Peregrino Walter Jorge

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Comentários Peregrinos - O Romeiro
Walter Jorge

Não posso deixar de pensar – “O que move o homem
em direção ao desconhecido?”

Estava a pensar sobre um determinado peregrino, ele não é simplesmente um Peregrino na concepção da palavra, ele também é um Romeiro, nesse ponto minha mente começa a derrapar, não tive a menor duvida, vamos consultar mais uma vez o dicionário o nosso “pai dos burros”.

Anacleto ao ver-me debruçado sobre aquele grande e grosso livro, sorriu e não deixou por menos:
- WJ, o que é isso! Está perdendo a memória?

Não respondi, encontrava-me absorto a consultar o dicionário “Novo Aurélio, século XXI”, quando minhas vistas bateram no significado da palavra Romeiro e lá estava escrito: “Do gr. Rhomaîos, aplicado no Império do Oriente aos peregrinos que iam a Terra Santa e depois, atr. do b.-lat. romaeu, aos que iam a Roma. S.m.1. Homem que toma parte em romaria (1); peregrino. 2. Fig. Defensor de grandes idéias. 3. Bras. V. piloto (8).”

Fiquei a matutar o verdadeiro significado daquela palavra, onde estaria enquadrada a peregrinação do nosso amigo Fillardi a Roma? Seria ele um romeiro na acepção da palavra somente porque estava se dirigindo a cidade de Roma? Achava pouco, queria mais, queria uma palavra que expressasse a verdadeira peregrinação do Fil, não conseguia encontrar. O Aurélio também informava em sentido figurado: “Defensor de grandes idéias”, já sentia que algo estava se aproximando do sentimento que tinha por aquele careca que desafiando o desconhecido, se aventurava por terras estranhas à procura do que? Novamente meu pensamento vagava, não encontrava respostas precisas, quem seria o Fil? Seria o Fil um masoquista? O que ele queria provar? Seria o Fil um desportista acostumado a desafiar a natureza e gostar de sentir o correr da adrenalina no sangue? Não saberia dizer, apenas conjeturava: “Defensor de grandes idéias”, quais? Não saberia informar.

Paris, início de sua romaria
Tinha conhecimento de que o mesmo já havia realizado há poucos meses, uma peregrinação a Santiago de Compostela no norte da Espanha e agora estava efetuando, não uma “Peregrinação”, mais uma “Romaria”, partindo da França tomando rumo à cidade Santa de Roma, na Itália, lá no sul da Europa em pleno Mar Mediterrâneo.

O que movia aquele homem a sair do seu aconchego familiar para se aventurar pela segunda vez a palmilhar léguas e léguas a pé, em locais desconhecido para percorrer mais de 1000 quilômetros? O que ele buscava?

O Anacleto me perturbava, colocava palavras nos meus ouvidos, dizia que ele era um louco varrido e a família não sabia, não tinha argumentos para refutar, não o conhecia pessoalmente, nunca tive o prazer de bater um longo papo tete a tete, o que sabia era o que lia nas mensagens trocadas pela Internet, chamei o Anacleto e rebati:

- Você lembra-se daquela vez que o Fil estava arrecadando cobertores para dar aos pobres desamparados que estavam a dormir nas ruas de São Paulo sob as marquises dos prédios, com uma temperatura de enregelar?
- Você lembra-se daquele dialogo que ele teve com aquele garoto que cheirava cola? Ele convidou-o a morar no seu lar ao lado dos seus filhos...

E o Anacleto rebatia sem dar-me tempo a concluir a frase.

- Viu! Um louco, levar um viciado cheirador de cola para casa, o mesmo acabaria viciando os seus filhos.

Continuava pensando: quem é o FIL? Meu pensamento mais uma vez vagava, procurava absorver a personalidade do Fil, não encontrava uma expressão digna de classificar, como se um ser humano pudesse ser classificado como mercadoria, isso somente diz respeito aos nossos governantes.

Leio as suas mensagens, a sua partida, sua passagem por Paris, procuro viver o seu interior, sentir suas alegrias por estar iniciando à sua Romaria, por estar perambulando pelas ruas da cidade luz, mais ao mesmo tempo sentindo os seus temores e porque não o medo, qual o ser humano que nunca teve medo em sua vida, necessitamos termos sempre uma parcela de medo para podermos lutar contra o mesmo e sentir o sabor da vitória.

