Peregrino Walter Jorge

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Peregrinação no Brasil - 10 - Caminho das Missões (3)
Walter Jorge

            Nos capítulos anteriores falamos sobre o Caminho das Missões, como surgiu, informamos aos nossos leitores qual o seu roteiro de natureza histórica no qual tenta resgatar um pouco da história das Reduções no Rio Grande do Sul.
            Nesse capitulo, como não poderia deixar de ser, iremos complementar trazendo um pouco da história das principais cidades que faziam parte das antigas Reduções.

Caminho das Missões (Terceira Parte – Final)

Suas Cidades

            SÃO NICOLAU, primeira Querência do Rio Grande do Sul, cidade originária da Redução Jesuítica do mesmo nome, fundada inicialmente em 3 de maio de 1626 pelos Padres jesuítas Roque Gonzáles de Santa Cruz e Miguel Ampuera, às margens do rio Uruguai. O Padre Roque batizou a Redução como nome de São Nicolau em homenagem ao Padre Nicolau Mastrilli Duran, Superior Provincial dos Jesuítas.

    Igreja de São Nicolau

            A Redução foi fundada com 280 famílias ameriíndios, do grupo tupi-guarani, dóceis por natureza, o que favoreceu o trabalho de catequese dos Padres Jesuítas. No início, a vida da Redução passou por um período de fome, originado pela organização e transformação imposta aos índios habituados à liberdade e a subsistência à base da caça, pesca, frutos e raízes. No novo regime tinham obrigações a cumprir, precisavam preparar a terra, plantar e esperar a produção. Assim tinham como alimentos, charque velho e o feijão vindo de outras Reduções da margem direita do rio Uruguai.

            A obra dos Jesuítas ia em franco desenvolvimento com a fundação de outras Reduções, quando em começo de 1637 os bandeirantes Paulistas organizaram-se e formaram verdadeiros exército investindo contra as Reduções em busca de escravos para vender no território brasileiro. Na Redução de São Nicolau que já contava com mais de 4.000 habitantes, houve um sangrento combate em que os índios foram totalmente derrotados e na retirada os bandeirantes levaram consigo 2.000 índios cativos.

            Os índios que conseguiram escapar dos bandeirantes, emigraram então para a banda ocidental do rio Uruguai em busca de maior segurança, localizando-se entre as antigas Reduções de Santa Maria Maior e Conceição. Mais tarde, em 1651 formavam um só povo, com a Redução de Apóstolos. Assim, em 1638, encerrava-se o primeiro ciclo de Evangelização Jesuítica do Rio Grande do Sul.

            Com o ataque dos bandeirantes e catástrofes naturais, o povoado foi destruído e abandonado, para mais de meio século depois ser reconstruído próximo ao local da 1ª Fundação. Parte das ruínas daquele tempo foram preservadas no Sítio arqueológico situado na praça principal, que mantém algumas estruturas arquitetônicas como uma adega e paredes do cabildo e da Igreja. São Nicolau é o ponto de partida do roteiro de sete dias do Caminho das Missões.

            SÃO LUIZ GONZAGA está situada no noroeste do estado do Rio Grande do Sul, a Redução jesuítica do mesmo nome foi fundada pelo Padre Miguel Fernandes em 1687 e a atual cidade desenvolveu-se a partir das ruínas existentes no local. Seu território é sulcado por muitos arroios e pelos rios Ijuí, Piratini e Ximbocú. Fez parte da República Guarani desde sua fundação até 1756 quando, em conseqüência do Tratado de Madri (1750), os índios e os Jesuítas foram expulsos pelos exércitos português e espanhol.

