Peregrino Walter Jorge

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Pequena História de Santiago - 06 - Sua Morte
Walter Jorge

Escrevemos sobre Santiago e a sua pregação na Península Ibérica, nesse artigo abordaremos sua chegada a Jerusalém e as causas que motivaram a sua morte por decapitação, ao mando de Herodes Agripa I, rei da Judéia.

Acredita-se que Santiago acompanhado de seus discípulos Teodoro e Atanásio utilizaram o mesmo processo que o levou para a Espanha no seu retorno, isto é, viajaram em uma das embarcações que faziam o comercio de mercadorias entre a costa do norte da África e a costa da Andaluzia, as quais eram muito comuns naquela época.

Mapa de Jerusalém no tempo do Apóstolo Tiago

Santiago regressando a Jerusalém na Palestina, passa a fazer parte integrante do conjunto básico da Igreja Primitiva de Jerusalém, com o grupo dos “DOZE”, desempenhando um papel relevante dentro da comunidade cristã da Cidade Santa. Num clima de grande inquietude religiosa, onde aumentava a cada dia o desejo de erradicar o incipiente cristianismo, temos noticia sobre como se lhes proibira aos Apóstolos pregar aos judeus. Tiago toma conhecimento que dois magos célebres haviam seduzido a população com seus encantamentos, mas Tiago desprezando tal limitação, começa a pregar anunciando a sua mensagem evangelizadora a todo o povo, entrando nas sinagogas e argumentando com todos sobre a anunciada chegada do profeta pelos judeus.

Tradições à parte, sabem-se que no ano 44 da era cristã, quarto ano do Império de Cláudio, Tiago juntou-se a Pedro em Jerusalém para celebrar a Páscoa, um ano que lhe seria fatídico. A sua grande loquacidade, a sua capacidade dialética e o atrativo da sua personalidade, situa-se como um dos Apóstolos mais seguidos na sua missão evangelizadora. Todo esse assunto molestava os judeus e, Abiathar, sumo sacerdote, excitou a multidão contra Tiago de forma a que levasse a Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande, senhor da Palestina, rei da Judéia a prendê-lo e posteriormente condenar a morte. Aliais, é o único Apóstolo cuja morte vem mencionada na Bíblia, nos Atos dos Apóstolos (12, 1-3):

“1 – Por aquele tempo, o rei Herodes, mandou prender alguns membros da Igreja para torturá-los. 2 – Assim matou a espada Tiago, irmão de João. 3 – Vendo que agradava aos Judeus mandou prender também Pedro. Era a semana da Páscoa”.

Herodes era filho de Aristóbulo IV e de Berenice, tinha três anos quando o seu pai foi executado, passou sua juventude em Roma onde tinha uma vida mundana, criou-se com Duso, filho de Tibério e se dizia amigo dos Imperadores Calígula e Cláudio. Devido a esse fato obteve o domínio como rei, de toda o território da Palestina.

Maquete da Antiga Jerusalém

Este o manda decapitar em 25 de julho em Cesaréia, transformando-o assim no primeiro Apóstolo a derramar sangue por Cristo. Antes disso ainda tem tempo para milagres, o encarregado de conduzir Santiago ao suplicio, o carcereiro fariseu chamado Josías, presencia como o Apóstolo cura um paralítico.

Movido pelo arrependimento, converte-se ao cristianismo, suplicando o perdão do Apóstolo, Santiago pede como “última graça” um recipiente com água e o batiza. Ambos são degolados. Nessa mesma época, Herodes manda também prender a Pedro que conseguiu fugir com a ajuda de um anjo (At. 12, 1-13). Pouco tempo depois, no mesmo ano do martírio de Santiago (44 d.C.), Herodes Agripa I, morre repentinamente de complicações abdominais, após cinco dias de agonia, alguns historiadores informa que o mesmo foi envenenado. Segundo os Evangelhos o mesmo foi ferido por um anjo (At. 12, 20-23).

Os modos de execução naquela época entre os judeus eram o de empalamento, apedrejamento e decapitação. Este último era empregado por dois delitos: o de idolatria coletiva e o de homicídio. Embora não conste expressamente, é lógico que Santiago, pregador cristão, deveria ter sido acusado de “idolatria coletiva”, pois difundia o culto a Jesus, cuja divindade não era reconhecida pelos judeus.

