Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 14 -  Caminho de Araribóia
Walter Jorge

            Em artigo anterior, escrevemos da existência de vários Caminhos Brasileiros, quer abordando os de cunho históricos, quer os de fundo religioso, bem como os que chamamos de cunho ecológico ou ambientais. Falamos sobre o “Caminho Real” e sobre o “Caminho das Missões”, caminhos que consideramos de fundo Histórico.

            Em continuação escolhemos para o nosso artigo mais um caminho de fundo histórico, podemos até dizer sem medo de errarmos, um “Caminho de fuga”, pois ele representa um trajeto percorrido pelos nossos índios a procura de algo mais, quer seja por uma liberdade utópica, quer seja em defesa de sua sobrevivência ameaçada pela doença.

O Caminho de Araribóia

O Caminho

            O Caminho de Araribóia tenta reconstituir o trajeto que os índios que viviam ao redor da baía de Guanabara fizeram em duas ocasiões, no século XVI, da baía de Guanabara para Cabo Frio. Na primeira vez os Tamoios fugiram e quiseram fundar a Confederação dos Tamoios e numa outra, os Temiminós fugiram da epidemia de Varíola que grassava na ocasião.

  Estatua em homenagem a Araribóia

            O Caminho de Araribóia começa no Monumento dedicado a Araribóia no centro de Niterói (RJ) e finda no marco de Pedra no Morro do Arpoador em Cabo Frio (RJ). O Monumento dedicado ao índio Araribóia, consta de uma estátua confeccionada pelos artistas Dante Croce Caetano e Dante Moacir Croce em 1965 e se encontra localizada na Praça Martim Afonso, no centro da cidade Niterói, em frente à estação das barcas, o mesmo está com os olhos voltados para a baía da Guanabara e a cidade do Rio de Janeiro.

Quem foi Araribóia

            Araribóia ou Ararigbóia foi um indígena brasileiro cujo nome significa “cobra feroz” ou “cobra da tempestade”. Era cacique dos índios Temiminós, quando os franceses com o apoio dos índios Tamoios conquistaram o Rio de Janeiro em 1555. Perdendo suas terras Araribóia seguiu para o Espírito Santo onde expulsando alguns holandeses reorganizou sua aldeia.

            Posteriormente Portugal enviou ao Brasil seu terceiro Governador Geral, Mem de Sá, com um contingente de soldados para retomar o Rio de Janeiro da mão dos franceses. Mem de Sá estabeleceu uma aliança com Araribóia, que forneceu um contingente de cerca de oito mil índios com conhecimento da região. Com esse valioso apoio, os portugueses conseguiram recuperar a região em torno da Baia da Guanabara, expulsando os franceses e fundando a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

            Pelos serviços prestados, o rei de Portugal deu-lhe o posto de Capitão-mor de sua aldeia e agraciou-o com o hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo, Converteu-se ao cristianismo e adotou o nome de Martim Afonso em homenagem a Martim Afonso de Sousa. Araribóia estabeleceu-se com seus índios numa aldeia do monte, depois chamada de São Lourenço que pertencia à sesmaria de Niterói (“água escondida” na língua Tupi), onde hoje é a cidade de Niterói.

            Araribóia era, contudo orgulhoso e arrogante, não se deixando dominar pela suposta superioridade dos portugueses e andava sempre em conflito com o Governador Geral da Repartição Sul do Estado do Brasil, Dr. Antônio de Salema, cuja sede era no Rio de Janeiro. Conta-se que na cerimônia de posse, tendo se deslocado de Niterói para o Rio de Janeiro, sentou-se à moda indígena (com o tronco sobre as pernas cruzadas). O fato desagradou o Governador que o repreendeu. Araribóia rebateu de pronto tal repreensão dizendo: “Se tu soubesse quão cansadas eu tenho as pernas das guerras em que servi a seu Rei, não estranharias dar-lhes agora este pequeno descanso; mas já que me achas pouco cortesão, eu me vou para minha aldeia, onde nós não cuidamos desses pontos e não tornarei mais à tua corte”.

            Araribóia, já idoso, voltou para a sesmaria de Niterói e não mais retornou ao Rio de Janeiro. O mesmo salvou de naufrágio Salvador Correia de Sá e por mais incrível que pareça, morreu afogado nas proximidades da ilha de Mocanguê-mirim em 1574.

 

O Trajeto

 

            O Caminho de Araribóia tem aproximadamente 150 quilômetros, Possui fortes subidas e acentuadas descidas, além de muito chão arenoso margeando a costa. A todo o momento podem-se ver paisagens típicas que são verdadeiros cartões-postais. Tanto a parte esportiva, quanto a histórico-cultural, bem como a eclesiástica e a da natureza propriamente dita, todas, juntas, vêm aos desejos de qualquer caminhante.

            Apesar de ser uma caminhada comparativamente menor do que algumas outras necessita no mínimo, de quatro a cinco pernoites ou de cinco a seis dias de caminhada, ela é muito exigente devido as características dinâmicas do seu terreno. Por exemplo, levando em conta à parte esportiva da primeira etapa, a mesma exige muito fisicamente do caminhante. Nessa primeira fase, são 26 quilômetros de terreno bastante acidentado. Desde de uma leve subida na Boa Viagem até a subida do Parque da Cidade, bem íngreme, com 270 metros de altura. Depois encontramos uma descida e em seguida uma nova subida com mais de 80 metros em chão de terra com erosão. Novamente outra descida em torno de um quilômetro em rua escavada pela erosão. Às vezes (dependendo do tempo) com lama, às vezes com pedrinhas em barro seco causando escorregões. Também há trechos que acompanha o asfalto.

