Peregrino Walter Jorge

Convide a um amigo a visitar este site
 
 
Peregrinação no Brasil - 20 -  O Caminho de Anchieta ou Passos de Anchieta
Walter Jorge

Conforme inicialmente informamos, classificamos os Caminhos no Brasil ou Peregrinação em três grandes grupos, já informamos aos nossos leitores com referência ao primeiro grupo, aqueles que resgatam a nossa história, nos de fundo Religioso, escrevemos sobre o mais extenso e o mais importante, o “Caminho da Fé” dedicado a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, agora vamos conhecer mais um outro denominado de “CAMINHO DE ANCHIETA” também conhecido como “OS PASSOS DE ANCHIETA”.

Padre José de Anchieta

            Em primeiro lugar vamos travar um pequeno conhecimento com o motivador da referida caminhada. O Padre José de Anchieta nasceu em São Cristóvão da Laguna, na ilha de Tenerife nas Canárias - Espanha, no dia 19 de março de 1534 e morreu em Rerigtiba, atual cidade de Anchieta no Estado do Espírito Santo, no Brasil, em 9 de junho de 1597.

Anchieta com os índios

            Era filho de João Lopes de Anchieta, revolucionário que tomou parte na Revolta dos Comuneiros contra o imperador Carlos V, na Espanha, e um fervoroso devoto da Virgem Maria. Sua mãe chamava-se Mência Dias de Clavijo y Larena, natural das ilhas Canárias, filha de ex-judeus. Tinha, por parte do pai, a ascendência nobre da família dos Anchietas Bascos do norte da Espanha e pelo avô materno, Sebastião de Larena, um cristão novo (judeu convertido) do Reino de Castela. Sua ascendência judaica foi um fator determinante para o enviarem para estudar em Portugal, pois, na Espanha a Inquisição era bastante rigorosa. Anchieta viveu com os pais até os 14 anos, depois se mudou para Coimbra, em Portugal, onde foi estudar filosofia no colégio das Artes, anexo á Universidade de Coimbra. Tinha 12 irmãos e entre eles dois padres: o Padre Pedro Nuñez e o Padre Melchior.

            Em 01 de março de 1551, com apenas 17 anos, ingressou na Companhia de Jesus recém fundada por Inácio de Loyola, onde, como Jesuíta, passou a ajudar na celebração das missas, chegando a ajudar mais de 10 missas por dia, trabalhando que demandava mais de 16 horas. Devido a essa dedicação começou a aparecer com problemas de saúde, com constantes dores nas juntas e nos ossos do corpo, o que motivou ao aparecimento de lesões que permaneceram durante toda a sua vida, motivo porque se interessou em embarcar para o Brasil devido ao fato de o clima ser mais ameno que o da Europa.

            Anchieta veio para o Brasil em 1553, junto com outros padres que, em oposições à Contra-Reforma, tinham a catequese como seu principal objetivo. Embarcou na comitiva de Dom Duarte da Costa, segundo Governador Geral do Brasil, junto com ele, vieram mais seis padres Jesuítas, todos doentes.

            Em aqui chegando, não encontrou a cura esperada para os seus males e dores, no entanto, se dedicou de corpo e alma a catequese dos índios brasileiros, aprendeu não só a falar a sua língua como aprendeu os seus costumes e lendas. Escreveu muitas cartas que servem de estudo do seu período histórico no Brasil.

Anchieta escrevendo seu poema à Virgem Maria

            Tornou-se reitor do Colégio São Vicente, em São Paulo, com apenas 25 anos de idade e Providencial, na Ordem dos Jesuítas aos 43 anos. Este movimento acabou influenciando o teatro e a poesia e resultando na melhor produção literária do Quinhentismo Brasileiro. Das suas contribuições culturais para o nosso país, podemos citar as poesias em verso medieval (Poema á Virgem), os autos que misturavam características religiosas e indígenas, a primeira gramática do Tupi-Guarani (a cartilha dos nativos), além da fundação de um Colégio. Não podemos deixar de aqui mencionar que, em conjunto com os padres da Companhia de Jesus, fundou a cidade de São Paulo.

