Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 12 -  “Terra sem Males ”
Walter Jorge

Sua última caminhada da fase experimental

            Término do depoimento do autor, quando efetuou a última caminhada da “Fase Experimental no Caminho das Missões” em fevereiro de 2002, acompanhado  com 14 caminhantes.

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No Caminho das Missões (segunda parte – final)

Terceiro dia – 19/02/02 – São Luiz Gonzaga e São Lourenço Mártir.
           
            A terceira etapa, com vinte e sete quilômetros apresentou um pouco mais de esforço. A estrada com muitas pedras soltas dificultavam os passos, tínhamos de escolher o local onde pisar. Almoçamos em uma escola desativada na localidade de “Laranja Azeda” com o Senhor Miro e D. Sandra, o seu filho nos brindou com um solo de sanfona.

   Peregrinos no Caminho das Missões dando um trato aos pés

Continuamos a nossa caminhada quando, por volta das 15 horas a chuva desabou, acreditava que estava a poucos quilômetros de São Lourenço ponto onde iríamos pernoitar, a estrada transformou-se em um verdadeiro lamaçal, minhas botas efetuavam o carregamento de alguns quilos de barro, o seu solado não estava resistindo a tal desgaste e acabou soltando um pedaço o que dificultava a minha caminhada. Informo que apesar da mesma ser uma boa bota da marca “San Marcos”, já tinha efetuado não só a peregrinação a Santiago de Compostela (oitocentos quilômetros), com também tinha caminhado mais de outros quinhentos quilômetros em treinamento e outras caminhadas, naquele momento estava encerrando a sua vida útil e iria agora fazer parte de mais uma de minhas relíquias sobre os desafios conquistados ao longo de minha vida.

Na lateral esquerda da estrada divisamos uma pequena casa com uma boa área externa coberta, naquele local paramos eu e um casal paulista de Santo André, Antonio Bianchiní e Suzete, para nos abrigarmos da chuva até que ela amainasse. Logo mais travamos um longo papo sobre assuntos variados. Passava mais de 2 horas de conversa quando aparece o caminhante Lairton Ripoll portando uma longa capa de chuva a nossa procura, pois o grupo estava preocupado com a falta da nossa chegada, tal não foi a nossa surpresa quando o mesmo informou que nos estávamos a apenas uns 150 metros do local do nosso pernoite, apanhamos as mochilas e patinando na chuva e na lama concluímos aquele pequeno trecho. Pernoitamos na pousada improvisada no CTG - Centro de Tradições Gaúchas de São Lourenço, onde foi servido um gostoso churrasco.

Quarto dia – 20/02/02 – São Lourenço Mártir a São Miguel das Misões.

           

Antes de iniciar a nossa quarta etapa fui obrigado a comprar um par de tênis reforçado para poder continuar a caminhada, pois aquela fiel bota tinha chegado ao fim, fora uma amiga que resistiu os quase 800 Km. no Caminho de Santiago de Compostela e outros 500 Km em treinamento e caminhadas outras, sem deixar nenhuma bolha ou problemas outros em meus pés. Fomos presenteados com trinta quilômetros de terreno com poucas ondulações, concluindo o dia na magnífica Pousada das Missões, em São Miguel das Missões.

Sino fundido nas Missões

O dia ainda estava claro e aproveitamos para percorrer o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, o qual estava bem conservado motivo do seu tombamento como Patrimônio Mundial em 1970. De surpresa em surpresa, vimos tomar conhecimento que, naquele local, existiu uma fundição, permitindo aos índios Guaranis, usando ferramentas confeccionada de ferro, efetuar o corte das pedras utilizadas na construção daquela Igreja, também tomamos conhecimento da existência de uma tipografia naquele local. Com destaque, visitamos o Museu das Missões projetado por Lúcio Costa em completa harmonia com as estruturas existente no local onde mais de oitenta obras da estatuária missioneira estava em exposição permanente, bem como sinos, fragmentos de pedras e madeira e uma maquete da Redução de São Miguel.

Logo mais, precisamente às vinte horas, no Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, assistimos um show de Som e Luzes em frente às ruínas bastante conservadas da Igreja das Missões. Este era um dia especial, estávamos no dia 20 de fevereiro de 2002. Em um outro artigo, relato os acontecimentos dessa noite memorável que denominei de “Palíndromo ou Capicua”.

Quinto dia – 21/02/02 – São Miguel das Missões a Carajazinho.