            Nessa época, o Brasil ainda vivia esse atraso cultural e a civilização que aqui floresceu deixou marcas que ainda hoje podem ser observadas nos remanescentes históricos. Após a expulsão dos Jesuítas das Missões, estabeleceu-se um novo plano de governo cujos resultados foram desastrosos. Tudo que havia sido construído com arte, gosto, trabalho e sacrifício de preciosas vidas entrou em decadência. Os índios que haviam se transformados em pedreiros, pintores e entalhadores, foram mortos ou fugiram abandonando o território vítima da fúria dos exércitos na luta pela terra. O tempo passou e São Luiz Gonzaga entrou na fase agrícola. Depois de mais de um século começou a experimentar um clima de desenvolvimento e em 1880, ano da emancipação política. São Luiz Gonzaga já possuía algumas das edificações necessárias para que a vila prosperasse.

            A história daquela Missão pode ser apreciada no Museu Arqueológico e no centro histórico que conserva algumas evidências em pedra nas construções, no traçado das ruas, e principalmente na coleção da estatuária missioneira exposta no interior da Igreja Matriz onde encontramos doze imagens da época guaranítica. A história mais recente do município pode ser apreciada no Museu Senador Pinheiro Machado situado na antiga residência de José Gomes Pinheiro Machado e na Gruta de N. Senhora de Lourdes, construída em 1926 como promessa à retirada das tropas guerrilheiras da Coluna Prestes que em 1924 estava acampada no local, frente à aproximação das forças legalistas.

            SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE SÃO LOURENÇO MÁRTIR, a Redução Jesuítico-guarani de mesmo nome é um dos Sete Povos Missioneiros. Foi fundada em 1690 pelo padre Bernardo de La Vega e mais 823 famílias da Redução de Santa Maria Mayor, localiza-se a mais ou menos 27 Km de São Luiz Gonzaga. Enquanto as mulheres ocupavam-se com a plantação de milho, mandioca e outros produtos, os homens construíam as casas e a capela. Construíram, entre a Doutrina e as lavouras, uma ermida em homenagem a Santo Izidro, protetor da produção que Saint-Hilaire ainda encontrou em 1820. O 2º. Cura de São Lourenço foi o Padre Miguel Fernandez que fundou São Luiz Gonzaga.

    O autor em S. Lourenço Mártir

            Os índios de São Lourenço contribuíram muitas vezes com o governo espanhol, em suas lutas na defesa de Buenos Aires, Montevidéu e na pacificação do Paraguai. Os guerreiros de São Lourenço também colaboraram para desbaratar os portugueses na Batalha Mbororé sob o comando de Inácio Ibiarú e Nicolau Nenguiru.

            Entre os vestígios materiais ainda conservados se destacam paredes da Igreja, da casa de armas, da cozinha e escola. O local guarda muito das lendas e da magia do período missioneiro.

 

            SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE SÃO MIGUEL ARCANJO encontra-se situado na cidade de São Miguel das Missões, este local foi reconhecido em 1938 como Patrimônio Nacional e, em 1983, tombado como Patrimônio Mundial Cultural pela UNESCO. Sintetiza a grandeza do sonho de Jesuítas e guaranis de formarem uma nova sociedade alicerçada na solidariedade e no coletivismo. A história de São Miguel das Missões começa a ser contada em 1632, quando foi fundada a Redução de São Miguel Arcanjo, instalada definitivamente no atual Sítio no ano de 1687. Em 1745 foi construído o Antigo Templo, projeto do irmão João Batista Prímoli, que guarda ainda a grandiosidade arquitetônica e o simbolismo imaterial da epopéia missioneira.

            O Sítio compreende uma série de estruturas arquitetônicas, com destaque para a Igreja; o Museu das Missões, projetado por Lúcio Costa, com mais de 80 obras da estatuária missioneira, sinos, fragmentos de pedra e madeira; uma sala de multimídia; uma maquete da Redução de São Miguel e o espetáculo de Som e Luz apresentado diariamente ao anoitecer e a fonte missioneira situada a 1,5 Km do Sítio, descoberta em 1982 e restaurada em 1993, sua descoberta desvendou o mistério do abastecimento de águas do antigo povo de São Miguel.

