Preparação do Peregrino a pé

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15 – BOLHAS. COMO EVITAR. FORMAS DE TRATAMENTO 
Walter Jorge
BOLHAS, praticamente podemos dizer que as mesmas fazem parte do dia a dia do peregrino, mesmo tomando todos os cuidados necessários e utilizando o equipamento adequado (calçados, mochilas e meias), não estamos livres de ter bolhas e muitas vezes bem doloridas.

Como medidas preventivas devemos levar em conta o perfeito ajuste das meias, a utilização do calçado adequado e a higiene dos pés, que devem ser lavados imediatamente ao final de cada etapa.

Uma dica para evitar as bolhas é passar vaselina, "vick vaporub" e/ou talco (peregrinos me informaram terem usado talco anti-séptico Granado com sucesso) entre os dedos. O produto diminui o atrito da meia contra a pele e entre os dedos, revelando-se um fantástico e escorregadio preventivo contra as bolhas, mais evite o excesso. Muitos peregrinos seguiram viagem aliviados após descobrirem este macete

As bolhas se formam porque o suor amolece a pele e a deixa mais sensível ao atrito. Um dos motivos que propicia sua aparição é o desajuste das meias, causando uma fricção irregular com a pele. Mesmo um desajuste mínimo vai tomando maiores proporções com o caminhar contínuo e a bolha torna-se inevitável.

Costuras ou protuberâncias internas do calçado podem igualmente causar bolhas. Neste caso, ocorrerá outra vez um atrito irregular entre a pele e a meia e novamente irá se formar na região afetada aquela reação parecida com a de uma queimadura, surgindo a pequena bolsa cheia de líquido. A bolha entra em cena. É também por este motivo que insistimos na utilização de um calçado adequado, projetado especialmente para longas caminhadas, confeccionados com a membrana de "Goro-tex", a qual permite a respiração dos pés e impedem a entrada de água . No capítulo "11 - O calçado - Botas ou Tênis", efetuamos alguma considerações sobre qual o tipo de calçado a ser utilizado em sua peregrinação.

Outro problema relacionado com as bolhas é a alteração da postura natural. Isso ocorre porque o peregrino, fugindo da dor, passa a caminhar de uma maneira errada, a dor começa a aumentar, você se apoia mais na outra perna, muda o centro de gravidade para compensar e se esquece de que está levando uma carga pesada nas costas. Os músculos da perna sobrecarregada se cansam, você se cansa, a dor atrapalha a sua concentração e basta um terreno acidentado ou escorregadio para que tudo isso lhe jogue no chão. Tal situação pode ocasionar tendinites e distensões musculares, problemas realmente sérios. O melhor a fazer é não alterar a postura e encarar o problema: você vai andar corretamente, a bolha vai doer e não é por isso que você vai abandonar seu sonho. Dificuldades fazem parte de seu Caminho. Muitos peregrinos antes de você tiveram problemas e os superaram.

Enquanto estiver caminhando, logo que sentir uma região do pé dolorida ou sensível, PARE, PARE MESMO, NEM MAIS UM PASSO, E VERIFIQUE A CAUSA. Corrija o problema da meia ou da bota e cubra a região com esparadrapo especial para estes casos ou mesmo Band-Aid. Não deixe a situação piorar por um simples descuido seu. Nas farmácias européias, principalmente naquelas ao longo do Caminho, existem produtos especiais que aceleram a formação de um novo tecido na epiderme.

Para as mulheres recomendamos não pintar as unhas do pé, caso o faça, usem um esmalte de cor clara, tal medida permite visualizar a aparição de alguma edema sob as unhas. Aconselhamos também manter um corte da unha adequado com a finalidade de evitar unhas encravadas. No capitulo "16 - Os Pés, cuidados necessários" abordaremos os cuidados que deveremos ter com os mesmos antes e durante a Caminhada.

Caso você não consiga evitar e seja contemplado com uma terrível bolha ou mais, não desanime, pois estará na mesma situação da grande maioria dos peregrinos. Este é o momento de tomar certas providências para que ela não comece a aumentar e incomodar ainda mais, tornando sua peregrinação uma experiência extremamente dolorosa. Vejamos:

Em primeiro lugar, o melhor a fazer é por um fim ao motivo que tenha causado a bolha para evitar a aparição de outras, talvez maiores e mais doloridas. Talvez você tenha andado depressa demais, ou esteja usando calçado e/ou meias inadequadas. Agora não adianta reclamar. Jamais corte a bolha assim que ela aparece. Muitos usam o canivete ou a tesoura e simplesmente furam, cortam e eliminam a pele branca que continha o líquido. Acontece que a pele que estava por baixo daquela proteção não está pronta para ser exposta, pois a epiderme não se formou ainda, e isso pode ficar complicado, uma vez que é exatamente essa região que vai continuar sofrendo o atrito das fibras da meia.

