Peregrino Walter Jorge

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Comentários Peregrinos - Síndrome do Caminho
Anacleto (o nordestino)

            Nunca fui para o Caminho efetuar a peregrinação ao túmulo de Santiago em Compostela, WJ jamais me permitiu, não sei as razões que o leva a boicotar essa minha viagem às plagas do norte da Espanha, o único local que ele financia para as minhas viagens é para o Tibet, diz ele que periodicamente eu necessito efetuar uma limpeza (lavagem) cerebral devido às sujeiras existentes no mundo atual, de fato, sob esse prisma ele está coberto de razões, mas mandar-me ficar com aqueles carecas rezando o dia todo, é dose de leão.

            Um dia desses em uma das celebres reuniões que mensalmente ele faz, tive a oportunidade de assistir escondido atrás de um biombo, pois apesar de o mesmo (WJ) convidar todo mundo, proíbe que eu da mesma participe, nem com ouvinte, isso eu chamo de discriminação “falavinte”, gostaram? Significa não poder falar e nem ouvir, vem do aramaico: “fala” vem de falar, e “vinte” de ouvinte, a minha cultura é bárbara, aprendi com os monges.

Peregrino a procura do desconhecido

            Mas vamos ao que nos interessa. Escondido atrás do biombo, escutei as conversas de dois peregrinos que tinham chegado recentemente do caminho e estavam com toda corda (termo nordestino que significa ter dado corda ao relógio, perdão terei de explicar com mais detalhes essa operação, pois os atuais relógios só trabalham a base de “pilhas”, os antigos eram a base de “corda”, já estou enrolado (na corda?), não é corda de amarrar nem corda de puxar, é “corda” de relógio, aquela em que a gente fica torcendo na cabeça do relógio até endurecer, não passe daí, pois então você irá quebrá-la e gastar uma grana para consertar), voltando ao nosso papo, os dois caras estavam conversando e eu consegui escutar a conversa dos mesmos sobre a qual passarei a relatar, como não sei os seus nomes chamaremos de A e B, bonita equação.

            De A para B – De onde você saiu?
            Responde B – De SJPP.
            A – Eu de Rons.
            B – A subida foi braba, peguei nevoeiro e um frio de lascar, por sorte não estava nevando.
            A – Loucura, eu não falo francês por isso saí de Rons.
            B – Você fala castelhano?
            A – Não, só falo espanhol.
            B – Ahn..., gostou da peregrinação?
            A – Bárbara, vi cada rio maravilhoso, arvores fantásticas, igrejas monumentais, ruínas de pedras, pontes velhas, um monte de peregrinos falando um monte de línguas, e as aparições, nem te falo.
            B – Eu ainda estou em transe, minha cabeça está a mil, rolou mil pensamentos, tive encontros no nirvana, viajei pela rota estelar, tive contatos com entes queridos que já se foram, foi maravilhoso.
            A – Psiu..., fale mais baixo, a coisa é um barato, meu corpo em determinados momentos foi carregado como se estivesse levitando, a conversa com o além é de tirar o fôlego, tive sonhos mil, em determinado local tive de brigar – no sentido lato - com um outro peregrino pois ele não estava respeitando a seqüência quântica e lógica do entardecer.
            B – São indivíduos sem concepção dualística, não acreditam na reencarnação da alma, na pujança do espírito, nas leis sábias do ego, nunca leram Jung.
            A – Você já leu Jung?
            B – Não, mais ele é o máximo, senti durante boa parte da minha caminhada a sua presença constante ao meu lado, era como se fosse meu conselheiro, meu guia, meu mentor, meu guru e por falar nisso, você tem guru?

Peregrino reproduzindo a arte milenar

            A – Não, antes de iniciar o caminho fui informado que não deveremos ter ninguém ao nosso lado seguindo exatamente as nossas passadas, devemos seguir os nossos pensamentos, os nossos impulsos, aprender a ler as entrelinhas da nossa mente e tentar purificar nossas almas, o caminho nos permite efetuar a transição do hoje para o amanhã, do ontem para o hoje, da nossa vida terrena para a nossa vida etérea, teve noite que eu estava “clean” e tive de optar por um barato.
            B – Ahn..., eu também tive problemas homéricos de transição entre o puro e o impuro, os debates eram terríveis, as leis da natureza se confrontavam em um duelo titânico, eu tinha de ser o mediador, tinha de encontrar dentro do meu ser, forças alternativas para enfrentar o embate, somente conseguia resolver o confronto com o aparecimento das bolhas, aí sim, senti estar sendo punido pelas indiossincrasias presentes, meu corpo voltou a estabelecer o seu sincronismo através da dor violenta das bolhas, quanto maior o seu número, mais felicidades encontrava, mais força aparecia para seguir o meu caminho, era pura adrenalina.
            A – Bárbaro, senti varias vezes esse problema, o meu não foi tão cheio de luzes como o seu, pois as bolhas são como as estrelas da Via-Láctea, o meu foi parte integrante do meu ser, digo da minha perna, peguei uma baita “tendinite” e isso me salvou do pecado original, recebi a benção dos meus criadores “Adão e Eva” e isso impulsionou o meu corpo em direção a Santiago, ao capengar sentia estar pagando os meus pecados e quanto mais a mochila pesava sobre os meus ombros, mais sentia a satisfação do dever comprido, estava em êxtase.
            B – Você praticou os exercícios?
            A – Não, acredito foi por isso que peguei aquela baita tendinite, mas não me arrependo, tinha de pagar o meu preço, nada é de graça, nem a morte.
            B – Ahn... eu fiz todos os exercícios que ele recomendou, da “Semente” à “Dança” passando pelo “Globo Azul”, o máximo foi a “Crueldade”.
            A – O que é isso?
            B – Esquece, estava transvariando.
            A – Ahn... Ahn...
            B – Que Alá esteja convosco meu irmão.
            A – Que assim o seja.

            Terminada a reunião quando todos já tinham se retirado, saí de fininho do meu esconderijo e maneirosamente perguntei a WJ quem eram A e B, e ele com aquela tranqüilidade de sempre me respondeu:

            - São dois legítimos representantes da “Síndrome do Caminho de Santiago”.

            Prefiro ir para o meu Tibet, pensei, mais não falei.

            FUI........................
 

Enviado por Walter Jorge
 
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