Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 18 -  Caminho da Fé (04) - Depoimento de Ana Cláudia Santos
Walter Jorge

            Temos escrito sobre os diversos Caminhos de Peregrinação existente no Brasil, quer sejam os de cunho histórico, os de natureza religiosa e os de fundo ecológico onde o caminhante trava contato com a beleza da nossa natureza bastante pródiga.

            Trazemos para os nosso leitores, nesse número, o depoimento de uma peregrina que efetuou a sua Peregrinação pelo da  “Caminho da Fé” em julho de 2005, é um relato emocionante de “FÉ e de AMOR”, a nossa peregrina em seu caminhar trava conhecimento com a beleza natural do caminho, entra em contato com a sua fauna e se extasia diante da sua flora, conversa com os moradores existentes ao longo da trilha recebendo dos mesmos amor e carinho, sente frio e calor, alegria e tristeza, sofre, chora...

            Não vamos continuar a falarmos sobre essa peregrinação, deixemos que o nosso leitor mergulhe na sua leitura, peregrine ao lado de Ana Cláudia Santos e sinta suas emoções, e porque não dizer: soltar veladamente uma pequena lágrima.

            Para melhor acompanharmos os seus passos, dividimos seu depoimento em duas partes, dessa maneira cada um de nós poderá refletir e dele tirar uma lição de vida.

No Caminho da Fé (Primeira Parte)

Ana Cláudia a peregrina da FÉ e o amor dos cachorros

                                   Ana Cláudia a peregrina da FÉ e o amor dos cachorros

            FÉ!
            O que é fé?

            Será somente acreditar, confiar?
            Um caminho para a fé... Qual será? Como caminhar? Como ter fé?
            Talvez o “Caminho da Fé”, o percurso que sai de Tambaú e vai até Aparecida seja um exercício para exercitar e aprender a ter “Fé”.
           
            Dentre os Caminhos que me faltava fazer, tinha ainda o “CAMINHO DA FÉ”, que por muitas vezes, mês após mês, esquivei-me de fazê-lo com medo, pois muitos me assustaram dizendo que ele era muito difícil. “É tudo pela Serra da Mantiqueira!” - diziam. Mas, puxa, será que só tem serra?  Não há mais nada neste Caminho?

            Bom, eu queria fazê-lo. E fui: no dia 02/07/2005. A idéia que eu tinha era de que seria mais uma aventura. Ninguém me falou que seria um Caminho emocionante, religioso e de Fé! Só me diziam: “É difícil, muito difícil“. Mas por que então chamá-lo de o Caminho da Fé? Onde ela se encaixava no meio de tanta serra e dificuldades. Ninguém me falava dela. O que é fé?

            Foi um Caminho duro em muitos sentidos. Mas não impossível. Subidas, descidas, mau humor, frio e calor... Mas sorrisos, companheirismo... E muita Fé! Sim, comecei a ter fé! Fé de que chegaria até Aparecida, Fé de que o próximo albergue seria bom... Fé de que não me apareceriam bolhas nos pés. Isto também é Fé!...rs

Um pouco de água fresca em uma humilde casa

            Durante o Caminho, muito dos habitantes das cidades do percurso, vinham me abraçar, beijar, dar algo para comer, rezar e pedir que rezasse por eles quando chegasse em Aparecida. Às vezes, o povo deixava eu parecer uma super-herói, mas mal sabiam eles que, o que eu mais queria em muitos momentos era encontrar um herói, ou talvez, uma heroína dentro de mim. Quem sabe até, um super-herói que me carregasse voando por aquelas subidas. Mas os Caminhos não são para Heróis, Heroínas, Atletas ou Super’s... São para pessoas comuns. Eu era comum, sou comum. Então, o Caminho também era para mim. Mesmo ainda não sabendo bem o quê era “Fé”. Aliás, precisa ter fé pra fazer o “Caminho da Fé?” Nem sempre, cada um faz a sua maneira e com suas convicções. 

            E eu, como uma pessoa comum, fui para o Caminho da Fé e encontrei de tudo um pouco. De gente a animais, de plantas a comidas. Uma família rica me recebeu para um banquete. Mas uma casinha de sapê também me ofereceu água fresca. Tudo com seu valor. Muitas vezes fui recebida como da família, daquele jeitinho mineiro de ser, das famílias da roça serem: ora com vergonha, ora com festa. As famílias de “Fé” foram presentes de Deus. Apareceram quando mais precisei.