Pegue a água oxigenada e limpe o local usando algodão, depois, desinfete uma agulha e faça um ou dois pequenos furos na bolha para que o líquido do seu interior saia até que ela fique completamente vazia. Furar a bolha significa atravessar com a agulha somente a pele. Nunca, mas nunca mesmo, corte ou arranque a pele que serve como proteção para a zona lesionada, conforme acima foi dito.

Coloque sobre a bolha, já sem líquido, um composto que poderá ser encontrado nas farmácias locais denominado Compeed. Trata-se de um protetor bastante eficiente conhecido pelos peregrinos como "pele artificial", que ira aliviar a dor e acelerar o processo de cicatrização da bolha.

Ao final de cada dia, após lavar bem os pés, verifique a situação do curativo e, se necessário, volte a furar a bolha se esta houver se formado novamente. Pela manhã, antes de partir, verifique sempre a situação de seus pés. Cubra com esparadrapo especial as regiões que estiverem mais sensíveis e avermelhadas, com a pele fina e frágil, pois estarão propícias ao aparecimento de novas bolhas.

Outra maneira de tratar de uma bolha é a técnica da "costura". Trata-se de pegar agulha e linha de coser, de preferência de algodão, enfiar a linha na agulha como se fosse costurar e mergulhar tudo na água oxigenada, iodo, álcool iodado (álcool de rameiro) ou outro produto a sua escolha para desinfetar. Utilizar material limpo é fundamental para evitar infeções. Então, atravesse a bolha com a agulha e prossiga até a linha ficar traspassada no interior da bolha. Corte a linha deixando um centímetro de cada lado para fora da bolha. Pressione delicadamente a região lesionada até sair toda a água da bolsa e deixe a linha lá mesmo. Ela servirá como dreno esvaziando gradativamente a bolsa evitando que a bolha se encha novamente de água, voltando a crescer e incomodar e dá à nova pele tempo suficiente para ela se tornar resistente o que pode levar de 4 a 5 dias, dependendo do caso. Passe algum tipo de pomada cicatrizante e procure deixar o local coberto com um Band-Aid ou dois - dependendo do tamanho do Band-Aid e da bolha. Troque o curativo todas as manhãs antes de começar a caminhar, mas nunca tire a linha.

Nunca utilize esta técnica para bolhas que surjam na planta do pé pois, ao caminhar, você irá pisar diretamente na linha, causando atrito constante na região lesionada. Evite sofrimentos desnecessários e até mesmo uma possível inflamação.

Mesmo com todos esses cuidados e com o curativo, você vai andar e vai doer. No primeiro dia vai sentir mais dor justamente quando parar de andar. No segundo dia, vai sentir o pé inchado e vai doer mais ainda. A dor é a maneira como o organismo reage a elementos estranhos. A epiderme que existia ali esta ocupada contendo líquido. Sem a epiderme, a região ficou sem proteção e as terminações nervosas estão mais expostas e excitadas. Você insiste em caminhar e o organismo mantém o protesto. Lá pelo terceiro ou quarto dia aquela pele externa da bolsa começa a secar. A bolha se esvazia e resta apenas uma pele amarelada e grossa com a linha. Agora a dor já passou, você venceu mais uma etapa. Puxe a linha inteira para fora e respire aliviado.

Esta bolha que acaba de ser curada provocou uma outra, pois fugindo da dor, você começou a colocar mais peso no outro pé e apareceu uma zona sensível e dolorosa, são a marca registrada de quem anda.

Se a situação ficar feia, pare e descanse um ou dois dias. Se sentir sintomas de febre ou inflamação, procure um médico. É para isso que ele existem. Se não for nada sério, aproveite a parada para trocar o curativo mais vezes e, se possível, tomar sol nos pés. Lembre-se daquele ditado que diz que o "peregrino anda quando pode, não quando quer".

Relaxe, aproveite o descanso para recobrar as energias e para colocar o diário em ordem. Não há pressa.

Bolhas sempre foram um dos assuntos mais triviais no Caminho. Não é difícil você encontrar um peregrino com a concha no pescoço, mochila e bastão cheio de histórias para contar e antes mesmo dele perguntar seu nome, ou de onde vem, querer saber quantas bolhas você tem - blister em inglês e ampolhas em espanhol - e o que tem feito para que elas deixam de incomodar e não apareçam mais. As receitas são inúmeras, partindo dessas que descrevemos até chegar em banhos de ervas e outras soluções recomendadas por antigos peregrinos ou suas avós. Tome cuidado com os absurdos mas não dispense um bom conselho.

ATENÇÃO ... PERIGO !!!

Bolhas vermelhas com sangue... Médico, perigo de infeção.

Bolhas com pus, não são normais... Médico, perigo de infeção.

 
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