comemorativa, fixada em Pirapora do Bom Jesus, com os nomes dos fundadores e dos presidentes das romarias de Caucaia do Alto.      

            Em 1999, além da imagem da Imaculada Conceição, foi reintegrada a do Bom Jesus, emprestada pelos são-roquense. Em 2000 a imagem do Bom Jesus foi doada para Caucaia do Alto integrando-se definitivamente à romaria de Caucaia do Alto e bairros vizinhos a Bom Jesus de Pirapora.

 

Origem da Devoção

            Pirapora do Bom Jesus é um dos tradicionais centros de encontro de devotos no estado de São Paulo só perdendo para Aparecida do Norte. A origem dessa devoção popular, esta ligada ao encontro de uma imagem de madeira de Jesus por um morador local no rio.

            Conta à lenda que no fim do século XVII a igreja de Nossa Senhora das Dores, em Bariri no interior do estado de São Paulo, foi saqueada. Parte do saque da igreja, onde ficavam armazenadas as imagens que serviriam para futuros aldeamentos, foi jogada pelos assaltantes no rio Tietê. Um dos objetos jogados no rio, uma imagem de 1,70 metros, apareceu no começo do século XVIII nos saltos de Pirapora, cujo nível tinha descido abruptamente devido à estiagem. O Sr. José de Almeida Neves após a retirada da imagem do rio guardou-a em um paiol de milho que pegou fogo, entretanto a mesma nada sofreu. Levou em seguida a imagem para a sala de sua casa, onde arrumou um pequeno altar doméstico enfeitado de flores. A noticia correu célere pela aldeia e muitos foram até lá rezar para a imagem do Senhor Bom Jesus.

Igreja de Bom Jesus de Pirapora

            Devido ao problema de espaço na sua casa, Neves resolveu então levá-la para Santana de Parnaíba, onde ficava a cúria da região. Mas ao chegar ao Descanso, “um lugar que existe até hoje”, o carro de bois que levava a imagem atolou. “Nem com duas parelhas de bois conseguiram desatolar o carro”. Nesse momento passa um mudo que exclama: “Não adianta levar a imagem pra frente que ela quer ficar aqui”. Dessa maneira surgiu então a fama milagreira da Imagem. A imagem retornou então a Pirapora, e está guardada até hoje no museu da cidade.

            E assim se iniciou uma tradição de romeiros que até hoje acorrem a Pirapora para rogar ao Bom Jesus.

            Em 1995, foi inaugurada uma praça, construída no local onde foi encontrada a imagem no rio, que recebeu o nome de Praça do Encontro. Na praça foi colocada uma cruz, no local exato da descoberta da imagem, e um painel da cena da descoberta.

            O atual Santuário do Senhor Bom Jesus, no centro velho de Pirapora, com suas duas torres apontadas para o céu, seria a terceira igreja construída no mesmo local. A primeira capelinha, onde a imagem foi guardada depois da casa do Sr. Neves, teria provisionada em 1725, um ano depois do encontro da imagem. A data de 6 de agosto de 1730 ficou como o dia da primeira festa do Bom Jesus.

            Em 1793 a capela foi reformada, e em 1862 foram efetuadas umas séries de reformas urgentes, pois a capela de madeira estava em ruínas. Em 1882 começou então a construção da atual igreja, que terminou em 1887 com o tamanho e a altura de hoje. A imagem do Bom Jesus passou por uma restauração profunda e voltou para seu nicho protegido por vidros a prova de bala.

            Para maiores informações consultar sites sobre o assunto.

            No próximo artigo iremos abordar mais um Caminho Brasileiro.

            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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