Rotas Brasileiras

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Sete povos das Missões Jesuíticas
Solange Amador
No dia 13 de janeiro de 2002 percorremos em silêncio o portal de
entrada da cidade de Santo Ângelo, rumo à catedral, sentindo a
energia dos índios guaranis que nesta mesma "via crucis" outrora
deixaram as suas pegadas. As passadas empoeiradas sacudiam no chão os
vestígios de cansaço e deleite, saboreados em lágrimas que
teimosamente engoli ao embalo dos sinos de boas-vindas aos
missioneiros.

Ao longe, divisando a abóbada da catedral também pude distinguir
pequena comitiva de recepção, afixada em suas escadarias. Estariam
seus corações batendo mais rápido do que o meu? E o padre, que
inquieto para dar sua mensagem, urgia via celular a presença dos
peregrinos, os primeiros de fora do Estado do Rio Grande do Sul, os
primeiros em número tão reduzido, os primeiros a se aventurar sob um
sol escaldante do verão de janeiro, de terra vermelha, de chão
batido, de chuva de poeira?

Será que "o campo das estrelas" está para Compostela assim como
o "campo da poeira" está para as Missões? Não...há outras paisagens e
sol mais ameno de outras épocas e climas...

A euforia era tamanha que nem me lembrei de perguntar sobre o que
estariam pensando os repórteres da rádio Sepé Tiaraju, que
entrevistaram os peregrinos de Brasília, também peregrinos do Caminho
de Santiago, ou mesmo o que estariam pensando os agricultores que vez
por outra nos abordavam no meio rural por onde passamos, querendo
saber mais de nossa entrevista na rádio...E as autoridades de São
Luiz Gonzaga, que jantaram conosco antes da partida, e tiraram fotos
para o jornal Notícias, que em breve guardaremos junto com outras
recordações...? O que estaria pensando a jornalista que entrevistou
na RBS, afiliada da Globo, a peregrina de São Paulo?

O sorriso da professorinha Marta, esposa de Valdir - o agricultor que
tem sua própria terra, conquistada com o suor de seu labor - não me
escapará da lembrança, e muito menos o brilho do seu olhar ao dizer
que tirou em primeiro lugar no vestibular de Pedagogia. E o peregrino
Demétrio, professor de oratória, nos ensinando a falar em público
enquanto sesteávamos (do verbo sestear, ou seja, tirar uma sesta),
embaixo das árvores, comendo trigo com leite e doce de laranja azeda?
Hummmm.....quantas iguarias que me fizeram engordar 1kg!!!!Que
saudade do pão caseiro de miolo branquinho, branquinho....ai,ai,ai...

Para quem gosta de churrasco não faltaram a costela nem a carne de
ovelha. Eu, que já gosto mais de verduras, não vou me esquecer do
melhor repolho que já comi na vida, feito pelos descendentes de
italianos, acompanhado da ensopada galinha crioula, ou mesmo da
batata e da cenoura do pessoal de São João Batista, com aquele pudim
maravilhoso, ou mesmo do peixe frito do Parque das Fontes (lá tem um
cabo de aço do qual despenquei de cima de uma plataforma para cair
com roupa e tudo na deliciosa piscina de água natural). Ah, e aquele
arroz soltinho de S.Luiz Gonzaga? Nem de longe lembra o meu arroz do
tipo "unidos venceremos" ...

Ah, sim, como me emocionei com o cantor regionalista, residente em
São Paulo, cantando o fandango! Aquela música que ele compôs, ao
passar pela Rua da Consolação altas horas da noite, trouxe na poesia
e no lacrimejar de seus olhos a dor do mendigo que catava comida no
lixo, ao passo que a picardia das músicas do peidinho e da mulher
gorda me fizeram gargalhar. Barbaridade, tchê!

Silêncio...eis que o vento sibila forte na entrada de São Lourenço.
Sinto a energia do povo guarani, dos padres jesuítas, dando-nos as
boas vindas. Tento entender o recado dos silfos, tento escutar a
mensagem dos índios. De dia, gritos de esplendor. De noite, uivos de
desespero. Na manhã seguinte, nem vento, nem euforia, nem desespero.
Apenas a mudez da partida. Deixo para trás o primeiro sítio
arqueológico, deixo para trás a minha presença nas ruínas da igreja,
construída com as pedras da pedreira, cuja energia fortíssima
percorreu as minhas veias deixando bolinhas em todo o corpo. Talvez o
gado que nos cercou, com seus olhos indagadores e vigilantes, tenha
nos deixado um recado de que se trata de um lugar sagrado, e ao me
reabastecer dessa energia na caminhada de 34 km partindo de São
Miguel das Missões, levo comigo uma pedra curadora para o meu amigo
Demétrio, impossibilitado temporariamente de andar pelas inúmeras
bolhas de sua primeira caminhada de longa distância.

No último dia de caminhada, deixou-me Demétrio um testemunho de sua
fé: comunicou-se com tanta força com o espírito do cacique guerreiro
da pedra (que colocou embaixo de cada pé), que ao invocar com sua voz
de orador a cura para suas dores físicas, sentiu-se imediatamente
anestesiado, o que lhe permitiu terminar a sua caminhada e chegar
conosco a Santo Ângelo. Não chegou "fumadão" ou "doidão", como disse-
me sentir-se quando eu lhe aplicava um johrei energizante, mas chegou
anestesiado, mesmo passando pelos cascalhos de pedras que furavam os
seus pés e, no meu caso, as botas já furadas, que deixei para serem
doadas a um índio da região.

Colonos, agricultores, povo da cidade: a simplicidade e o coração
aberto com o qual nos recebestes foi para mim uma bênção, uma lição
de vida, ao saber que não importa de onde sejamos ou o que façamos,
vocês nos trataram como irmãos e amigos. Não vou me esquecer das
nossas prosas, da cadeira que me foi gentilmente oferecida, do
colchão que me foi emprestado para que pudesse tirar uma soneca sob
as árvores enquanto esperávamos o sol esfriar, dos passos corridos
para buscar água fresca para minha caminhada, dos abraços calorosos e
desinteressados, da cuia de chimarrão sorridente me dando as boas
vindas, ou mesmo da caipirinha...Talvez um dia eu possa me tornar tão
humana quanto vocês...e quando estiver carrancuda, irei lembrar-me de
seus sorrisos, a desanuviar-me os pensamentos cotidianos e sombrios...

Agora vou deixar um espaço para o meu amigo Alexandre, peregrino de
Brasília e membro desta lista, para que ele também possa dar o seu
testemunho. Aos guias Romaldo, Gladys e Marta, o meu muito obrigada
por sua simpatia e acompanhamento, da recepção ao embarque. Ao
Cláudio, o meu agradecimento por todo o apoio na divulgação das
informações, e ao pessoal da agência de publicidade, por sua calorosa
acolhida.

Enviado por Solange Amador
 
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