Peregrino Walter Jorge

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Pequena História de Santiago - 03 - A pregação de Tiago na Espanha (primeira parte)
Walter Jorge

            A pregação de Tiago na Espanha é um objeto de controvérsias por diversos historiadores, no entanto não poderíamos acreditar que o mesmo tivesse escolhido ser enterrado naquela longínqua Galícia, se o mesmo não tivesse uma forte vinculação com o local, o que nos deixa a antever que por ali passou efetuando a sua pregação, levando as palavras de ensinamento de Jesus.

Gravura que nos mostra Jesus enviando Tiago para sua pregação na Espanha de Santiago de Compostela

            Santiago “o Maior”, após Jesus ter sido crucificado e totalmente identificado com a sua doutrina, converteu-se no principal animador da comunidade de crentes em Jerusalém, admirado pelo seu fervor e pela sinceridade das suas palavras. Santiago forma parte de um grupo básico da Igreja Primitiva de Jerusalém, em conjunto com o Grupo dos Doze em meditação e oração. Foi o primeiro bispo de Jerusalém.

            Pouco se sabe sobre a vida de Santiago. Sua ida ou mesmo sua pregação na Espanha, seus milagres e as maravilhas que lhe são atribuídas pertencem ao campo das lendas e das tradições. Sabe-se que, depois da ascensão de Cristo, Santiago evangelizou a Judéia e a Sesmaria.

            As origens do cristianismo na Espanha romana não foram problemas que preocupasse os antigos escritores eclesiásticos. Nem os historiadores da época romana, nem os da visigótica se referiram aos trabalhos de evangelização da península Ibérica ou à organização das primeiras cristandades. Tal silêncio contrasta singularmente com a abundância de dados que, mais tarde, vieram a serem divulgados e reclamar de antigas tradições. Os que vieram depois não se atreveram a classificá-las de lendas e antes procuraram salvá-las por um tênue fio de verossimilhança, incriminando a inclemência dos tempos ou a incúria dos homens, que deixaram perder preciosos documentos que deviam ter existido. A lenda serviu de suporte à religião e, esta, à Reconquista.

            A tradição Jacobea, como já nos referimos, é constituída por duas partes: a pregação e o seu sepultamento. Não se poderia explicar uma sem a outra. Não podemos e não devemos acreditar que Santiago quisesse ter sido enterrado na Espanha, e num lugar tão longínquo como a Galícia, se não tivesse havido antes uma atividade por sua parte na terra escolhida para o seu enterro, o que nos deixa a acreditar sem margem de duvidas, que o mesmo esteve a pregar na Península Ibérica.

            Sua ida à Espanha seria para cumprir o mandamento de Jesus: “vai e predica a todas as gentes, desde o princípio até o fim do mundo”. Coube a Santiago desta forma, com o seu caráter impetuoso e decidido chegar até “Finisterra”, local situado na Galícia e considerada “o fim do mundo”.

Antes de partir com destino à Península Ibérica, esteve Santiago à presença de Maria Santíssima, Mãe de Jesus, para despedir-se, pedir-lhe conselho e benção, como fizeram todos os Apóstolos quando partiram para suas pregações. Maria então assim lhe disse: “Vai, meu filho, cumpre a ordem de teu Mestre, e por Ele te rogo que, naquela cidade da Espanha em que maior número de almas converteres à fé, edifiques em minha memória conforme o que se te manifestar”.

Finisterra (fim do mundo) onde segundo a tradição Santiago divulgou os ensinamentos de Jesus – O autor no local

Naquela época transportava-se minerais como o estanho, ouro, ferro ou cobre da Espanha província do Império Romano, até as costas da Palestina e na volta as embarcações traziam peças de adorno, placas de mármore e também especiarias e produtos que carregavam em Alexandria e outros portos mais orientais, de grande importância comercial. Para Tiago, a Espanha era uma terra estranha e um convite ao seu espírito aventureiro e impetuoso.

Acredita-se que o Apóstolo realizou a viagem da Palestina à Espanha em alguma destas embarcações, desembarcando na costa da Andaluzia, terra na qual começou a sua pregação. A perseguição aos cristãos que lhes era imputada pelo Império Romano, na época Império de Caio Calígula, lhe causou profundas dificuldades pelo caminho. Continuou a sua missão evangelizadora em Coimbra e Braga e segundo a tradição, passaria logo a Iria Flavia, na Finisterra hispânica, onde principiaria a evangelização, freqüentando lugares de culto pagão.

Até o início do século VII não havia em toda a literatura eclesiástica, quer do Ocidente quer do Oriente, a mínima alusão à sua pregação na península Ibérica. Nos Catálogos Apostólicos elaborados pela Igreja greco-bizantina entre os séc. V e VI, apenas é atribuído a Santiago sua pregação às Doze Tribos da Dispersão, assevera o P. Miguel de Oliveira, no seu livro “Lendas e História” (editado em 1964 pela União Gráfica).

É no Breviárium dos Apóstolorum (fins do século VI) na sua versão latina, onde se lhe atribui pela primeira vez a pregação na Espanha e nas regiões ocidentais como informa o documento: “Jacobus, filius Zebedei, ... hicc Spaniae et occidentalia loca predicavit”, isto é, “Santiago filho de Zebedeu,... pregou na Espanha e nas terras ocidentais”, assim como o seu sepultamento na “Arca Marmórea”, convertendo-se em instrumento extraordinário de difusão da tradição apostólica. Posteriormente, já na segunda metade do século VII, um erudito monge inglês chamado Beda o Venerável, constata de novo este feito na sua obra intitulada “Locus Sanctus”, inspirada no livro de igual nome do abade Adhelmo, informando a localização exata do corpo do Apóstolo na Galícia.

As Ilhas Britânicas conheceu muito cedo o culto a Santiago “o maior” pela vinculação do Apóstolo à Espanha. Um exemplo pode ter sido o poema que escreveu a cada um dos doze altares de uma Basílica dedicados cada um deles a um Apóstolo, pelo abade Adhelmo nos finais do séc. VII. O santo foi abade do mosteiro de Malmesbury - era conhecido como Aldhelmo de Malmesbury – e bispo, posteriormente, da diocese de Sheborn. No seu cântico dos altares e dos seus titulares, diz ele que tinha consagrado à memória do nosso Apóstolo: “primitus hispanas convertit dogmat gentes”, “no princípio converteu com a verdade as gentes hispanas” e acrescenta a esta informação referências aos milagres do Apóstolo Santiago.

Todos nos sabemos que os fatos antigos, à medida que vão circulando através do tempo, vão enriquecendo com mais um parágrafo, mais uma informação de cada um que o vai contando e por vezes, adquirindo um certo teor de romance. A tradição e a lenda nos estudos atuais da História e da Religião, deixou de ser simplesmente um sinônimo de narração fantástica, passou a ser reverenciado como um fato histórico que existiu, e como tal, a história sobre a peregrinação de Santiago na Espanha não poderia deixar de nela se encaixar.

No próximo artigo continuaremos a falar sobre a pregação de Santiago na Península Ibérica.

Aguardem.

Enviado por Walter Jorge
 
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