Peregrino Walter Jorge

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Comentários Peregrinos - Rádio Caminho
Walter Jorge
Em um dos meus passeios diário pela Internet, adentrei àquela gostosa página de notícias do caminho intitulada de “Rádio Caminho” e lá li a criação por Jesus Jato do albergue “Ave Fênix”, de um slogan para os peregrinos brasileiros “BRASIL VERDE”, senha essa que ao ser pronunciada, o peregrino brasileiro apenas pagará 4 euros pela sua hospedagem.

Na minha peregrinação tive o prazer de conhecê-lo de uma maneira inusitada, pois, ao chegar em Villafranca del Bierzo, ao perguntar onde ficava o albergue de Jesus Jato, recebi a seguinte informação dita de uma maneira sarcástica;

O albergue do “el louco” fica nessa calle!”.

Não entendi bem o porque daquela exclamação, posteriormente tomei conhecimento dos diversos acontecimentos porque passou o seu albergue, inclusive a sua destruição pelas chamas. O nosso querido Máqui relata muito bem o seu encontro com o mesmo no seu livro, vejamos:

“Uma menina linda, de uns doze anos, trouxe dois copos d´água e, enquanto conversávamos, a senhora foi chamar o marido.
- Olá, peregrinos! – o homem surgiu sorridente de uma entrada lateral da tenda e vinha com as mãos cheias de ferramentas. Estava sujo, rasgado, descabelado e ao me abraçar perguntou se eu poderia ficar ali o dia seguinte para ajudá-lo.
- Acho... que sim.
- Ótimo! Fico muito agradecido. Amanhã vamos colocar água no refúgio. Eu sou Jesus Jato.
Outras duas mocinhas chegaram, cumprimentaram-nos e ajudaram a preparar a mesa. Comemos todos juntos, como uma só família.
Durante a refeição, as coisas ficaram mais claras. Jesus, a esposa e quatro filhas cuidavam do refúgio e do bar que tinha ali, até que um incêndio consumiu tudo. Não havia se passado três meses desde o acidente e eles ainda estavam abalados. Ninguém saiu ferido, mas perderam tudo. O pouco que conseguiram salvar estava ali e lhe digo que era pouco mais que nada. Em algumas horas, mais de vinte anos de trabalho tinha virado fumaça.
Depois do almoço, Jesus, muito emocionado, leu algumas poesias que escreveu sobre a catástrofe. Era um texto forte, carregado de dor, e terminamos o almoço em lágrimas silenciosas. O homem e a família estavam lutando como podiam. Desentortavam pregos, recolhiam restos, consertavam o irremediavelmente quebrado, ressuscitavam as partes incineradas da sua história e faziam tudo isso juntos, como um só corpo, como um só ser. Naquela mesa, aprendi muito sobre a família.”

Nesse momento lembrei-me do mesmo quando passou pela primeira vez pelo Brasil, senti a sua alegria ao visitar o nosso país, tive a oportunidade de ciceroneá-los pelos diversos estados brasileiros na companhia de sua esposa Maria Carmen e de alguns peregrinos e presenciei a sua simplicidade.

Jesus Jato e sua esposa, tendo no centro o autor WJ, nas pedras do Arpoador no RJ

Ao passarmos por uma barraca de livros usados em uma feira no Rio de Janeiro, aquele homem rude e simples demonstrou ser um amante da leitura, pois, parou e a despeito de termos um tempo reduzido, levou mais de uma hora vasculhando o conteúdo da mesma e no final adquiriu dois livros, era esse o homem que alguns seus patrícios o chamaram de “el louco”.

Nesse momento ao ler aquela notícia no “Radio Caminho” quedo-me pensativo sobre “quem é o verdadeiro ser humano”.

Na minha simplicidade de pensar, gostaria que todos nos tivéssemos um pouco dessa loucura.

Enviado por Water Jorge
 
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