Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 11 -  “Terra sem Males ”
Walter Jorge

Sua última caminhada da fase experimental

Depoimento do autor quando da sua caminhada pelo Caminho das Missões, quando efetuou a última caminhada da Fase Experimental, realizada em 16 de fevereiro de 2002 (a oitava), batizada de “Terra sem Males”, inaugurando dessa maneira aquele caminho histórico.

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No Caminho das Missões (primeira parte)

            Éramos 14 (quatorze) caminhantes (11 homens e 3 mulheres) reunidos na pequena cidade de Santo Ângelo, em pleno interior do Rio Grande do Sul, a espera do ônibus que nos levaria até a cidade de São Nicolau perto da fronteira com a Argentina, onde iniciaríamos a oitava e última caminhada da fase experimental do projeto “Terra Sem Males”, percorrendo os cento e oitenta e seis quilômetros no território das Missões entre as cidades gaúchas de São Nicolau e Santo Ângelo.

   Grupo da ultima caminhada da Fase Experimental com os índios guaranis

            A missão desses caminhantes era testar as reais possibilidades da execução desse roteiro, sugerir possíveis remanejamentos do seu traçado, contatos com os Órgãos Públicos Municipais e com os proprietários das terras atravessadas ao longo do seu trajeto.

            O que levaria a esses caminhantes a saírem de suas casas, muitos em estados diferentes, para efetuarem tal caminhada? No momento só DEUS poderia responder...Esses caminhantes representavam seis estados da Federação, pois vinham desde João Pessoa na Paraíba; passando por Fortaleza no Ceará; Rio de Janeiro; Santo André em São Paulo; Florianópolis em Santa Catarina e representando o estado do Rio Grande do Sul, tínhamos de Santa Bárbara do Sul, Santana do Livramento, Passo Fundo e Porto Alegre. No grupo existia desde um jovem estudante até aposentados com mais de setenta anos, uma verdadeira babel de personalidades.

Nota do Jornal “A Tribuna” com referencia ao evento

            Alguns detinham um parco conhecimento sobre a área a percorrer, para outros, no entanto, tudo aquilo era estranho, era uma novidade, um desafio, sabiam apenas que o trecho que iriam caminhar estava eivado da historias do Brasil. Naqueles cento e oitenta e seis quilômetros, aproximadamente há quatrocentos anos, foram fundadas pelos Padres da Companhia de Jesus, diversas “Reduções Jesuíticas”.

            A euforia dominava a todos, o grupo estava ávido para trocar conhecimento com os demais, um certo nervosismo pelo desconhecido os invadia, as mochilas preparadas para o embarque, umas estavam leves, outras pesadas. Tínhamos entre nós, que estávamos prestes a iniciar a jornada, veteranos de uma outra caminhada, a da peregrinação a Santiago de Compostela na Espanha onde se andava aproximadamente oitocentos quilômetros. Passávamos adiante nossas experiências, principalmente ao que se refere ao cuidado com os nossos pés, já que eles seriam o nosso único meio de transporte. Os novatos ouviam atentas nossas palavras sobre a experiência que relatávamos.

            Apenas o que destoava do verdadeiro espírito de uma peregrinação, era o aspecto comercial, pois nós caminhantes, tínhamos efetuado a uma empresa particular um pagamento a fim de podermos usufruir a pequena infra-estrutura que a mesma oferecia durante a caminhada. O trajeto ainda não dispunha de tal estrutura para receber caminhantes em qualquer época, apenas as cidades dispunham de acomodações e locais para se tomar uma refeição, no restante do caminho, principalmente em trechos longos, nada teríamos para nos abrigar ou para comermos, e assim, acabaríamos dormindo sem alimentarmos.

            No sentido lato da palavra, essa não era uma peregrinação, era apenas uma caminhada cultural através das ruínas dos monumentos históricos do período da colonização do Brasil, pois, peregrinar é uma viagem a lugares Santos ou de devoção. Assim, Dante em “Vita Nuovo, 40”, informa: “peregrino” por antonomásia é o que vai a Santiago. São “palmeros” os que vão a Terra Santa e “romeiros” os que vão a Roma. Nós, apesar de inúmeros e desconhecidos interesses, éramos apenas um grupo de caminhantes em um roteiro cultural e histórico.

            Em Santo Ângelo fomos recebidos e homenageados pelo Secretário Municipal de Turismo e Esporte da Prefeitura Municipal na pessoa do Vereador Maurício Rodrigues de Castro, fotografados e entrevistados pelos jornais locais: O “Jornal das Missões”, “A Tribuna Regional”, “O Mensageiro” e finalmente pelo Jornal “Primeira Mão”, não faltando uma pequena entrevista para a emissora local, estávamos alegres, satisfeitos e sorridentes.

