Peregrino Walter Jorge

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Pequena História de Santiago - 12 - A Destruição de Compostela
Walter Jorge

Falamos anteriormente sobre o surgimento de uma figura Carismática Cristã. Aquele simples e humilde Apóstolo pregador, de conformidade com as lendas, saiu do seu túmulo, e, investido na figura de um Guerreiro, montado em um cavalo branco, com a espada em uma das mãos, partiu para ajudar a Espanha na sua Reconquista das mãos dos “infiéis”, seja uma lenda ou não, tudo tem o seu preço.

Nesse artigo veremos o que aconteceu.

O Apóstolo tornou-se o maior ícone dos cristãos na sua oposição desesperada à presença dos interesses dos muçulmanos na Espanha, fazendo com que o seu sepulcro se tornasse fonte de atração permanente para os peregrinos vindos de todos os recantos da Europa, percorrendo os Caminhos de Santiago.

Estatua de Al-Mansur (o Almanzor) colocada em Algeciras no verão de 2002, em comemoração aos mil anos de sua morte

Nos fins do século IX, no ano de 987 (ou 997, segundo alguns historiadores), o Califado de Córdoba se viu novamente restaurado pela força da mão de “Al–Mansur bi-Allah” (o vitorioso de Deus) conhecido como Almanzor, um dos mais atrevidos guerreiros muçulmano do seu tempo. Ele queria destruir o coração do reino cristão e projetou uma expedição à cidade de Compostela situada no canto norte da Galícia que era considerado um lugar longínquo e geograficamente quase inexpugnável naqueles tempos.

O próprio Almanzor se mostrava bastante surpreendido pela grande afluência de peregrinos que se deslocavam de diversas regiões para orar perante o túmulo do Apóstolo o que chegava a levar os cronistas muçulmanos a comparar a cidade de Compostela com a cidade de Meca.

 Almanzor, de acordo com os condes gallegos e leoneses rebeldes a seu rei, decidiu numa das suas maiores ousadias, dirigir uma expedição de castigo contra a cidade de Santiago de Compostela devido à negativa do rei Leonês Bermudo II de pagar os tributos devidos ao califado, bem como abater aquele símbolo da resistência cristã à presença islâmica na península. Quis mostrar que ninguém dentro da Espanha podia ficar imune ao punho armado de Maomé, e que somente a fé do Profeta seria soberana na península.

 A expedição partiu de Córdoba em 3 de julho, seguindo a cavalaria e as provisões por terra, enquanto a infantaria, armas, munições e as máquinas de guerra, seguiram por barco até a cidade do Porto. As duas forças se uniram e em 11 de agosto chegaram a Santiago encontrando a cidade completamente abandonada por seus habitantes.

Sua chegada foi sob o signo da destruição. Seu exercito arremeteu e destruíram a sua passagem todos os lugares que havia sido construído ao longo dos séculos: monastérios, igrejas, túmulos e monumentos. Os habitantes da cidade fugiram espavoridos e refugiaram-se nas montanhas existentes nas cercanias. O seu conquistador ao chegar aos muros da desolada cidade não cabia em si o seu assombro ao ver as muralhas completamente desprotegidas e as portas abertas.

            Caminhou pelas ruas solitárias que horas antes eram um fervilhar de mercadores, peregrinos e albergueiros buscando clientes. Molestado por essa situação e inquieto pelo silêncio do lugar, acercou-se lentamente da Catedral onde estava o túmulo do Apóstolo. Segundo a lenda, Almanzor penetra na Catedral montado em seu cavalo e na pia batismal deu de beber ao mesmo. De pronto ao chegar aos pés da urna sagrada contendo os restos mortais do Apóstolo, só encontrou um velho sacerdote que, abraçado à mesma, orava com uma grande devoção. Almanzor mirou-o fixamente e durante alguns minutos que pareceram uma eternidade, guardou silêncio, um silêncio que se debatia entre respeito e a incredulidade que a produzia esse velhinho, que não somente não tinha medo como ademais negava a existência da sua presença e continuava rezando com os olhos cerrados.

            Almanzor respeitou a tumba sepulcral, mas em troca arrasou completamente a cidade e destruiu a Igreja de Santiago, Antealtares e a Corticela e ordenou que levassem os sinos da basílica e as folhas de madeira das portas da cidade para fazer com elas lâmpadas e tetos para a mesquita de Córdoba, nas costas dos escravos cristãos.

Aquele monge que a história identificaria mais tarde como sendo o do bispo San Pedro de Mezonzo, salvou não só a sua vida como também a integridade da urna, talvez por sua valentia ou pelo temor islâmico de uma violenta vingança do discípulo de Cristo.

Não poderia deixar de aqui escrever algumas palavras sobre esse guerreiro que, durante muitos anos trouxe o terror para as regiões do norte da Península Ibérica. Quem era Almanzor?

