Peregrino Walter Jorge

Convide a um amigo a visitar este site
 
 
Pequena História de Santiago - 08 - A Revelação
Walter Jorge

            Por volta do início do primeiro século da nossa era, os discípulos de Santiago sepultaram seu corpo e posteriormente foram sepultados pelos fiéis que aderiram à nova religião pregada pelos mesmos. Nesse artigo traremos para conhecimento como houve a “Revelação”, ou seja, a descoberta do seu corpo e os fatos que a motivaram.

            As peregrinações ao túmulo do Apóstolo Santiago sucedem-se no mesmo ritmo das perseguições, estas ordenadas pelo Imperador Vespasiano, que no ano 257 d.C. proíbe qualquer manifestação do Culto Jacobeu, o que vem a provocar um esquecimento que poderíamos dizer: letárgico.

            Temos poucos dados sobre o Apóstolo nessa época (séculos II e III), durante esse período vicejou vários relatos que julgamos ser derivados de uma literatura apócrifa. Foi San Jerônimo quem escreveu em 408: “el Espiritu Santo los congregó y les asignó el lugar que cada uno le había tocado en suerte. Uno fue a la India, outro a España, outro al Ilírico, outro a Grecia; de modo que cada cual descansará en la província en la que había anunciado el Evangelio y la doctrina”.

            Logo após estes tempos escuros e a conversão ao cristianismo do rei Recaredo (586-601), na segundo metade do século VI, continuou novamente a voltar às pregações do Culto Jacobeu. A conservação dos documentos veneráveis como o já mencionado Breviário dos Apóstolos, (Breviarum Apostolorum) do final do século VI ou princípio do século VII se afirma pela primeira vez que Santiago pregou na Espanha e em lugares ocidentais, referindo-se a possibilidade de ser na Galicia.

Gravura sobre a conquista da península Ibérica pelo exercito Islâmico

            Por volta do ano de 711 d.C. (séc. VIII), os muçulmanos iniciaram a conquista da península Ibérica. Comandados por Tarik-inb-Ziyad, vieram do norte da África, atravessaram o estreito de Gibraltar, e venceram os cristãos visigodos na batalha de Guadalete. Depois da batalha, os árabes gradativamente foram alargando as suas conquistas pela região, da qual, por fim ficaram senhores, obrigando aos visigodos a recolherem-se nas Astúrias, uma região situada no norte da península Ibérica que, pelas suas características naturais colocava grande dificuldade ao domínio muçulmano, além disso, os mesmos estavam mais interessados em atravessar os Pirineus e derrotar os Francos, visto terem como objetivo conquistarem todos os territórios à volta do mar Mediterrâneo com a finalidade de melhorar as suas condições de vida, conseguirem o poder no comercio da região em torno do mesmo também conhecido como “Maré Nostrum”, bem como expandir o Islamismo (Maomé foi o seu protetor; Alá é o seu Deus e o Corão é o seu livro Sagrado) o que acabou por não conseguirem, pois foram derrotados pelos Francos.

Uma das telas representativas do Apóstolo Santiago “o maior”

            Naquele período um grupo de visigodos sob o comando de Pelágio, duque da Cantábria, refugiaram-se em uma caverna que servia simultaneamente de paço do rei das montanhas e de templo de Cristo. Por vezes, Pelágio e seus companheiros desciam das montanhas para atacarem os acampamentos árabes ou as aldeias despovoadas dos cristãos. Abudulaziz (ou Abdul-el-Aziz) subjugou a Lusitânia e a Cartaginense, saqueando as cidades do norte que abriram as portas, bem como atacava e destruía as que tentavam resistir.

            Depois da invasão dos árabes (711) e da destruição do reino visigodo de Toledo, o nascente reino asturiano-galego manteve viva a memória Jacobea. Nos finais do século VIII, Beato, monge do Convento de San Toribio de Liébana, compõe um hino litúrgico “O Dei Verbum”, onde chama a Santiago de “cabeça de ouro refulgente da Espanha” e “nosso protetor e patrono especial”. Em sua obra fundamental o Comentário do Apocalipse de San Juan (786), Beato também incorpora uma carta geográfica na qual aparece a cabeça do Apóstolo Santiago em seu santuário no lado ocidental da Espanha. Tais informações, entre outras, contribuem, junto com a enorme difusão que proporciona a tradição oral, a afiançar novamente a tradição da evangelização da Espanha pelo Apóstolo Santiago.

            Durante o reinado de Afonso II “o Casto” (791-842), já desaparecida a monarquia visigodo, avança a conquista dos muçulmanos que nunca dominaram a totalidade do território peninsular. O seu trabalho político de islamização alternava-se com lutas para neutralizar alguns núcleos independentes. Em princípio, o noroeste peninsular protegido pela sua abrupta geografia assim como uma climatologia nada agradável para as forças islâmicas, não lhes pareceu aos conquistadores árabes uma zona preocupante mesmo após o aparecimento do culto a Santiago. Ainda assim, o povo daquela região teve que se confrontar enumeras ocasiões com os exércitos do emirado.