            Embora o restante da caminhada seja de quase 100 quilômetros em terreno plano, o mesmo é percorrido ao longo da praia com areia fofa e chão batido, que impõe ao caminhante destreza no pisar. Também não podemos deixar de registrar a existência de uma magnífica brisa misturada com a firmeza do sol agindo sobre a pele do caminhante principalmente se a caminhada for realizada em pleno verão, não podemos deixar de admirar a esplendorosa luminosidade do Oceano Atlântico.

 Museu de Arte moderna, projeto ao arquiteto Oscar Niemeyer

            Em um determinado trecho do caminho, o caminhante irá desfrutar a oportunidade de apreciar o segundo maior conjunto de obras arquitetônicas do arquiteto Oscar Niemeyer, perdendo apenas para Brasília, os mesmos são de uma beleza incomparável.

NOTA: O referido caminho está em fase experimental, tendo sido realizado nos dias 2, 3, 4 e 5 de fevereiro de 06, a inauguração de um trecho de 82 km por um grupo de 10 caminhantes.       

            Falamos anteriormente que a caminhada parte da cidade de Niterói e conclui o seu trajeto na cidade Cabo Frio no estado do Rio de Janeiro, nada mais justo do que trazermos aqui, algumas informações de cunho histórico sobre a referida cidade, uma das mais antigas do Brasil.

 

Cabo Frio

 

            A ocupação das terras do Município de Cabo Frio, data do início do século XVI, quando foi criada e colonizada logo após o descobrimento do Brasil devido à exploração econômica do pau-brasil. É a sétima cidade fundada no Brasil e a quarta no estado. Em 1503, a terceira expedição naval portuguesa para reconhecimento do litoral brasileiro, sofreu um naufrágio em Fernando de Noronha e a frota remanescente se dispersou. Dois navios, sob o comando de Américo Vespúcio, seguiram viagem até a Bahia e depois até Cabo Frio. Junto ao porto da barra de Araruama, os expedicionários construíram e guarneceram com 24 “cristãos” uma fortaleza feitoria para explorar o pau-brasil, abundante na margem continental da lagoa.

 Cabo Frio – Vista do canal

            Durante um longo período entre 1576 e 1615, com a perda da independência de Portugal para a Espanha, o porto de Araruama voltou a ser freqüentado por navios franceses, ingleses e holandeses em busca de pau-brasil, tornando-se também a base da pirataria contra embarcações portuguesas que procuravam dobrar o cabo, registrando-se lutas entre portugueses e os estrangeiros que chegaram até aliar-se com os índios tamoios, primeiros habitantes da região.

            Em 13 de novembro de 1615, junto à barra de Araruama, com a ajuda de quatrocentos homens brancos e índios catequizados, levantou-se a fortaleza de Santo Inácio e fundou-se a cidade de Santa Helena do Cabo Frio. A partir de 1616, data da instalação do município, a cidade passou a chamar-se Nossa Senhora da Assunção de Cabo Frio, tendo sido ponto importante para o desenvolvimento e conquista da parte norte do território fluminense. O núcleo urbano prosperou lentamente até fins do século XIX, baseando-se a economia na agricultura com mão-de-obra escrava, realizada em grandes latifúndios. A abolição da escravatura ocasionou o colapso econômico de que Cabo Frio que só se restabeleceria bem mais tarde, com o desenvolvimento da indústria do sal, da pesca e do turismo, e, sobretudo a implantação da rodovia e da estrada de ferro.

            A ferrovia Niterói – Cabo Frio, as melhorias no porto de Arraial do Cabo e a posterior inauguração da Rodovia Amaral Peixoto, contribuíram para o aumento da produção do sal e para o transporte eficiente até o Rio de Janeiro e outros importantes centros consumidores do país. O auge do desenvolvimento setorial ocorreu na década de 60, com a instalação de duas grandes usinas de beneficiamento de sal em Cabo Frio, e com a construção do Complexo Industrial da Cia. Nacional de Álcalis, no antigo distrito de Arraial do Cabo, que abriu novas salinas e passou a extrair conchas na lagoa para a produção de barrilha. Cabo Frio é um dos mais importantes centro turístico do Rio de Janeiro e do país, sendo o turismo a sua principal atividade econômica.

            Atualmente a população flutuante aumenta cerca de dez vezes na temporada de verão. O parque salineiro dá sinal de exaustão, devido à concorrência do produto nordestino e pela especulação imobiliária às margens da lagoa de Araruama, enquanto a pesca fica sobrecarregada pelo esforço excessivo de captura e pela diminuição da qualidade ambiental marinha. Na década de 1980 a descoberta e a exploração de petróleo na chamada Bacia de Campos, abriu nova frente de desenvolvimento regional. Os poços extremamente produtivos, que se localizam em frente ao litoral de Cabo Frio, são responsáveis pelo pagamento de recursos dos royalties aos cofres do Município, que impulsionaram o desenvolvimento e a urbanização da cidade a partir da década de 1990.
 

            Para maiores informações sobre o referido Caminho, solicitamos entrar em contato com Ronaldo Victer. Tel. (21)2612.9059, no Rio de Janeiro.

            Em continuação com os nossos trabalhos sobre as Peregrinações no Brasil, no próximo artigo iremos trazer para os nossos leitores, alguns caminhos de fundo religioso.

            Aguardem
 

Enviado por Walter Jorge
 
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