ALMANZOR

            Abu Amir Muhammad ibn Abi Amir al-Mansur; Torrox, atual Espanha (938-Medinaceli, 1002) Hayib de Córdoba (978-1002). Era descendente de uma família árabe do Yemen estabelecida na região de Algeciras, desde a conquista muçulmana da península Ibérica. Estudou Direito e Letras em Córdoba sob a tutela de seus tios e durante o califado de al-Hakam II, ocupou importantes cargos administrativos, como o de diretor da Casa da Moeda (967) e o de intendente do exercito do general Galib (972).

            Seu pai Abd Allah, é descrito como um homem piedoso, bondoso e ascético, que morreu em Trípoli quando regressava de sua peregrinação a Meca, Seu avô materno se destacou no reinado de Abderramán III como médico e ministro do Califa.

            Em 976, com a prematura morte do califa al-Hakam II, colocou-se à frente do califado de Córdoba a Hisam II, um menino de somente onze anos, circunstancia de que se aproveitou Almanzor, homem brilhante, decidido e ambicioso, dominando a literatura e a ciência, para tomar as rédeas do poder. Naquele mesmo ano foi designado tutor do jovem califa, com a ajuda da mãe deste, Subh, mulher de origem basca que exercia enorme influência na corte como favorita de al-Hakam II, provavelmente era sua amante.

            Dois anos mais tarde, em 978, após haver convertido o jovem califa Hisam II em uma marionete política e postergado uma personagem tão influente como al-Mushafi y Galib, Almanzor se faz nomear “hayib”, uma espécie de prefeito do palácio ou primeiro ministro, dignidade que lhe permitiu exercer uma autoridade absoluta sobre todo o território hispano-muçulmano.

Ruínas do Palácio Medinat al-Zahra

            Para marcar ainda mais a sua posição política e administrativa distanciando-se das funções do califa, o ministro determinou a mudança do governo para o complexo da cidade-palácio de Medinat al-Zahra, mandado inicialmente construir pelo califa Abderramán III, a partir de 936, e que se sustentava sobre mais de quatro mil colunas. Era um impressionante conglomerado de prédios projetados para acolher a administração e que se tornou inspiração para muitos outros soberanos europeus quando eles, séculos depois, decidiram-se viver a parte da sociedade em que reinavam.

            Sua primeira decisão foi expulsar do exercito califal a maior parte dos mercenários eslavos – os quais com o passar dos tempos, haviam chegado a constituir uma verdadeira casta de privilegiados na corte cordobesa – e substituiu-os por uns 20.000 berberes, recrutado por ele mesmo no norte da África, medida que lhe proporcionou uma enorme popularidade. Assim mesmo, empreendeu uma profunda reestruturação de suas tropas com o propósito de acabar com a organização tribal destas, o que era fonte de contínuos conflitos, dispersando em diferentes unidades os seus membros mais destacados de cada família. Naquela época havia cinco emirados na Al-Andaluz: Málaga, Algecires, Ceuta-Tânger, Badajoz-Lusitânia e Toledo.

            Em bem poucos anos, a sua administração foi considerada como a melhor de todos os estados europeus, e o califado de Córdoba projetou-se como uma das potências do continente, tendo como rivais a altura apenas o Papado romano.

            Dotado de uma personalidade carismática e de um grande talento militar, entre os anos de 977 e 1002 levou a cabo um total de 56 campanhas nas terras cristãs sem conhecer a derrota, razão pela qual recebeu o sobrenome de al-Mansur (o vitorioso), com o que passaria para a história. De fato, se tratava de incursões rápidas e devastadoras, realizadas durante os meses da primavera e verão, que tinham por objeto semear o terror entre os habitantes dos reinos cristãos do norte peninsular. Assim, por exemplo, assolou Salamanca (977), venceu os exércitos coligados de Ramiro III de León, Garcia Fernándes de Castilla e Sancho II de Navarra, nas batalhas de Gormaz, Langa e Estersuel (977) e na de Rueda (978), saqueou Barcelona (985), arrasou Coimbra, León e Zamora (987 e 988), assaltou Osma (990) e castigou Astorga (997).

Mapa das campanhas militares de Almanzor

            Cinco anos mais tarde, de regresso de uma expedição contra San Millán de la Cogolla, caiu enfermo devido às feridas sofridas na batalha de Calatañazor – Qalat em-Nossor – vindo a morrer aos 63 anos o mais provável em Medinacelli – Medinat al-Salim, em 10 ou 11 de agosto de 1002.

            Ao longo do seu dilatado mandato, Almanzor teve a habilidade política de respeitar o aparato califal e manter intactas algumas das prerrogativas de Hisam II, o que não só lhe proporcionou um grande prestígio em vida, como também favoreceu que, após a sua morte, o califa nomeasse “hayib” a Abd al-Malik, seu filho predileto, que também se mostraria como um administrador eficiente e um inteligente chefe militar.

            Na “Crônica Silense” a mesma nos informa:

            “Pero, al fin, la divina piedad se compadeció de tanta ruína y permitió alzar cabeza a los cristianos, pues pasados doce años Almanzor fue muerto em la gran ciudad de Medinaceli, y el demonio que había habitado dentro de él em vida se lo llevó a los infíernos”.

            No próximo artigo tomaremos conhecimento como a cidade de Compostela arrasada, conseguiu sair das cinzas como a ave “Fênix”.

            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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