Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 22 - Caminho ou Romaria do Padre Cícero – (01)
Walter Jorge

            Através de uma série de artigos, trouxemos ao conhecimento dos nossos leitores, da existência de uma série de caminhos peregrinos existentes no Brasil, quer fossem de cunho históricos, quer de cunho religioso ou finalmente caminhadas ou trilhas de fundo ecológico.

            No Brasil determinadas peregrinações são praticamente chamadas de romarias, tradição trazida pelos portugueses quando demandavam um determinado trajeto abrangendo uma distância de alguns quilômetros. Quando as mesmas são  realizadas em distâncias menores na qual são acompanhadas ou não pela imagem do Santo padroeiro do local, a essas são chamadas de procissões.

            Praticamente em todas as Igrejas e ou Capelas que têm por tradição o uso das romarias ou procissões, existe uma sala denominada de “Sala (ou salão) dos Milagres”, onde são depositados não só fotos, como peças fabricadas em cera de partes do corpo, em uma demonstração da realização do pedido alcançado.

             Existe uma série muito grande das mesmas em todo território brasileiro, não poderemos deixar de aqui citar a romaria dedicada ao padre Cícero em Juazeiro do Norte.
                         
                                                                             
Romaria do Padre Cícero (primeira parte)

 

Padre Cícero

           Padre Cícero Romão Batista nasceu na cidade de Crato, região sul do Estado do Ceará, em 24 de março de 1844. Filho de Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana, carinhosamente chamada de Quinô.

            Desde cedo o menino Cícero demonstrou interesse pela vida sacerdotal, pois era sempre visto na igreja, ora ajudando o vigário nas suas tarefas, ora lendo histórias dos santos, inspirando-se na vida de São Francisco de Sales decidido a manter-se em permanente castidade, conforme está escrito em seu testamento.

            Aos 16 anos matriculou-se no colégio do renomado Padre Rolim, em Cajazeiras, Paraíba, em 1860, onde ficou menos de dois anos, pois, com a morte inesperada do pai, vitima de cólera, em 1862, teve que interromper os estudos e voltar para casa, a fim de cuidar da família – a mãe e duas irmãs.

             A crise financeira decorrente da morte do pai transformou a todos e só aos 21 anos de idade, com a ajuda do seu padrinho de crisma, Coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, Cícero ingressou no Seminário de Fortaleza, em 1865. Cinco anos depois foi ordenado sacerdote. Em janeiro de 1871 retornou a Crato, onde ficou aguardando nomeação para prestar serviço em alguma paróquia. Em 24 de dezembro do mesmo ano, atendendo a convite do Professor Semeão Correia de Macedo, celebrou missa pela primeira vez no povoado de Juazeiro, onde permaneceu três dias em contato com o povo, tendo decidido poucos meses depois fixar residência ali, na função de capelão. Tão logo chegou tratou de melhorar a capelinha erigida em 1827 pelo primeiro capelão, padre Pedro Ribeiro de Carvalho, adquirindo várias imagens com o fruto das esmolas dos devotos.

            Foi o começo de uma obra que, anos depois, perpetuou a memória do padre manso e bondoso, austero quando necessário, piedoso e trabalhador que viria a ser cognominado de PATRIARCA DO NORDESTE.

Torre Padre Cícero com 115 metros

           Naquela época, sob o ponto de vista comercial, o povoado de Juazeiro oferecia pouca coisa aos seus habitantes. Não havia economia de mercado propriamente dita. Imperava a miséria e a marginalidade despontava como conseqüência natural. A esperança de uma mudança nesse quadro era representada pela presença do Padre. Assim aquele jovem sacerdote tratou de restabelecer a ordem e os bons costumes do ambiente, conquistando rapidamente a simpatia dos habitantes, tornando-se autêntico líder da comunidade. Juazeiro experimentou, então, os primeiros passos de crescimento, atraindo pessoas da vizinhança, curiosas para conhecer o capelão que tinha vindo do Crato, aquele padre de baixa estatura, pele clara, olhos azuis, acompanhado sempre e se cajado. Usava uma batina preta e um chapéu da mesma cor.

            De início o padre Cícero gozava de estima e confiança do novo bispo do Ceará, dom Joaquim José Vieira, bem como do bispo anterior, dom Luís Antônio dos Santos, para quem padre Cícero era um anjo.

