Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 23 - Caminho ou Romaria do Padre Cícero – (02)
Walter Jorge

No artigo anterior falamos sobre o início da vida do padre Cícero, bem como dos problemas advindo pelo fato de que uma beata, Maria Araújo, não ter conseguido engolir a hóstia a qual transformava-se em uma substancia vermelha, dando motivo a interferência do Bispo da arquidiocese do Ceará.

Romaria do Padre Cícero (Segunda Parte – Final)

            Estando a evolução dos acontecimentos a ameaçar um final desastroso, não restou a dom Joaquim outra alternativa senão a de formar uma Comissão de Inquérito com sacerdotes competentes, jurídica e teologicamente, para verificar “in-loco” o tão extraordinário fenômeno que todos teimavam em considerar milagroso.

            Tal Comissão, considerada de alto nível, foi constituída pelos padres Clicério da Costa Lobo, chefe – comissário e Francisco Antero Ferreira, secretário. Os trabalhos de investigação se iniciaram em nove de setembro de 1891, após três dias de recolhimento e orações. Seguindo orientações superiores, a comissão levou a beata Maria de Araújo para a Casa de Caridade do Crato, a fim de que seus trabalhos pudessem ser conduzidos sem a interferência do padre Cícero. Mesmo assim o fato extraordinário se repetiu. E a comissão maravilhada ante a perspectiva de estar assistindo a um milagre autêntico, concluiu o inquérito dando parecer favorável.

            O resultado não agradou a dom Joaquim que, em 19 de julho, já antecipara optando por uma Decisão Interlocutória, proibindo o culto aos panos ensangüentados e exigindo uma retratação pública do padre Cícero que devia dizer ao povo que não acreditava naquilo que acreditava. Foi criada outra comissão sob a chefia do padre Alexandrino de Alencar. Em dois dias, de 20 a 22 de abril de 1892, esta concluiu as investigações com parecer desfavorável ao “milagre” e que serviu de orientações aos censores eclesiásticos em Roma, culminando com a pena máxima de excomunhão, que não foi posta em prática em face da perigosa repercussão que certamente iria causar.

            Suspenso de ordem, proibido de oficiar atos religiosos, padre Cícero a tudo se submeteu com resignação. Foi a Roma, por convicção superior, lá permanecendo quase nove meses. Lá reconquistou o direito de celebrar missa e, regressando a Juazeiro, estava convicto de que seria reabilitado pela igreja. Por fim, novas sanções lhe foram impostas, sendo definitivamente suspenso de ordem.

            Os romeiros, que não podiam encontrá-lo na Igreja, se conformaram em ouvi-lo diariamente em sua casa, em busca de conselhos, bem como de proteção espiritual. E ele atendia a todos. Recebia e distribuía esmolas. Aconselha-os oralmente e por escrito. Era o padrinho de todos. Logo a seguir, privado dos misteres religiosos, padre Cícero dedicou-se à política, atendendo a apelos dos amigos, como Antônio Nogueira Acioli, substituído na chefia da presidência do estado do Ceará pelo Coronel Franco Rabelo, mais para evitar que mãos estranhas conduzissem os destinos de sua cidade, com a mesma ordem que conseguira até então.

            Ao lado do Padre Alencar Peixoto, Dr. Floro Bartolomeu da Costa e outros amigos, padre Cícero fez sentir  a sua ação política, empreendendo o movimento pró-emancipação de Juazeiro da jurisdição do Crato, fato consumado com êxito em 22 de julho de 1911. Com autonomia municipal, Juazeiro teve na pessoa do padre Cícero o seu primeiro prefeito, cuja posse aconteceu em 4 de outubro do mesmo ano. O padre Alencar Peixoto não gostou, já que reclamava para si esse direito, pois foi pensando naquele cargo que ele abraçara o movimento de independência e, inconformado, rompeu a amizade com padre Cícero e Dr. Floro, saiu de Juazeiro e depois lançou um livro: “Juazeiro do Cariri”, onde faz severas críticas aos dois ex-amigos. Com isso, quem ganhou foi o Dr. Floro que, ao lado e à sombra do padre Cícero, desfrutando do seu enorme prestígio, conseguiu ser o verdadeiro político de Juazeiro, sendo depois eleito deputado estadual e em seguida deputado federal.

Foto da antiga praça central de Juazeiro do Norte

            Em 1913, padre Cícero passaria a ser novamente o centro de acirrada polêmica política, depois de ter sido afastado do cargo de prefeito (11 de fevereiro) pelo Coronel Franco Rebelo, presidente do Estado do Ceará. Dr. Floro, na verdade, fora convocado pelo Partido Republicano Conservador para a chefia de uma revolução para depor Franco Rabelo do governo cearense, eleito que fora pelo partido contrário. Historiadores creditaram ao padre Cícero a liderança do movimento sedicioso o que sempre negou. Todos, porém, concordam que a participação dele foi necessária, pois somente ele, com seu indiscutível carisma e liderança seria capaz de conseguir a adesão dos combatentes. Armas, munição e estratégia, ficaram a cargo exclusivo de Dr. Floro.