            Muitas eram pessoas simples de coração e de oração... Como a Adriana, dona de um supermercado em Ouro Fino... Quanta Fé! Queria eu ter um tiquinho da fé dela. Como ela desejou que eu fosse feliz no Caminho, na Vida... Exagero? Não! É assim que ela demonstrava a sua Fé. Coube a mim respeitar e aceitar aquele presente. Refleti muito sobre a minha Fé. Cai aos prantos quando me achei pequena demais para a maravilhosa oportunidade que estava tendo. Eu escolhi estar ali, mas foi Deus quem permitiu, mesmo eu estando com o pé machucado.

            Encontrei tanta gente devota e grata, que percebi que queriam apenas compartilhar toda aquela benção e fé. Lembro-me de um senhor lindinho, de cabelos branquíssimos, dono de um bar em Vargem Grande do Sul. Eu mancava de tantas dores nos pés. Não achava onde ficaria hospedada, e quando olhei para o lado, vi que aquele senhor acenando para me aproximar: “Quer café?”. “Claro!” – respondi. Na verdade, ele queria era contar que também já tinha ido à Aparecida a pé. Mostrou seu cajado com os nomes de todos os seus companheiros gravados. Na despedida, me abraçou, abençoou... E pediu que lembrasse dele quando chegasse em Aparecida.

A borboleta – será que era “uma mariposa?”

            Compartilhar... Era isto! As pessoas de Fé do Caminho queriam “compartilhar” todas suas alegrias e bênçãos, que eu compartilhasse com eles a oportunidade que estava tendo em poder largar tudo e caminhar. Foi uma grande oportunidade estar naquele universo de tanta Fé e perceber que a Fé é um exercício contínuo, principalmente quando se volta à realidade do dia-a-dia.

            Encanto-me com animais. Principalmente com cães, e quantos vira-latas amáveis encontrei, que pareciam "anjinhos" me fazendo rir... Mas também me fazendo chorar, como o "cão-peregrino" que me acompanhou de Crisólia a Ouro Fino e que não pude trazê-lo junto, sendo necessária a nossa despedida com muitas lágrimas e latidos. Saudades dele... Mas para a minha alegria, em Aparecida, dezenas de vira-latas, os meus favoritos, me escoltaram fazendo palhaçadas, brincando e latindo como se fossemos velhos amigos. Meu Deus, que presente! Para muitos, “bobeira”, ainda mais por se tratar de vira-latas... Mas para mim, Deus se manifesta nos animais, na natureza... Como naquela borboleta que encontrei no meio de uma trilha estreita, que com as asinhas fechadas me deixou curiosa. Suas asinhas eram brancas e vermelhas e tinham os números 08 e 80 (creia ou não creia! será?). Ao abrir suas asinhas, a surpresa: a imagem de Nossa Senhora Aparecida! De boca aberta, me ajoelhei e rezei Ave-Maria, junto com uma amiga que me acompanhava. Entre risos e lágrimas agradeci a Deus por mais um presente, e claro, fotografei como louca! Aquele foi um momento muito especial. Mas foi lamentável ao chegar no albergue e escutar de um peregrino que aquilo não era uma borboleta e sim uma mariposa e que todas as mariposas eram daquele jeito. Cadê a Fé daquele homem? Se ele não tinha, que ao menos respeitasse a minha.

Um sorriso maroto entre as dores do Caminho

                        Eu não queria saber se milhares de moléculas explodiram e o universo criou as borboletas ou mariposas daquele jeito. Eu vi naquela borboleta a presença divina. Estar no meio de tanta serra e mata e não pensar no quanto Deus foi bondoso, inteligente e inspirado quando criou tudo aquilo e que Ele estava presente... É muita falta de Fé! E ninguém tem o direito de desprezar a Fé ou a Felicidade de alguém. E eu me senti feliz naquele momento... Passei a ter Fé que Deus queria me presentear.

            Pois é, não falei que encontrei de tudo um pouco? E até um pouco mais de mim, encontrei por lá. Que às vezes se perde no dia-a-dia, daí dá uma vontade louca de voltar para o Caminho da Fé e me reencontrar com fé e um sorriso no rosto mesmo cansada.

            Aguardem sua continuação.
            Muitas surpresas nos esperam nesse emocionante depoimento.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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