            Consta que em agosto de 1884, quando da visita pastoral ao Crato, dom Joaquim fez questão de enaltecer o trabalho do padre Cícero. De passagem pelo povoado de Juazeiro, para consagrar a capela de Nossa Senhora das Dores iniciada pelo padre Cícero, em 1875, ele deixou escrito ali o seguinte: “A capela começada pelo padre Cícero Romão Batista, sacerdote inteligente, modesto e virtuoso, é um monumento que atesta eloqüentemente o poder da fé da Igreja Católica Romana, pois é admirável que um sacerdote pobre tenha podido construir um templo vasto e arquitônico em tempos anormais qual aquele que atravessa esta diocese assolada pela seca, fome e peste”. Posteriormente acrescentou: “A virtude do padre Cícero enche todo o vale do Cariri”.
           
            O bispo, porém não sustentou essa opinião por muito tempo, porque algo muito grave aconteceu para martirizar a vida do “sacerdote inteligente, modesto e virtuoso”, sendo dom Joaquim a figura central desse martírio.Tudo começou no dia 6 de março de 1889.

            Ao participar de uma comunhão geral, oficializada pelo padre Cícero, a beata Maria de Araújo não pôde engolir a hóstia consagrada porque esta inclusive se transformava numa substância vermelha, hematóide.

            Tal fenômeno se repetiu várias vezes na presença do público, sendo mais tarde testemunhado por outros padres e médicos, os quais, inclusive, chegaram a emitir atestado, concluindo tratar-se de um fato sobrenatural para o qual não era possível encontrar uma explicação científica.

            Durante algum tempo o fenômeno permaneceu em sigilo, até ser proclamado como milagre, em sete de julho do mesmo ano, por iniciativa de monsenhor Francisco Monteiro, Reitor do Seminário do Crato, o qual organizou uma romaria com cerca de três mil pessoas que saíram de Crato para Juazeiro, a fim de observar a transformação da hóstia em sangue.

Estatua do Padre Cícero em bronze, situada na Praça Padre Cícero

            A partir daí, Juazeiro virou centro de peregrinação – o embrião das grandiosas romarias de hoje; e, devido ao fato, quebra-se a tranqüilidade da vida sacerdotal do padre Cícero, sobre quem desaba uma campanha de inveja, de intrigas e perseguições.
                                                                                              
            Como era de esperar, o fato chegou ao conhecimento do bispo dom Joaquim, que escreveu ao padre Cícero, pedindo um relatório completo do ocorrido. Na verdade, ele chegou até a repreender o padre Cícero, com firmeza, por não ter sido informado de imediato dos “fatos extraordinários” ocorridos em Juazeiro, e considerou sua negligência como sendo uma quebra do voto clerical de obediência. Mas, não chegou a ser hostil, fazendo questão de ressaltar que confiava na sinceridade do padre Cícero e o julgava incapaz de qualquer embuste.

            Padre Cícero atende à solicitação de dom Joaquim, remete o tão esperado relatório sobre o “milagre”, uma peça que, segundo o historiador americano Ralp Della Cava, é um dos documentos mais cuidadosos da “Questão Religiosa” de Juazeiro (Milagre em Juazeiro – 1977).

            Como o relatório nada esclarecia sobre a procedência do sangue, dom Joaquim raciocinou que, se ele era oriundo da hóstia consagrada, tratava-se, realmente, de um fato miraculoso que merecia ser divulgado pelo mundo inteiro, se, por outro lado, o sangue era da própria beata, então seria incoerência atestar que a hóstia se tivesse transformado em sangue de Jesus Cristo, como todos acreditavam inicialmente, dom Joaquim usou a estratégia de permanecer distanciado do assunto, esperando que o fato se diluísse por se mesmo caindo no esquecimento geral. Enquanto isso, as romarias se acentuavam e o número de crentes no “milagre” crescia de forma notável afamando o padre Cícero e a beata Maria de Araújo.

            Um fato novo, porém, com o qual o bispo não contava, aconteceu para dar ponto positivo ao “milagre”. É que um atestado passado pelo médico Dr. Marcos Madeira, diplomado no Rio de Janeiro, conferindo ao fato o caráter de sobrenatural, foi divulgado pela imprensa de forma sensacionalista e, por conta disso a reação das população católica instruída do Nordeste não se fez esperar. Irritado, o bispo ordenou, então, que o padre Cícero comparecesse ao palácio episcopal em Fortaleza, com urgência, para ser submetido a um interrogatório.

            A crença no “milagre” estava mesmo fadada a obter o maior êxito, pois outro médico, o Dr. Idelfonso Correia Lima e o farmacêutico Joaquim Secundo Chaves, convencidos da miraculosidade do fenômeno da transformação de hóstia em sangue, assinaram também um atestado, endossando o que fora afirmado pelo Dr. Marcos Madeira.

            No próximo artigo daremos continuação a esse palpitante assunto.

            Aguardem

Enviado por Walter Jorge
 
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