            As tropas rebelistas, aquarteladas em Crato, apesar de muito bem municiadas, foram derrotadas no primeiro combate realizado no Cariri. Depois, os rebeldes seguiram em caminhada vitoriosa com destino a Fortaleza, combatendo e vencendo as forças do governo que encontravam pelo caminho. O movimento triunfou. Fraco Rabelo foi deposto. Dr, Floro cresceu politicamente a nível nacional. Padre Cícero foi reconduzido ao cargo de Prefeito, onde permaneceu até 1927, onde terminou arranjando um punhado de inimigos que passaram a criticá-lo chamando-o de protetor de bandidos.

            Padre Cícero veio a falecer no dia 20 de julho de 1934, com 90 anos de idade, em Juazeiro do Norte, acometido de renitente enfermidade renal e outras complicações orgânicas. Sua morte, como era de se esperar, causou profunda e incontida consternação no seio da população local assim como aos seus milhares de devotos espalhados por todo o Nordeste do Brasil. Muitos pensaram que morto o ídolo, a cidade que ele fundou e a devoção à sua pessoa acabaria em pouco tempo. Nada disso, porém aconteceu.

Juazeiro do Norte

            A cidade de Juazeiro do Norte localizada a 600 km de Fortaleza, é hoje a segunda maior cidade do interior cearense, só perdendo para Fortaleza sua capital.  Em 1872 era apenas um arraial com poucas casas de tijolo e uma rústica capela. No dia 11 de abril daquele ano, cavalgando um jumento, como um nazareno sertanejo, o padre Cícero adentrou Juazeiro e, desde esse dia em diante, nem Juazeiro e nem o Seminarista seriam o mesmo. Juazeiro do Norte contínua no seu ritmo de desenvolvimento, e ele (Padre Cícero) continuam sendo uma das figuras mais destacadas do clero brasileiro, objeto de estudos por parte de historiadores e cientistas sociais, em função das muitas teses de mestrados defendidas, e doutorados no País e no exterior, o seu nome transformou-se num robusto volume editorial, com mais de uma centena de obras publicadas a seu respeito afora um incontável número de artigos e trabalhos diversos espalhados pela imprensa em geral, sendo inclusive tema de filmes e documentários de televisão. Segundo dados da Prefeitura local o número de romeiros que visitam a cidade anualmente é de aproximadamente dois milhões. Juazeiro atualmente vive à sombra do romeiro. Suas Industrias, seus prédios modernos, seu progresso e até seu estádio de futebol (o Romeirão), estão intrinsecamente ligados à presença dos romeiros.

            Lendas rondam a história do padre Cícero. No local de sua residência hoje transformada em Museu Padre Cícero, é contado a todos os seus visitantes que o pároco costumava relatar para seus amigos mais íntimos, que a cidade de Juazeiro do Norte era santa e enfeitiçada. Dizia que, caso houvesse uma guerra, um manto cobriria toda a cidade, deixando-a invisível aos olhos dos inimigos que nunca conseguiriam atacá-la.

Sua Romaria

            O dia do Romeiro , em novembro que antecede ao dia de Finados, consegue reuniu-se mais de 500 mil pessoas. As romarias duram quatro dias a partir de 30 de outubro e o movimento é maior em 1º de novembro, quando os peregrinos ou romeiros, saem em procissão da Igreja Matriz sobem a Ladeira do Horto acompanhando os painéis que representam as passagens da Via Sacra até a Igreja Bom Jesus e em seguida seguem em direção a Capela de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro (1908), onde está enterrado o corpo do padre Cícero, carinhosamente chamado de “Padim Ciço” . A missa ocorre na Matriz e é chamada de “missa do chapéu”. Outras datas também levam milhares de romeiro a Juazeiro do Norte: 15 de setembro (dia dedicado a Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade), 2 de fevereiro (N.S. Candeias), 20 de julho (morte do Padre Cícero e 24 de março (data do seu aniversário).

Monumento ao Padre Cícero na Colina do Horto

            Em sua homenagem foi erguida uma enorme estátua com 25 metros de altura e mais 8 metros de base, a mesma encontra-se localizada na Colina do Horto, local que também abriga um museu e uma capela dedicada ao padre Cícero, o local dista da cidade aproximadamente sete quilômetros e o percurso é realizado a pé, é comum encontramos romeiros efetuando a referida romaria de joelhos em pagamento de promessas efetuadas.

            Apesar da Igreja Católica não considerar o padre Cícero Romão Batista um santo, ela não censura os milhões de devotos que o consideram um santo homem de Deus, inclusive incentiva os romeiros a venerarem Padrinho. Rejeitado pela Igreja, tornou-se o verdadeiro Santo dos nordestinos e como tal é venerado à revelia de Roma.

            As romarias a padre Cícero são vantajosas para todos. A Igreja Católica, os empresários, os políticos e todos os setores da sociedade juazeirense são beneficiados pelo grande fluxo de dinheiro trazido pelos consumidores desse sacerdote que literalmente abarrotam, as ruas e praças dessa cidade.

            Para maiores informações, consultar sites sobre o assunto.

            No próximo artigo iremos abordar mais um Caminho Brasileiro.         

            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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