Reza a tradição (ou lenda), que Santiago orou antes de receber o golpe e que, após ser degolado, segurou nas mãos até à tarde do dia seguinte à própria cabeça, enquanto a sua morte era marcada por trovões, relâmpagos e cânticos de anjos.

Gravura representando a decapitação de Santiago por ordem do rei Herodes Agripa I

Da analise dos Evangelhos poderíamos dizer que o martírio de Santiago foi o cumprimento de uma palavra de compromisso que o Apóstolo havia contraído com Cristo, quando a sua mãe solicitou um pedido a Jesus para que seus filhos Tiago e João tivessem o direito de terem os primeiros postos do reino de Cristo, ao que “Jesus disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? – “sim”, disseram-lhes”. (Mt. 20, 20-23). Não falta quem afirme que seu irmão João também sofreu o martírio nas mãos de Agripa I, coisa menos provável do que a tradição que considera que morreu de idade avançada, depois de ter sofrido a tortura do azeite a ferver, no tempo de Domiciano.

Com referência a data do seu martírio existe uma controvérsia segundo alguns martirologistas, a data seria 25 de março. Quanto a sua celebração em 25 de julho que aparece nos calendários antes do descobrimento dos seus restos mortais no século IX, pergunta-se: “Seria o dia em que chegaram a Padrón seus discípulos com o corpo do Apóstolo?”. E quanto a data 8 de agosto que alguns historiadores informam ser a da chegada da barca conduzindo o seu corpo nas areias de Padrón! Não conseguimos rastrear nenhum evento com relação a Santiago sobre a mesma.

 

Seu nome como Santo é aceito entre todos aqueles que adotam o Cristianismo. Nas Igrejas Católicas e Luterana comemora-se no dia 25 de julho; por sua vez a Igreja Ortodoxa comemoram no dia 30 de abril; e a Igreja Copta a 12 de abril e os etíopes a 28 de dezembro.

Quanto ao outro Tiago “o menor”, filho de Maria e Alfeu Cleofas, Piers Paul Read em seu livro intitulado “Os Templários” escreve: “em 62 d.C., durante o breve interregno entre a morte de Pórcio Festo e a chegada de Lucénio Albino, o sumo sacerdote Anam condenou um segundo Apóstolo chamado Tiago, conhecido como “o irmão do Senhor”, a ser lançado da muralha e morto a pauladas”.

Flávio Josefo em sua obra “Antiguidades Judaicas” narra que este Apóstolo tomou para si o encargo de dirigir a Igreja de Jerusalém após a partida de Pedro e que participou ativamente do primeiro Concílio da Igreja, o qual tratava da questão da circuncisão e da pregação do evangelho para os pagãos, evento este que teria ocorrido por volta de 54 d.C.. De fato, tal tradição é reconhecida e confirmada por Eusébio de Cesaréia, que narra ter sido o Apóstolo o líder da comunidade cristã daquele local por cerca de dezoito anos e que sua conduta piedosa e atuante, provocou a fúria dos sacerdotes judeus, em especial o sumo sacerdote Anãs II, que instigaram as turbas dos judeus a trucidarem o Apóstolo. Uma tradição relatada por Eusébio, esta menos confiável, nos conta que por não renegar e tampouco amaldiçoar o nome de Jesus foi atirado do Pináculo do Templo e que sobreviveu à queda, sendo consumado seu martírio com uma pá de pisoeiro.

            Assim como os outros Apóstolos, Tiago escreveu uma carta, “Epistolas de São Tiago” conforme consta na Sagrada Escritura, no entanto, da sua leitura não podemos deduzir se a mesma foi escrito pelo Tiago (o menor) irmão de José, ou se pelo Tiago (o maior) filho de Zebedeu. Alguns historiadores informam que a mesma foi escrita por terceiros, em razão da ausência de concepção legalista, da falta de referência à vida de Jesus, da canonicidade da epistola tardiamente reconhecida (séc. III-IV) e do grego da epistola, por demais perfeita num palestinense. O autor poderia ser um judeu-cristão helenista e grande conhecedor do Antigo Testamento. A epistola poderia ter sido escrita na Síria pelo final do séc. I d.C. Historiadores outros informam que a mesma foi elaborada por terceiro a pedido e orientado por Tiago (o menor), que seria irmão de Jesus.

            No próximo artigo abordaremos como foi efetuado e os porquês da translação do seu corpo para a Galícia.

            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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