            Mais tarde, embora doente, foi transferido para o litoral do Espírito Santo, aonde veio a falecer. Quando da sua morte, o cortejo fúnebre foi acompanhado por mais de 3.000 índios num percurso de 90 quilômetros, de Rerigtiba até Vitória no Espírito Santo. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 22 de junho de 1980.
Roteiro

            O Caminho de Anchieta também denominada de OS PASSOS DE ANCHIETA foi o primeiro roteiro Cristão das Américas, o mesmo procura resgatar o trajeto que o Padre José de Anchieta efetuava nos últimos anos de sua vida, entre a vila de Rerigtiba, atual cidade de Anchieta, até a Vila de Nossa Senhora da Vitória, em Vitória no Estado do Espírito Santo, em companhia dos índios, onde cuidava do Colégio São Tiago, erguido num platô, hoje transformado no Palácio do Governo.

Tal percurso ele efetuava duas vezes ao mês, era chamado de “caminho das 12 léguas”. Atualmente é uma caminhada realizada anualmente (devido à falta de uma infra-estrutura adequada), toda ela efetuada paralelamente à costa, sendo que praticamente 80% nas areias ao longo do litoral Capixaba onde o caminhante tem a oportunidade de admirar as belas paisagens que inspiraram a Anchieta escrever o poema à Virgem Maria, bem como, através das reflexões que o trajeto proporciona, buscar uma estreita comunhão com DEUS, para isso é necessário deixarmos espaço para ele entrar.

            As reconstituições do trajeto foram elaboradas dentro da exatidão que permite a história, deve-se aos conhecimentos que temos dos Jesuítas serem perfeitos andarilhos e cobriam longas distâncias caminhando pelas praias, valendo-se das marés de vazante, quando a areia endurece e permite caminhar com menor dificuldade.

Peregrinos dos Passos de Anchieta pelas praias

                                   Peregrinos dos Passos de Anchieta pelas praias.

            A caminhada anual é promovida pela ONG ABAPA – Associação Brasileira dos Passos de Anchieta e é realizada de preferência no feriado de Corpus Christi. O trajeto é de aproximadamente 105 quilômetros (chamado de caminho das 12 léguas) e efetuado em 4 dias, podendo ser efetuada a pé, de bicicleta ou a cavalo, alguns peregrinos o efetuam de barco margeando a praia. A semelhança com o Caminho de Santiago de Compostela, também é emitida uma “Credencial do Andarilho” que deverá ser apresentado no Santuário de Anchieta, no último dia da caminhada com os carimbos recebidos nos locais de passagem pré-determinados, para receber o “Certificado de Andarilho dos Passos de Anchieta” atestando a realização da referida peregrinação.

            No primeiro dia sai de Vitória até a Barra do Jacu (em Vila Velha), num percurso de 25 km, passando pelos seguintes pontos:
            - Catedral Metropolitana (local de partida dos peregrinos); - Palácio Domingos Martins; - Palácio Anchieta; - Escadaria Bárbara Lindemberg; - Avenida Beira Mar; - Curva do Saldanha; - Terminal Dom Bosco; - Travessia da Baia de Vitória (através de lanchas); - Sítio Histórico da Prainha de Vila Velha; - Gruta do Frei Pedro Palácios; - Ladeira das Sete Voltas; - Convento da Penha; - Trilha do Morro do Moreno; - Praia do Ribeiro; - Ponta da Sereia; - Praia da Costa; - Praia de Itapoá; - Praia de Itaparica; - Ponte da Madalena; - Barra do Jacu (Pracinha)

Peregrinos seguem pelas pedras e pelas praias pelos Passos de Anchieta

            No segundo dia o percurso vai da Barra do Jacu até Setiba em Guaraparí, onde o caminhante percorre 28 km, com o seguinte itinerário:
            - Barra do Jacu (Pracinha); - Morro da Concha (praia do Barão); - Ponta da Belina; - Praia Grande; - Praia da Baleia (Ponta da Fruta); - Ponta da Fruta (Praia Rasa); - Dunas do Lê; - Reserva Ecológica de Setiba (Paulo César Vinhas); - Pedra da Tartaruga (Lagoa de Carais); - Praia do Setibão; - Praia Setiba Pina; - Praia Setiba (Guaraparí).