Sinto o ferver do seu sangue com as negativas de acolhimento pelas pessoas que ele julgava por obrigação protegê-lo, mais era necessário aflorar aquele grau de humildade e reconhecer que o mundo é feito de seres humanos e por isso com seus defeitos e virtudes, quem sabe se um daqueles que lhe negou uma acolhida não foi alguém que teve o seu coração endurecido por determinadas circunstâncias de sua vida, devemos ter o máximo cuidado de não estarmos sempre a julgar os nossos semelhantes, pois também temos de pensar que podemos estar sendo julgados e quem somos nós para julgarmos os nossos semelhantes? Continuo lendo suas narrativas e acompanho-o, vejo a sua alegria quando recebe uma boa acolhida e já com o corpo e o espírito no ritmo cristão de sua Romaria, agradecer e se desculpar quando de uma negativa por alguém que puramente cumpre uma ordem.

Procuro mais uma vez nas minhas lembranças e recordações, algo que pudesse dar mais um raio de luz sobre a personalidade do Fil, vasculhando nos escaninhos de minha memória lembro de um dia em que ele, de repente, achou de efetuar uma peregrinação a Nossa Aparecida do Norte, padroeira do Brasil. O trecho entre São Paulo e Aparecida do Norte é pequeno, mas o importante é como o mesmo realizou, sem nenhum conhecimento da rota, pois não foi pela estrada e sem verificar se haveria uma infra-estrutura adequada que poderia dar-lhe um apoio. Para aqueles que efetuaram a peregrinação a Santiago de Compostela, sabem que a rota apesar de ser quase de 800 km, possui uma boa infra-estrutura de apoio e mesmo assim o peregrino deverá contar com um mínimo de dinheiro necessário para a sua subsistência.

No entanto o Fil saiu do Brasil com apenas US$200.00 (duzentos dólares) e mais alguns trocados para enfrentar uma Romaria de mais de 1000 km, acabo acreditando no que diz o Anacleto: “o homem é um louco varrido e a família não sabe”.

Continuo a leitura de sua narrativa através de e-mails enviados de alguns locais onde se permitiu gastar algumas moedas ou uma alma cristã permitiu-lhe o uso do computador. Chegamos no momento da travessia de um dos pontos mais alto da sua Romaria, o Gran San Bernardo, estamos a 2.600 metros de altitude, penei junto a ele sua dura subida, senti o frio reinante penetrar sob seu abrigo e a espessa neblina toldando a sua visão, mais uma conquista do nosso Fil, olho o mapa e vejo que muito chão estar para vir.

Vaticano em Roma, ponto final de sua romaria

Começa a longa descida, a não existência daquelas setas amarelas orientadoras, torna a jornada mais difícil, erra o caminho e em dado momento vê-se acuado em um trecho perigoso da encosta, a trilha tinha desaparecido com o seu desmoronamento, a temperatura era de 9 graus, estava chovendo e o terreno encharcado estava cedendo, ouvia-se o desmoronar das pedras e o reboar das mesmas no fundo do vale a mais de 700 metros abaixo, sinto um frio percorrer todo o meu corpo, continuo sofregamente a ler:

“Quando parti para o Caminho de Roma uma amiga me disse: Você sempre pode voltar atrás e desistir, não seja teimoso! Aquele era meu momento de voltar atrás! Enquanto assim penso me descuido e apoio fortemente meu cajado a dois metros à frente e as pedras mal apoiadas começam a deslizar. Pressinto que pode ocorrer um deslizamento geral quando observo o movimento das pedras. Tento retornar, mas a estreita passagem me impede de virar o corpo. As pedras sob meu pé esquerdo começam a se mover e onde estou mal cabe me pé. Imagino a queda e tento olhar para baixo e ver onde posso me agarrar caso caia”.

“Abaixo não há nada por mais de cem metros, é uma encosta íngreme de montanha. Não é um paredão vertical é antes um longo e acentuadíssimo declive. Movimento meu pé direito para o lado e penso em segurar uma rocha de um metro de diâmetro, não o faço, pois se esta rocha estiver solta iremos junto para baixo. As pedras sob meu pé esquerdo começam a se movimentar e tenho de voltar para trás, para a minha direita. A capa e o chapéu amarrados impedem a minha visão e tenho de retornar tateando, pois não consigo olhar para onde tenho de ir”.

“Meu pé direito mal apoiado escorrega e pelo reflexo me jogo totalmente contra as pedras”.
“ Estou escorregando”.
“ Vou cair”.

Paro a leitura, reflito e penso:

O que será que aconteceu com o mesmo?
 

Enviado por Water Jorge
 
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