            Nessa etapa da caminhada, tivemos de percorrer trinta e quatro quilômetros em um terreno bastante irregular, em uma estrada com uma movimentação que nos deixava preocupado e sob um sol forte e inclemente que castigava o nosso corpo já cansado dos dias que já estávamos caminhando. Naquele trecho não encontrávamos nenhuma árvore para que com a sua sombra acolhedora pudéssemos mitigar o nosso cansaço, a água que levamos rapidamente era consumida, inclusive na sua utilização para molhar os nossos chapéus. Almoçamos no galpão do Centro Comunitário do local denominado de Esquina Ezequiel. Lembramos aqui a surpresa daqueles caminhantes nordestinos, inclusive eu, que nasci na minha querida Bahia, quando era passada a cada um de nós a cuia do chimarrão quente de pelar a boca dos incautos. Naquela confraternização, a chamada “roda do chimarrão”, acabei aprendendo como sorvê-lo.

   Paredes laterais em arco de sustentação do teto da Ig. São Miguel das Missões

            Ainda, nesse trecho, distante dezoito quilômetros de São Miguel, tivemos a oportunidade de visitar uma pedreira que contém um afloramento de arenito avermelhado, onde era retirado os grandes blocos utilizados na construção da Igreja de São Miguel Arcanjo. Na pedreira notamos várias ranhuras, fendas e escavações efetuadas com auxílio de ferramentas confeccionadas de ferro que eram utilizadas pelos índios Guaranis. O gado existente no local olhava-nos com desconfiança como se os mesmos fossem defensores daquele local, que estava carregado de energia, sentíamos a mesma na atmosfera, nesse dia fomos pernoitar em Carajazinho, onde nos foi servido um jantar no Bolicho do João Matos, naquele local inauguramos o albergue construído para atender aos caminhantes do Caminho das Missões.

            A região que estávamos percorrendo está situada no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, na encosta ocidental do Planalto Riograndense e apresenta um clima ameno com temperatura média que varia de uns 38ºC no verão e 5ºC no inverno, sua altitude é de aproximadamente 280m acima do nível do mar.

Uma pequena ajuda nos trabalhos do caminho

Sexto dia – 22/02/02 – Carajazinho a Parque das Fontes.

            O trecho a percorrer na nossa sexta etapa seria de vinte e oito quilômetros, estava classificada no folheto que recebemos como de grau de dificuldade difícil, as subidas e descidas eram constantes ao longo do mesmo, forçando a redução da velocidade da caminhada. As paradas eram mais freqüentes, almoçamos no bolicho do Adão próximo a Redução de São João Batista, local da primeira fundição de ferro e aço do sul da América. Não posso me esquecer daquela salada maravilhosa prepara pelo casal simpático descendente de italianos que transformou o seu bolicho em um local para nos receber com o maior desvelo. Em seguida atravessamos o rio Moinho, o Sanga, o rio Ijuizinho e finalmente atingimos o balneário “Parque das Fontes”, onde pernoitamos em barracas armadas para essa finalidade. O grupo estava bastante cansado, no entanto ninguém tinha desistido apesar das bolhas e das dores nas pernas.

Sétimo dia – 23/02/02 – Parque das Fontes a Santo Ângelo.

            A sétima e última etapa da caminhada, com apenas dezesseis quilômetros, foi boa, não existia muita dificuldade no caminhar, apesar do estado bastante irregular da estrada. O grupo da vanguarda teve de ficar esperando nas margens do rio Ijuí para que todos os caminhantes se reunissem para atravessá-lo na balsa ao mesmo tempo, pois aqueles últimos quilômetros, bem como a entrada na cidade, deveriam ser efetuados em conjunto.

            Finalmente atingimos a cidade de Santo Ângelo, ou precisamente a sua praça ponto final da nossa caminhada, em completo silêncio e carregados de energia emanada daqueles índios Guaranis, na escadaria da Catedral Angelopolitana, recebemos a benção dada pelo Pároco, meus olhos estavam marejados.

            Naquela oportunidade, após confraternizarmos com um magnífico almoço, no restaurante perto da Catedral, tivemos o prazer de assistir a apresentação de danças típicas regionais pelo grupo do CTG local e no final, o colega ASSIS nos congratulou com um uma verdadeira biografia alegre, descontraída e sentimental dos companheiros de jornada. Despedimo-nos e cada um partiu em direção aos seus lares, levando em seus corações, a saudade daquele companheirismo existente durante todo o tempo da caminhada, bem como as lições aprendidas sobre a catequese dos Jesuítas e do grande esforço efetuado pelos índios Guaranis na busca por um novo lar.

            Mais uma vez, a sabedoria divina nos respondia a pergunta efetuada a nós próprios: “estávamos resgatando não só um pedaço da nossa história, como, mais uma vez, tomávamos conhecimento do sofrimento de um povo – OS ÍNDIOS GUARANIS”.

            Aguardem, no próximo capítulo o relato de um fato inédito acontecido no Caminho das Missões.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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