Peregrino Walter Jorge

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Pequena História de Santiago - 04 - A pregação de Tiago na Espanha (segunda parte)
Walter Jorge

A partir do séc. VI vários documentos escritos começaram a aparecer comprovando a pregação de Santiago na Espanha, apesar de ter passado mais de quatro séculos de sua morte, como falamos anteriormente: “As origens do cristianismo na Espanha romana não foram problemas que preocupasse os antigos escritores eclesiásticos”.

Nos finais do século VII, São Isidoro de Sevilha, ilustre prelado e estudioso, reconhece a afirmação do “Breviárium” sobre a pregação de Santiago na Espanha e escreveu entre outras obras, a que leva o título de “De ortu et obitu Patrum”, livro esse que trata da biografia de todos os que mereceram ser considerados os promotores da fé cristã. No capitulo 71 escrevendo sobre Santiago, diz-se: “Spaniae et occidentalium locorum Evangelium praedicavit et in occasun mundi lucem oraedicationis infundit”, que quer dizer: “Santiago pregou o Evangelho na Espanha e nas terras ocidentais e introduziu a luz da pregação no fim do mundo”.

Imagem de Santiago portando chapéu e nele a representação Jacobea na figura de uma concha (Vieira)

 

Também temos informações de um documento existente na biblioteca do Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai. Trata-se de um calendário que os historiadores acreditam que procede de uma comunidade cristã do norte da África. Testemunha que no séc. VIII se tributava o culto ao Apóstolo Santiago e concretiza informando que o Apóstolo pregou na Espanha: “Jacobus Zebedei in Spania”.

As notícias sobre as referidas pregações, só seria admitida por um escritor peninsular um século depois em 785 d.C., nos comentários ao Apocalipse de São Beato, abade do mosteiro de Liébano, no norte da Espanha. E, no entanto, o seu sepulcro haveria de ser encontrado 50 anos após, numa remota mata galega, no “ponto mais ocidental de toda a terra habitada”, a Finisterra.

Do séc. VIII nos vem à informação do que se parece ser o hino “O Dei verbum”, composto provavelmente no reino de Astúrias, informar que os filhos de Zebedeu pregaram, um deles, João, na Ásia; o outro, Tiago na Espanha: “Santiago tomou posse da Espanha”: “potitus Hispaniam”. Sugere o autor do dito hino que, deste modo, se tornou realidade a petição feita por Salomé a Jesus mãe dos dois irmãos. O historiador López Ferreiro refere que diversos testamentos galegos ou instrumentos jurídicos de doações costumavam usar como protocolo esta fórmula: “ex quibus (Apostolis) unus, Zebedei filius, Hispaniae, Gallecie finibus est solio locatus”, “um dos quais (Apóstolos), um, filho de Zebedeu, tocou-lhe em sorte a Espanha, pôs o trono nos limites da Galícia”. E, segundo o mesmo López Ferreiro, as fontes jurídicas citadas são do séc. X em diante.

Ainda no séc. X temos notícias de que no Mosteiro de Sant Gall, Notker efetuava anotações no seu martirológio referente à notícia da pregação do Apóstolo Santiago na Espanha, informando ainda sobre o que havia informado Santo Isidoro de Sevilha na sua obra “De ortu et obtitu Patrum”. O mesmo devidamente convencido com base nos seus estudos da presença de Santiago vivo, e depois morto, na Espanha, vai a Compostela para que o bispo compostelano o confirme como metropolitano da Terragona.

Santiago peregrino, pintura de Juan de Juanes (1560-1570)

É muito freqüente encontramos na Ásia, textos que falam da missão de Santiago na península Ibérica, é interessante a notícia que oferece o Códice Georgiano 42 de Ivron (Monte Athos), que, na sua lista dos destinos dos Apóstolos, quando informa sobre a pregação do Apóstolo Santiago em dois lugares: “Santiago, a Hispania e em Jerusalém”.

Muitas vezes se escreveu que o silêncio dos primeiros séculos cristãos era um argumento muito sólido contra a tradição Jacobeia. É certo que carecemos de dados na literatura cristã que dêem fé nos quatro séculos da nossa era com referencia a presença de Santiago, tanto vivo como morto na Espanha. Será que essa documentação não chegou a existir? Com certeza que existiu confirma o historiador Manuel Jesús Precedo Lafuente, mas deve ter desaparecido. E, portanto, não é de estranhar que assim tenha acontecido, se tivermos em consideração as calamidades que sofreram os habitantes da Península, principalmente com a invasão e a conquista pelos muçulmanos de seus territórios.

Porventura, poderão ter sido a causa dos prejuízos, em certos casos, as perseguições; noutras as mudanças políticas sob a forma de invasões, o que teria feito que se tentasse tapar os olhos e não ver o passado, fato a que, aliás, tecnicamente, se chamou “damnatio memoriae”, isto é a condenação das recordações. Não existe então, nada estranho na ausência de testemunhos acerca da pregação de Santiago e da sua sepultura.

O historiador López Ferreira, cuja obra, embora o título se refira à Igreja de Santiago, é uma resenha histórica dos acontecimentos na Galícia, escreve a propósito da pregação de Santiago no local quando informa: “O varão extraordinário (Santiago), com muitas armas diferentes das de Augusto, vinha conquistar a Espanha para a verdade e para a fé (...) a Espanha abriga a doce e firme esperança de continuar a ser do Apostolo Santiago até a consumação dos séculos”.

Esta segurança de López Ferreira não se deve só à sua condição de canônico interessado na história Jacobeia, por cima dos afetos, estava a honradez que demonstra nas suas obras. Apoiava-se no que ele pensava – e hoje podemos manter a mesma segurança – bases suficientemente sólidas, apesar de que nos reste sempre o desejo de contar mais. Devemos afirmar que a antiguidade dos textos não é diferente dos que se referem a outras pessoas sobre cuja existência existem duvidas.

Anteriormente quando abordamos sobre os dados biográficos de Tiago, informamos da dificuldade de uma perfeita caracterização entre os Tiagos encontrados na Escrituras, e para tornar o assunto ainda mais polemico, transcrevemos abaixo o que nos informa Marilyn Hopkins, Graham Simmans e Tim Wallace-Murphy no seu livro intitulado “Rex Deus”:

“TIAGO, O FILHO DE DEUS”.

“Em certa medida, as viagens de Judas Tomé e seu sobrinho Tiago basearam-se no mesmo princípio dos empregados por Maria Madalena – manter-se em movimento até encontrar um refúgio seguro. Após um não especificado período em Edessa, Tiago, aos cuidados do tio, viajou para as colônias celtibéricas nas vizinhanças da atual cidade de Compostela, no Noroeste da Espanha. A idade de Tiago, quando chegou a Espanha, não fica imediatamente clara na versão das sagas do Rex Deus que nos foram contadas, como não o ficam os detalhes completos de suas viagens posteriores. Sabe-se que durante a maturidade ele passou bastante tempo na Grã-Bretanha, com José de Arimatéia, mas as lendas do Rex Deus contam que morreu na Espanha. Poderia essa visita de Tiago, o filho do Messias, ser a verdadeira base para as lendas posteriores de que o Apóstolo Tiago visitou a Península Ibérica? Seria de fato irônico se todos os peregrinos devotos e ortodoxos que visitam Compostela e se ajoelham em frente ao túmulo do Apóstolo estivessem na verdade venerando sem o saber o filho de um casamento que a Igreja nega haver algum dia ocorrido”.

No próximo artigo continuaremos a tecer considerações sobre a pregação de Santiago na Espanha.

Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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