Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 19 -  Caminho da Fé (05) - Depoimento de Ana Cláudia Santos
Walter Jorge

            Ana Cláudia é uma veterana em peregrinação, pois não só efetuou sua Peregrinação a Santiago de Compostela, andando seus 800 km de bike, como também efetuou por duas vezes sua peregrinação pelo Caminho do Sol (aproximadamente 230Km.), não só de bike como a pé, estava agora sentindo no seu interior uma força e uma energia diferente, porque?

            Ela estava efetuando sua peregrinação no seu torrão natal – O Brasil – estava andando aqueles mais de 430 quilômetros, a pé, percorrendo matas, atravessando rios, subindo e descendo através da Serra da Mantiqueira, percorrendo dois estados, São Paulo e Minas Gerais, ouvindo os gorjeios dos pássaros, ela andava em direção a Basílica da Santa Padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

            Quais seriam as emoções que ela estava sentindo? O que lhe provocava um doce sorriso nos lábios, ou suas lagrimas descerem em cascatas banhando-lhes as faces? Ela estava efetuando uma peregrinação diferente, ela estava no “Caminho da Fé”.

            Quero relembrar repetindo aqui as suas palavras iniciais:

            “Fé!
            O que é fé?
            Será somente acreditar, confiar?
            Um caminho para a fé... Qual será? Como caminhar? Como ter fé?
            Talvez o “Caminho da Fé”, o percurso que sai de Tambaú e vai até Aparecida seja um exercício para exercitar e aprender a ter “FÉ”.”

            Novamente pergunto aos meus queridos leitores:

            O que é fé?

            Vamos continuar nossa peregrinação caminhando ao lado da Ana Cláudia, sentindo as suas angustias, suas dores e suas alegrias a procura da FÉ.

Nno Caminho da Fé (Segunda Parte, final)

            Já os albergues em que fiquei eram todos muitos bons. Alguns mais simples, outros com certos requintes. Coincidências ou não, todos eram de acordo com os merecimentos diários. Haja bom humor para encarar colchões duros, cobertores ralos, e pulgas! Mas haja sensibilidade para agradecer lareiras, toalhas fofas e lençóis cheirosos. Os preços de cada albergue eram de acordo com o que podiam oferecer. Na verdade, achei tudo muito barato, pois comi bem e paguei algo em torno de R$ 30,00 por dia, com tudo incluso (jantar, pernoite e café-da-manhã). Não posso reclamar. Ninguém me desrespeitou. Nos albergues não passei medo, nem fome, nem frio.

            Não há preço que pague a oportunidade de conhecer lugares com tanta história e magia. Dormir em casarões antigos, como em Campo Alegre e São Bento do Sapucaí. Tudo fazia parte do Caminho. Era necessário compreender toda a mensagem que cada momento e coisa proporcionava.

            Era necessário respeitar e admirar toda aquela natureza, aqueles montes de vacas que cruzavam o Caminho e que me metia medo... Cheguei a ficar presa no pasto, enquanto as vacas passavam na estrada. Eram vacas e-n-o-r-m-e-s ! Principalmente pra mim que só tomo leite de caixinha...rs.

            Mas como tudo que sobe, desce... Tudo que começa, termina. E o fim dos poucos mais de 400 Km chegara... Eu já estava cansada, sim. Sentia saudades dos meus cães que deixei em casa... Estava preocupada com o meu trabalho.

            No final do Caminho eu já estava sem paciência pra nada. Estava cansada de cuidar, queria ser um pouco cuidada. Meu pé direito continuava muito dolorido, não permitindo que eu calçasse a bota. Mas no Albergue em Piracicaba, a Miriam, uma peregrina-amiga que me acompanhava, que tanto suportava o meu mal-humor, mas de quem eu sempre “cuidava”, cuidou dos meus pés com tanto carinho, que me comoveu! Lavou meus pés como Jesus fez com seus apóstolos. Eu não entendia direito, mas aceitei aquele presente, naquele momento.

A alegria da proximidade da chegada

            Uma bacia com água-quente, gotas de óleo de andiroba e sal grosso foi providenciado pelo Júnior, hospitaleiro-cozinheiro super gentil, mas Miriam, massageava meus pés de uma forma tão carinhosa, que parecia querer tirar toda aquela dor e se desculpar pelos momentos de “trabalho” que tinha me dado.

            Ela se surpreendia que eu não tivesse tido nenhuma bolha, e eu a fazia rir dizendo que eu “não tinha pecados”, por isto a ausência de bolhas... Mas as dores no calcanhar e onde eu tinha torcido por 03 vezes o mesmo pé, valia por mil bolhas.

            Só eu sabia a dor que sentia. Ninguém tinha a ver com isto, é claro! Mas ter o respeito das pessoas nestes momentos, é o mínimo que esperamos, mas foram poucos, como a Miriam, que se preocupava com as minhas dores. À Miriam e a estes poucos, minha eterna gratidão por cuidar um pouco de mim.

            Nos “Caminhos”, fico sensível e suscetível a muitos sentimentos. Estou de coração aberto, recebo e doou. E sempre me apego àqueles que estão no mesmo “Caminho”. E é tão bom se sentir cuidada, sem ser invadida com regras de como fazer a mochila, como andar, qual a velocidade, quanto falta, quando andou, se vai escurecer. Gente, Caminho não é competição de trekking! Lamentável... Mas cada um tem o direito de fazer o Caminho da forma que acha correta, só acredito que se devem respeitar os limites dos outros.

