Peregrino Walter Jorge

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Pequena História de Santiago - 02 - O Início de um Santo (segunda parte - final)
Walter Jorge

            Segundo os Evangelhos Jesus escolheu dentre seus discípulos o seu pequeno “grupo de íntimos” e com eles saiu a praticar vários milagres, dentre eles considero a Ressurreição da filha de Jairo uma passagem belíssima dos Evangelhos, transcrevemos o que reza os mesmos.

            “Depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se grande multidão à sua volta, e Ele deteve-se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-lhe com insistência: “A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva”. Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que o apertava de todos os lados. Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: “A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?”. Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: “Não temas; basta que tenhas fé”. E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram à casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou um grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: “Porque todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; estas a dormir”. Riram-se dele, Jesus depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: “Talitha Kum”, que significa: “Menina, eu te ordeno: levanta-te”. Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina”.

A imagem de Santo no altar mor da Catedral de Santiago de Compostela


             Tais favores concedidos aos dois irmãos (Tiago e João), provavelmente prepararam o pedido de Salomé de que lhes fossem dados os primeiros lugares no reino de Cristo (Mt. 20,21), dando a entender que a família de Zebedeu estava aparentada com a Sagrada Família.

            Santiago era considerado como um homem de caráter veemente, apaixonado e impulsivo, com uma personalidade aventureira, ambiciosa e decidida, muitas das vezes sem medir a conseqüência dos seus atos. É freqüente encontrarmos referência a esta impetuosidade, bem definida na sua conversa com Jesus para que lhe seja dado um posto de privilégio no reino dos céus ou quando por falta de hospitalidade dos samaritanos hostis, ao negar-se a acolherem ao Grupo de Jesus pelo simples fato de se dirigirem a Jerusalém, exasperou-se, já que o preceito da hospitalidade devia estar por cima de todas as diferenças. Então, os dois irmãos disserem a Jesus: “Senhor, queres que digamos que baixe o fogo do céu e os consuma?”. Jesus reprová-lhes essa atitude, sintoma de que não está em absoluto de acordo com a sua intransigência. Isto é o que querem significar alguns manuscritos, quando acrescentam como palavras do Mestre: “Não sabeis de que espírito sois: o Filho do Homem não veio destruir vidas humanas, mas salvá-las”. (Lc.9, 52-56).

O ardor do filho de Zebedeu é merecedor de fortes reprimendas por parte de Cristo, ele e seu irmão João foram chamados de Boanerges, “filhos do trovão”, ou “filhos do trono” (Mc. 3,17), provavelmente por causa do seu zelo impetuoso característico dos Galileus (Lc. 9,54). A sua veemência e perseverança na pregação estão registradas no “Códice Calixtino (século XII)”, livro fundamental da tradição Jacobea, que o qualifica de “Santo de admirável valor, bem-aventurado por sua vida assombrosa, pelas suas virtudes e de gênio esclarecido, brilhante e fecundo”. Viu a Cristo junto no lago de Tiberíades depois da sua Ressurreição (Jo. 21,1-2).

Pintura representando a figura do Apóstolo existente na Catedral de Santiago.

            A postura de Santiago bem como a do seu irmão João e, segundo indica Mateus, a da sua mãe Salomé, era a de optarem pelos dois postos mais importante do reino. Eles esperavam que Jesus chegasse a ser coroado rei de Israel, e pediram-lhe que os admitissem entre os seus colaboradores mais próximo (Mt.20, 20-23). Santiago teve de mudar sua perspectiva e seus pontos de vista ao entender que o projeto de Jesus não era puro e simplesmente triunfar. Ele “não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate das multidões” (Mc. 10,42-45). É de admirar a capacidade desses homens em meio às incompreensões, aos equívocos, as expectativas não alcançadas e principalmente da incomoda postura de estar continuamente descobrindo caminhos imprevistos e arriscados.

            ETIMOLOGIA DO SEU NOME:

            O nome do Apóstolo Tiago apresenta uma variação muito grande nos diferentes idiomas dos países ocidentais, inclusive talvez, seja o nome masculino que mais variações possui. SANTIAGO é a nossa atual maneira de chamar o Apóstolo Tiago. O nome compõe-se de “SANT” e de “IAGO” ou “SAN JACOB. IAGO”. O primeiro vocábulo alude à sua condição de santo, enquanto IAGO procede do hebreu Yaacob, nome do irmão gêmeo de Esau, o filho de Isaac. Uma derivação do nome grego que segundo as escrituras se chamava “LACOBOS” e este nome por sua vez era derivado do hebreu “IACOB”, como a do patriarca “Jacob”.

            De JACOB ou JACÓ em hebraico, veio o nome JACOBUS em latim e da expressão latina “Sanctus Jacobus”, apareceram os adjetivos “Jacobeo” ou “Jacobeu”, nomes freqüentemente encontrados pelos peregrinos ao se referir a aspectos e características do Caminho de Santiago.

            O nome hebreu é tão arcaico que a sua etimologia é incerta. Deveria prover de “YA´AQOBEL” (que Deus proteja), porém esse nome perdeu-se, e segundo as escrituras teve diferentes interpretações segundo as lendas e pelas personagens dos Patriarcas.

            De JACOBUS transformou-se em IACOBUS, que mais tarde virou IAGO ou YAGO. Da fusão da expressão “Sanct´ Iacobus” ou “Santo Iago”, apareceu à palavra “SANTIAGO” que posteriormente transformou-se em “San Tiago”, dando lugar ao aparecimento dos nomes TIAGO ou THIAGO. Ao longo do tempo houve uma transformação aparecendo em castelhano o nome DIEGO e em português DIOGO, Em Italiano surgiu devido à substituição do I pelo G, transformou-se o nome latino de JACOBUS em GIACOMO. Na língua alemã e em outras línguas nórdicas, seu nome é conhecido como JAKOB.

            Saindo do continente e indo para as ilhas Britânicas, o nome de TIAGO modificou-se para JAMES com uma tendência de aportuguesar para JAIME. Já na França seu nome passou a ser chamado de JACQUES, dando motivo a designarem a tradicional concha em “coquille de Saint Jacques”.

            Em continuação a história do Apóstolo Tiago, no próximo artigo abordaremos como o mesmo iniciou a sua pregação na Península Ibérica.

            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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