    Estatuária missioneira existente no Museu em São Miguel Arcanjo

            PEDREIRA DA ESQUINA EZEQUIEL distante 18 Km a sudoeste de São Miguel, este é um dos afloramentos de arenito (eólico silicificado) avermelhado utilizados para a retirada dos grandes blocos para a construção da Igreja de São Miguel Arcanjo. Na pedreira podem ser constatadas marcas com ranhuras, estrias, fendas, perfurações e escavações de origem antrópica, feitas com auxílio de ferramentas de ferro utilizadas pelos índios há mais de 200 anos atrás.

            ENTRE-IJUÍS, cidade sede do Sítio Arqueológico de São João Batista sexta Redução Missioneira e primeira Fundição de Ferro e Aço da América. Ao passar ao largo da cidade, em uma coxilha situada próximo à estrada dos peregrinos, está o local da primeira fundação, da Redução de San´Angel Custódio, em 1706, e que foi transferida no ano seguinte para o local definitivo onde hoje está situada a atual cidade de Santo Ângelo. A travessia do rio Ijuí (divisa natural deste município com Santo Ângelo) é feita por balsa.

            SÃO JOÃO BATISTA esta Redução foi fundada em 1697 pelo Padre Antônio Sepp, resultante do excedente populacional de São Miguel Arcanjo. Em São João foi implantada a primeira fundição de ferro do sul da América, sendo usado como matéria prima a pedra Itacuru ou pedra cupim, que também era utilizada nas construções, visível neste local. Também foram formados corais e orquestras compostas principalmente dos meninos índios e coordenados pelo Pe. Sepp. Este Sítio arqueológico foi tombado como Patrimônio Nacional em 1970 e é composto pelo conjunto de remanescentes arquitetônicos e alguns fragmentos arqueológicos expostos na recepção.

 Homenagem ao Pe. Antonio Sepp fundador da Redução de S. João Batista

            SANTO ÂNGELO cidade sede do Caminho das Missões, originou-se do “pueblo de San´Angel Custódio”, foi no período missioneiro o último dos Sete Povos a ser fundado em 1706 pelo Padre Jesuíta belga Diogo Haze, é a única Redução voltada para o sul. No seu centro histórico a expressiva arquitetura colonial guarda em suas entranhas o material da antiga Redução reutilizado na construção da nova cidade. O Museu Municipal expõe artefato da pré-história local, material do período missioneiro, incluindo a própria construção e uma maquete da Redução de Santo Ângelo Custódio e a exposição da história mais recente.

Catedral Angelopolitana de Santo Ângelo

            O centro histórico da cidade está caracterizado por uma imponente construção a da Catedral Angelopolitana erguida a partir de 1929, está situada no mesmo local da Igreja da Redução de Santo Ângelo Custódio, tem em suas linhas arquitetônicas o mesmo traçado da antiga Igreja de São Miguel Arcanjo. Sete imagens, no alto do pórtico esculpidas em pedra grês, representam os Santos padroeiros dos Sete Povos das Missões, obra do escultor Valentin Von Adamovich da década de 50. No seu interior iremos encontrar a imagem do Cristo Morta, datada de 1740, obra do barroco missioneiro, estatuária jesuítico-guarani e pintura da Saga Missioneira do artista plástico Tadeu Martins.

            Atualmente trabalhos de escavações arqueológicas estão sendo realizados no entorno da Catedral sob a orientação da arqueóloga Raquel Rech. A mais nova informação é o tamanho exato da Igreja da Redução de San´Angel Custódio: 27 metros de largura por 80 de comprimento, segundo a arqueóloga, pode-se afirmar que essa Igreja era a maior de todas as construções dos Sete Povos das Missões. Está previsto também a reforma da Praça da Catedral, onde irá constar de 30 arcos que nos remetem aos 30 Povos das Missões, uma passarela por sobre o lago e um sino para anunciar a chegada dos peregrinos que, na sua chegada, passarão sob os 30 arcos.

            No próximo artigo iremos trazer para os nossos leitores, a narração da caminhada que o autor participou quando se efetuou com um grupo de 14 caminhantes, a “ÚLTIMA CAMINHADA DA FASE EXPERIMENTAL” batizada de “Terra sem Males”
 

Enviado por Walter Jorge
 
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