Peregrino Walter Jorge

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Pequena História de Santiago - 10 - Local Sagrado (Lócus Sanctus)
Walter Jorge

            Conforme informamos anteriormente, o Império Romano continuava na sua decadência, os muçulmanos dominavam quase toda a área em volta do Mar Mediterrâneo, o “Maré Nostrum”, quando surgiu a descoberta do túmulo do Apóstolo Santiago. O rei Afonso II “o casto”, aproveitando-se da oportunidade deu continuidade à chama que se iniciava com tal advento, dando início à construção do local que um dia seria a cidade de Santiago de Compostela.

            Nesse artigo abordaremos o seu início.

            O rei Afonso II depois de ter efetuado a sua peregrinação à sepultura do Apóstolo, mandou construir uma modesta Igreja de pedra e barro para acolher o mausoléu. No local além do cemitério, foi construído um outro templo com função de batistério dedicado a San Juan, foi em sua origem um edifício independente da Igreja enquanto a residência episcopal ocupava o sudoeste do “Lócus”, Em direção oriental e limitando com a basílica – daí o seu nome de Antealtares – estava o solar monacal, isolado do resto do lugar por uma cerca. Este complexo era complementado com a Igreja de San Salvador. Todo o recinto era delimitado com uma pequena muralha, provavelmente construída na época de Afonso II.

O Início da cidade de Compostela no séc. IX, com a Igreja e o seu mausoléu, as Igrejas de S.Salvador e de S. Juan, Antealtares e o Palácio Episcopal

de S.Salvador e de S. Juan, Antealtares e o Palácio Episcopal.

            A construção desse local denominado de “Lócus Sanctus” ou “Lócus Apostolius” que se compunha de vários edifícios, tinha como missão atender ao culto do Apóstolo e foram construídas dentro de um terreno, a “Dote del rei Casto” com um raio imaginário de três milhas a partir do templo principal. Com o tempo, o solar apostólico foi crescendo graças às doações reais, até alcançar doze milhas no tempo do rei Ordoño II, nos finais do século IX.

            O culto ao Apóstolo se iniciaria depois da descoberta do seu túmulo, para exaltá-lo, com a aprovação real e o consentimento de muitos bispos, ter-se ia transladado a sede de Iria Flávia para Compostela; esta translação significou, sem duvida, um engrandecimento do culto jacobeu.

Cinqüenta anos depois o rei Afonso III, “o Grande” rei de Leão e das Astúrias (866-910), que combateu os mouros, vencendo-os em Zamora (901). Subjugou as terras de Leão e o norte de Portugal, mandou erguer um novo templo dedicado a Santiago, derrubando a primitiva igreja construída no reinado de Afonso II.

A nova construção era muito maior e mais suntuosa do que a capela de pedras construída no reinado de Afonso II. As obras tiveram início no ano de 872, concluindo-se em 899 com a presença do rei e de sua família. A nova igreja, que também incluía o mausoléu, precedida de um pórtico externo, constava de três naves: a central de 8 metros de altura e as laterais com 3 metros de altura, separadas por arcos situados sobre nove pilares de cada lado. O novo templo consagrado por 17 bispos, media 53 metros de comprimento por 21 de largura. A obra nada vulgar era uma arquitetura de visão unitária, de tradição romana. A faustosa ornamentação, dos pórticos, com mármores e colunas clássicas foram aproveitados de restos de edificações romanas.

             O primeiro bispo que pelo que se consta dedicou-se praticamente a sua vida ao culto jacobeu foi Sisnando I, mandou erguer muralhas ao redor da Igreja temendo um ataque viking, e que além de efetuar a reconstrução da velha basílica santiaguista, fundou um hospital para a atender aos inválidos e doentes, bem como viu a necessidade de contar com o apoio de todo o conjunto de mosteiros, cujos monges serviram no altar apostólico e  pessoas outras. Não podemos esquecer que este pontificado coincide quase que integralmente com o reinado de Afonso III de Leão.

A cidade de Santiago no séc. X iniciando a sua primeira configuração

            Paralelamente e conforme o reino asturiano se expandia frente ao Islam, os novos territórios conquistados se reorganizaram eclesiasticamente em benefício a Compostela, dotando a diocese de novas rendas. Pouco a pouco, o pequeno lugarejo foi se transformando. No ano de 872, o bispo Sisnando I como já informado acima, reedifica, dotando-lhe de maiores dimensões a Igreja de Santiago, empregando em sua construção mármores procedente de Al Andalus. Também renova a Igreja de San Juan Bautista, a de Antealtares e a de San Felix de Solovio, construindo, por sua vez a Igreja de la Corticela. A nova Igreja de Santiago passou a ser uma basílica de três naves, sem cruzeiro, com sua cabeceira dividida em três absides dos quais o central retangular, rodeava a edícula do Apóstolo.

            As terras doadas pela Coroa, as relíquias do Apóstolo e sob a proteção das muralhas construídas por Sisnando I, atraíram muitos camponeses e, em menos de trinta anos, aquele pequeno lugarejo conhecido como Santiago de Compostela já era uma grande comunidade.

            Por volta de 934, os bispos compostelanos obtiveram o Voto de Santiago (do qual falaremos oportunamente) um tributo das dioceses do noroeste hispânico. Compostela se convertera, assim em uma vila com um domínio em expansão, dotada de um marco jurídico próprio, no qual se estabelece habitantes não vinculados a Igreja. Se funda o monastério Corticela-Pinário e a Igreja de San Martín, donde se instala o primeiro hospital de peregrinos, assim como o foro do mercado, a Igreja de San Benito do Campo, no Vilar, a Igreja de San Miguel de Cisterna e o “Vicus Francorum” o bairro dos francos. A vila começa a receber peregrinos ultra-pirenaicos e desenvolver-se até converter-se em uma prospera vila com as suas diversas atividades econômicas e as suas diferenças sociais.

            Devemos ter em consideração que nem em Compostela nem em outras dioceses, o culto de Santiago chegou a ter um caráter litúrgico oficial, com efeito, enquanto esteve vigente a velha liturgia visigótica abolida por volta de 1075, em Compostela, esta careceu sempre de ofício litúrgico próprio, ao contrário de outros apóstolos de mártires. Isto revela que o culto era de caráter local e de ofício comum para todos os apóstolos.

            Quem não estava satisfeito eram os muçulmanos que olhavam para aquela região que não chegaram a conquistar com uma certa cautela, ainda mais com aquele início das peregrinações ao Apóstolo Santiago e o carisma do rei Afonso II “o casto”, que jamais enquanto vivo, desistiu de expulsá-los.

            No próximo artigo abordaremos como o Apóstolo Santiago transformou-se em uma personalidade carismática pegando de uma espada para expulsar os muçulmanos.

            Aguardem.
 

Enviado por Walter Jorge
 
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