Rotas Brasileiras

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Caminho das Missões - Relato
Mário Scherer
Escrevo para agradecer a acolhida tão gentil de todos vocês. Foram
dias agradáveis em que o cavalheirismo do Claudio, portando-se como
um autêntico guia, e a simpatia do grupo, deixara, em mim, marcas
indeléveis.

De tudo o que vi e vivi neste dias, o que mais apreciei foi o
entusiasmo que palpitava em cada um do grupo criador do projeto.
Exerceram as suas atividades com amor, parecendo perceber que
estavam erguendo um monumento, algo perene, que muitos sonham, mas
que poucos realizam e com tanta garra.

Continuem sonhando! Ao contrário do que dizem sonhar custa muito
caro. Mas mesmo assim, é necessário sonhar.

Aprendi com a Gládis a respeitar o sonho dos jesuítas, que por
minhas crenças, tenho-os com reservas. Depois de suas informações,
olhei para as ruínas das igrejas e pensei que os sonhos dos jesuítas
não haviam terminado. Ali estavam a incentivar que sonhemos alto,
grandiosamente, sem medo de errar, certo de que sem sonhos não há
vida, porque tudo nasce primeiro em nossos corações.

As flores sonharam com a manhã e, assim mostraram suas cores, eu as
vi no Caminho, tantas e tão belas, dizendo sim à vida, como vi
tapetes verdes espalhados nas coxilhas, estendidos pelas mão dos
homens rurais, nos seus sonhos que ali se materializavam, e se
repetem a cada ano, independente de fracassos ou sucessos, nas
colheitas.

Também sonhei, durante o caminho, pois levei comigo os meus olhos de
artista, para procurar a Beleza. E a Beleza ali estava, no convívio
com os companheiros, nas brincadeiras, no sorriso fácil e
despreocupado, de cada um. E até no cansaço da jornada.

E na minha busca, com olhos de sonho, eu vi o líder Sepé Tiarajú.

Já no primeiro dia, em que o sol intenso tornava o verde dos morros
mais verde e o azul do céu quase violeta, ele me apareceu sobre uma
coxilha, cavalgando um cavalo branco e brandindo sua lança de cedro
e ferro.

Seus olhos eram azuis, como os da Marta, e seu sorriso de vencedor,
lembrava-me o da Gládis. Os braços eram parecidos com os do Claudio
e o peito guerreiro com o de Romaldo.

Então eu soube que ele era um homem reconstruído pelas lembranças
dos que hoje ainda o cultuam. Cavalgando se aproximou de mim, e com
seu jeito missioneiro, franco e aberto, disse-me que nunca deixaria
de cavalgar aquelas coxilhas que tanto amou, pois sua força,
imbatível e inesquecível, estava no coração dos que compreenderam
seu gesto de amor à terra, terra que ele dizia ter dono, e que nos
deixou como herança.

Pedi a ele, como peregrino, antes que desaparecesse, cavalgando
entre as coxilhas, um conselho. Ele sorriu. Ergueu a lança e seu
cavalo empinou quando gritou, um grito que se espalhou pelos morros
e vales azuis: JAHA NONDE!

Então compreendi que era preciso continuar a busca. Sempre. Avante,
sem esmorecer!

Porque a Beleza estava ali, depois da curva, no próximo por do Sol,
no mistério renovado da Lua Cheia, no amor que um povo, um dia,
dedicou à Terra-Sem-Males, que nunca foi, nem nunca será destruída,
porque era filha dos sonho de muitos, que a amaram, acima de suas
próprias vidas.

Terra-Sem-Males, que cada peregrino foi buscar e, se não achou
ainda, quem sabe, como o povo Guarani, sem desistir nunca,
continuará buscando. Porque o Povo das Missões provou que ela
existe, que é possível a paz, o convívio social, o repartir, o
reerguer-se sempre, e, mais do que tudo, Sonhar! Assim como vocês
sonharam.

Enviado por Solange Amador
 
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