            No dia 16 de fevereiro, à tarde, quando o sol descambava no horizonte, o ônibus saiu em direção ao início da nossa jornada, na cidade de São Nicolau.
           
            Rapidamente como por um passe de mágica o grupo começou a interagir, a conversa rolou solta e livre, para aqueles que ainda não conheciam os pampas gaúchos como a pequena turma do norte do Brasil, da região do nosso querido nordeste, olhavam extasiados pelas janelas do ônibus o passar daquelas terras vermelhas cobertas na sua grande maioria com a plantação de soja, gradativamente as conversas foram diminuindo e em dado momento cada um de nós estava entregue aos seus próprios pensamentos: “o que estou fazendo aqui, saindo do meu torrão natal para palmilhar tão longa distância e em um local completamente desconhecido ?”,  só DEUS poderia responder ao referido pensamento.

            Quando bem não concluímos os nossos pensamentos, chegamos a São Nicolau, novamente a alegria contagiou o ambiente, todos falavam ao mesmo tempo apanhando as suas mochilas e levando-as para o local determinado onde iríamos pernoitar. Naquele entardecer e antes que o dia declinasse, partíamos para conhecer um pouco da história daquela cidade, visitando a sua Igreja, as suas ruínas e o seu museu, estávamos naquele momento dando os primeiros passos da nossa caminhada.

            Primeiro dia – 17/02/02 – São Nicolau a Rincão dos Teixeiras.

            Numa manhã clara, nós caminhantes acordamos cedo e após um bom café, tradicional da região, iniciamos a nossa jornada pela estrada das Missões em direção ao primeiro pouso que seria na Escola Olavo Bilac, a uma distância de trinta quilômetros. A informação que dispúnhamos sobre o nível de dificuldade era considerada média. Logo nos primeiros quilômetros começamos a sentir o que seria aquela caminhada, o sol era forte e castigava a todos sem distinção, tínhamos de tomar cuidado, pois o trajeto era efetuado ao longo das estradas vicinais existentes. Veículos passavam por nós despejando uma nuvem de pó fino e vermelho o que nos obrigava a parar e manter a respiração presa por alguns segundos. A pavimentação em barro vermelho estava impregnada com pedras irregulares e muitas vezes solta, que castigavam os pés daqueles cujas botas não tinham um solado reforçado, a vegetação rasteira não permitia curtir uma merecedora sombra acolhedora, estávamos começando a sentir o que seria palmilhar por aquelas terras.

   Nada como uma boa palheta de ovelha

            Não tínhamos ainda andado mais de três horas e já percebíamos a existência de pequenos blocos de caminhantes, no primeiro pelotão destacavam-se os mais jovens, os mais bem treinados em caminhadas e também alguns mais afoitos que mais tarde começaram a pagar com a existência não só de bolhas nos pés, como também a musculatura da perna que começava a reclamar. Um segundo pelotão, esse em maior número, estava mais disperso, cada um conversava com o seu par ou simplesmente seguia calado ruminando os seus pensamentos e por último um reduzido número (uns dois ou três) estavam aqueles que mantinham sua caminhada tranqüila dentro dos seus limites físicos, aproveitando mais a natureza. Nesse último pelotão como a encerrar aquela fila, seguia eu, com os meus passos curtos e cadenciados.

            A parada para o almoço efetuada a 16 quilômetro de São Nicolau, foi uma alegria para todos, pois além de termos saboreado uma paleta de ovelha, permitiu um pequeno descanso para os nossos pés, logo mais estávamos na estrada e somente ao entardecer chegamos na Pousada que fica entre São Nicolau e São Luiz Gonzaga, onde pernoitamos na “Escola Olavo Bilac”.Com D. Antonio e suas filhas.

Segundo dia – 18/02/02 – Rincão dos Teixeiras a São Luiz Gonzaga.

            A segunda etapa do caminho foi relativamente curta, vinte e um quilômetros, o tipo do terreno permitiu um andar mais tranqüilo, pois as ondulações eram moderadas, almoçamos em uma danceteria no subsolo de um prédio na cidade de São Luiz Gonzaga. À tarde aproveitamos para visitarmos a gruta de Nossa Senhora de Lourdes, o museu arqueológico, o museu histórico bem como a Catedral em estilo gótico e a sua praça. Jantamos no CTG (Centro de Tradições Gaúchas) da cidade onde o nosso companheiro Assis declamou “Galo de Rinha” de Jayme Caetano Braum, fomos pernoitar no “Colégio Agrícola de São Luiz Gonzaga”.

            Aguardem a continuação da “última caminhada da Fase Experimental”
 

Enviado por Walter Jorge
 
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