            As continuas guerras, as incursões dos povos Celtas, Godos e Visigodos e posteriormente a feroz conquista Islâmica do séc. VIII obrigaram os cristãos a manter as relíquias de Santiago protegidas e custodiadas ao que parece pelos eremitas do lugar. Com o passar dos anos foi-se debilitando a memória do culto apostólico.

            Em Toledo, Elipando (756-807) na oportunidade arcebispo da cidade desde (754-758), durante o reinado de Mauregato, formulou o Adocionismo, doutrina segundo a qual Jesus homem era unicamente filho adotivo de Deus. Tal doutrina poderia ser aceita pelo Islam e conseqüentemente servir-se da ideologia legitimadora para seu empenho na Islamização da Europa.

            O monge espanhol Beato de Liébano, junto com o bispo de Osma Etério, combateram o Adocionismo, altamente defendido por Elipando. O credo foi condenado pelo segundo Concílio Ecumênico de Nicéia em 787. Nos anos de 794 e 799, os papas Adriano I (772-795) e São Leão III (795-816) condenaram o adocionismo como heresia no Concílio de Frankfurt e no de Roma respectivamente. Com a coroação de Carlos Magno como imperador, foi como uma resposta que descartou formalmente este ensino. Elipando morreu sem abdicar de sua doutrina.

Reconstrução hipotética do mausoléu com o perístilo e as colunas rodeando o monumento

            No começo do século IX toda a Europa estava conturbada, Jerusalém bem como a Península Ibérica estavam ocupadas pelos muçulmanos que tinham substituídos as legiões do Império Romano. Os “infiéis” como eram chamados os muçulmanos, viviam seus apogeus não só no campo militar como também no cultural e artístico. O Cristianismo necessitava mais do que nunca de uma motivação para despertar aquela inércia, aquela indiferença que tomava conta de todos e foi naquela oportunidade, naquele contexto sócio-político, arraigado de necessidades espirituais, intolerância religiosa e pressões militares, “razones de cuartel y de claustro (vide Gárgoris y Habidis)”, é que tem lugar o descobrimento do sepulcro do Apóstolo, o qual podemos situar ao redor dos anos 813, segundo uns e 820, segundo outros.

            Conta à tradição que um velho eremita da região, conhecido apenas pelo nome de Pelayo, Pelagius ou Pelágio que pregava no lugar de nome Solovio, – onde está situada a Igreja de San Felix de Solovia, na Compostela atual – no bosque de Libre-don, presenciou um estranho fenômeno: durante várias noites viu luzes que pareciam descer do céu, como lentas estrelas cadentes, e pairavam sobre um local ermo em pleno campo, acompanhada de cantos angélicos. O velho ermitão, aproximando-se, constatou que as estrelas assinalavam o local onde se encontrava o túmulo de mármore do Apóstolo e seus discípulos.

            Os rumores desta visão se espalharam rapidamente chegando até ao bispo Teodomiro, de Iria Flavia, antigo nome da cidade de Padrón. O Bispo ante a insistência do eremita reuniu um pequeno séqüito e dirigiu-se imediatamente ao local. Mandou limpar o terreno abrindo uma clareira na parte do bosque, encontrando as ruínas de um edifício, um pequeno pátio com as tumbas e uma diminuta capela contendo uma terceira sepultura. No meio do bosque ele mesmo pode contemplar o fenômeno relatado. Um forte resplendor iluminava o lugar onde, entre a vegetação encontrava-se o sepulcro no qual repousavam os três corpos, identificados como o de Santiago “o Maior” e os seus discípulos Teodoro e Atanásio. O primeiro relato pormenorizado que se conserva sobre o descobrimento é a “Concordia de Antealtares” de San Fagildo de 1077.

            O que o bispo Teodomiro achou em um antigo cemitério, foi uma construção funerária de uns 17 metros quadrados, compostos de uma só câmara com um altar e acesso na direção oeste-este. Outros estudiosos informam da existência de dois pisos, o superior contendo o altar e o inferior ou cripta onde estava guardado o corpo do Apóstolo. Historiadores informam que quando o bispo Teodomiro morreu, foi enterrado no mesmo local, posto que uma lápide com seu nome apareceu ali em escavações realizadas posteriormente.

            O pequeno templo era tosco em seu exterior, porém muito rico em seu interior. O sepulcro do Apóstolo Santiago, enterrado sob o pavimento jazia sob arcos de mármore, “Arcis Marmoricis” ou “Lócus Arcis Marmoricis”. Lugar de “Arcos Marmóreos” foi o primeiro nome que se deu ao local entre os séc. IX ao XI, embora também conhecido como Santiago de Arcis. Posteriormente, os “arcos” se converteriam por deformação lingüística, em “arcas”, referindo-se aos supostos sepulcros dos discípulos que acompanharam o Apóstolo em sua viagem a Galícia.
 

            No próximo artigo abordaremos como deu início uma tradição que motivou posteriormente às peregrinações ao túmulo do Apóstolo Santiago.

            Aguardem.

 

Enviado por Walter Jorge
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright  1996-2003