            No terceiro dia segue da Praia de Setiba para Meaípe ainda em Guaraparí, num total de 24 km, passando por:
            - Praia de Setiba; - Praia de Santa Mônica; - Aldeia de Perocão; - Três Praias; - Praia do Saco ou do Ancoradouro; - Praia Mateus Lopes; - Praia Leontina; - Praia dos Adventistas; - Aldeia da Praia; - Praia dos Campistas; - Praia das Goiabas; - Praia do Netuno; - Praia da Onça; - Praia dos Capixabas (estátua); - Praia da Cerca; - Praia do Morro; - Prainha de Muquiçaba; - Poço Histórico; - Praia da Fonte; - Igreja de Nossa Senhora da Conceição; - Ruínas da Igreja do Morro; - Praia dos Namorados; - Praia das Castanheiras; - Praia da Areia Preta (Radium Hotel); - Praia da Enseada Azul; - Praia da Bacutia; - Praia das Pedras; - Praia de Meaípe (Guaraparí).

            Finalmente no quarto e último dia o peregrino sai da Praia do Meaípe em Graraparí até á cidade de Anchieta após percorrer 23 km, passando por:
            - Praia do Meaípe (Guaraparí); - Ubu Praia de Paratí; - Praia da Guanabara; - Praia dos Castelhanos; - Poço Histórico (Praia da Baleia); - Praia de Anchieta; concluindo-a em frente ao Santuário de Anchieta na Igreja da Matriz na cidade de Anchieta.

            Como sempre costumamos fazer, traremos aqui para os nossos leitores algumas informações sobre a cidade de Anchieta.

Cidade de Anchieta

            A cidade de Anchieta nasceu de um aldeamento de índios tupi-guaranís catequizados pelos Jesuítas. Foi uma das mais antigas aldeias fundadas no litoral do Espírito Santo, nos primórdios da colonização, pelo Padre José de Anchieta por volta de 1561.

            Quando aquele Padre adolescente visitou a aldeia pela primeira vez, registrou suas impressões dizendo: “que era um sítio ameno, com paisagens paradisíacas e pessoas amistosas, bem humoradas e hospitaleiras”.

            Seu nome era Iriritiba também chamado de Rerigtiba (lugar de muitas ostras e coqueiros, na língua indígena), posteriormente passou a ser chamada de Anchieta em homenagem ao Padre José de Anchieta que para lá se transferiu definitivamente em 1587 e ali viveu seus últimos anos vindo a morrer em 9 de junho de 1597.

            Com a expulsão da Companhia de Jesus das terras portuguesas em 1759, a aldeia de Rerigtiba recebeu o foro de vila com o nome de Vila Nova de Beneventes. Logo após a partida dos jesuítas a vila passou por um grande período de decadência devido a um processo de desocupação da região por grande maioria dos nativos.

            A vila tomou novamente impulso em sua economia a partir da chegada, pelo porto de Beneventes, entre os anos de 1874 e 1895, de milhares de imigrantes italianos que foram introduzidos nas terras do médio e alto do rio Benevente. Eles sobreviviam da lavoura do café, principalmente. Por causa do rio que desemboca na cidade, o Município se chama de Benevente. Do termo de Beneventes surgiram os lugarejos de: Alfredo Chaves, Piúma e Iconha.

Santuário do Pe. José de Anchieta na Igreja de N.S. da Assunção

            Hoje, o município tem suas atividades ligadas à agricultura (com destaque para a banana e o café), à pecuária, à pesca, ao comercio, ao turismo e a industria. Destaque para a Samarco Mineradora, que exporta minério de ferro através do porto de Ubu.

            A Igreja de Nossa Senhora da Assunção é um dos mais importantes marcos históricos da colonização do país, teve a sua construção iniciada em 1569 pelo Padre José de Anchieta com trabalho dos índios catequizados, sua conclusão data de 1604, é hoje o Santuário do Padre José de Anchieta. Foi edificada com pedras retiradas dos recifes e unidas com uma argamassa composta de cal de marisco e óleo de baleia, a mesma é de uma singular beleza, que permanece de pé até os nossos dias guardando no seu interior relíquias, objetos pessoais e litúrgicos e a cela onde morreu aquele que é considerado o “pai, formador da nação brasileira”.

            No seu interior encontram-se duas imagens de Nossa Senhora da Assunção do século XVI, padroeira de Anchieta, um exemplar do dicionário da língua tupi-guaraní escrita pelo próprio punho do Padre José de Anchieta e as imagens de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier, ambas originais do século XVI.

            Para maiores informações sobre a referida peregrinação, aconselhamos consultar os sites:
www.abapa.org.br
www.passosdeanchieta.hpg.ig.com.br

No próximo artigo iremos abordar mais um Caminho Brasileiro.

Aguardem.

Enviado por Walter Jorge
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright  1996-2003