            Mas o Caminho nos oferece isto. A possibilidade de conhecer melhores as pessoas, e principalmente, a si mesmo. E é muito bom estar com pessoas queridas, principalmente nos Caminhos. A companhia de alguns amigos-peregrinos só comprovou o quanto estávamos no mesmo "Caminho", mesmo quando um chegava primeiro que o outro, mas que me aguardava com um lugar especial no albergue, ou uma reserva no restaurante local, ou até, com uma banana ganha de algum morador do Caminho.

Onde estás meu herói para transportar-me até a chegada

            Um pouco antes de chegar na Basílica, pedi para ficar sozinha. Apressei os passos e fui... Comecei a relembrar tudo o que tinha vivido naqueles 17 dias... Lágrimas correram juntamente com a garoa fina que caia. Puxa... Quanta coisa tinha acontecido, quantas cidades, lares, pessoas, animais conheci... E eu ali, há poucos passos de concluir mais um Caminho.
        
            A cidade, graças a Deus, estava vazia... Pude chegar sem o burburinho dos turistas... Realmente a emoção rolava solta. Consegui! Estava feliz e ao mesmo tempo, nostálgica. E agora? Para qual Caminho devo seguir no dia-a-dia da nossa vida?

            Um pouco antes de entrar na Basílica, esperei pela Miriam, que vinha com um largo sorriso e os olhos inchados de tanto chorar... Demos as mãos e assim chegamos juntas aos pés da Cidoca, da Cida, da Cidinha, da Preta, Pretinha... A Nossa Senhora da Conceição Aparecida. De joelhos agradecemos por termos vencido, nos abraçamos e choramos muito... Que bom!

            Tive até recepção especial! Minha família me aguardava ansiosa na porta da Basílica. Tiveram “Fé” de que eu conseguiria. Fé...

            Além de Miriam, no final do Caminho também tive a companhia impagável de um nordestino de 70 anos, chamado Edward, mas apelidado carinhosamente de Mr Ed, que além de peregrino, é um homem muito culto, inteligente e bem humorado, um mister! Adaptava-se em qualquer lugar, como num “quartinho de bagunça”, que foi obrigado dormir, em Santo Antônio do Pinhal, pois não havia mais vagas nos albergues e pousadas, mas uma família de “Fé” lhe ofereceu abrigo.

            E assim foi... Depois de me despedir da Miriam e de Mr Ed, já que cada um seguiria seu Caminho, voltei pra casa com a missão cumprida... Foi bom voltar pra casa, principalmente, encontrar meus cães todos saudáveis me esperando, a casa limpa pela Fátima, o cheirinho bom dos meus lençóis, a máquina de lavar-roupas... Quebrada! Sim, depois de tantos dias lavando as roupas à mão, não via a hora de voltar a usar a minha máquina de lavar, mas ela tinha quebrado dias antes de eu chegar, pode? Preciso ter mais Fé...rs

Miriam e Ana Cláudia na chegada à Basílica em Aparecida

            Agora, lembranças... Que ficarão eternamente comigo. Não quero esquecer nunca destes momentos. E pude perceber que mesmo quando voltei ao Caminho em outras ocasiões para fazer apenas alguns trechos, a emoção e a entrega são as mesmas. Cada Caminho, pessoas, lugares, animais e coisas novas, tiveram um episódio especial comigo que sempre guardarei na memória do coração.
            Um agradecimento especial à Miriam... (suspiros...)... Que figura! Valeu rezar com ela em cada igreja ou capela que encontrávamos... Valeu acordá-la com cócegas nas orelhas ou puxando seu cobertor quando tinha preguiça de levantar. Sempre ficarei agradecida por ela tirar os meus óculos antes de eu dormir... Valeu! Valeu muito começar e chegar com ela! Que hoje, mais do que nunca, reflete muito sobre a “Fé” necessária no dia-a-dia da nossa vida.

            E agora? Agora quero um novo Caminho. Algum novo Caminho me espera... E sempre descobrirei uma nova forma de Caminhar... Não quero parar de Caminhar de “voar” como uma borboleta, viver intensamente pra depois poder renascer bela e esperançosa. Mas preciso sempre resgatar a Fé que tanto tentaram me ensinar nos Caminhos... Mas, como no dia-a-dia é difícil!

Agradecendo pela felicidade da chegada

            Faltaram dicas para realizar algum Caminho? Não sou guia-de-caminhos. Não há regras, nem dicas. O que sugiro é que cada um faça “seu próprio Caminho”. Não permita que imponham a forma correta de caminhar e nem tente fazer isto com alguém. Respeite cada um com seu modo. Respeite os lugares por onde passar, as pessoas destes lugares e os peregrinos que te acompanhar. Respeite-se! Pare antes de se cansar. Coma antes de sentir fome. E beba antes de sentir sede.
            Que nossos Caminhos continuem cruzados.
            Ana Cláudia... Tentando exercitar sua Fé nos Caminhos!

            Para aqueles que gostariam de conhecer um pouco mais sobre o Caminho da Fé, sugiro ler o trabalho de Oswaldo Buzzo nesse site: “O Caminho da Fé, a pé, em 12 etapas”.

            Abordamos nos artigos anteriores um Caminho Religioso, o Caminho da Fé dedicado a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, dando continuidade ao nosso trabalho abordaremos um outro Caminho de fundo Religioso, os Passos de Anchieta.
            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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