Relatos Peregrinos

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Alexandre Barros

Bem, vai aqui minha opinião sobre os albergues, baseada no que vivi em cada um deles. Sei que muitos irão discordar, mas, como eu disse, baseia-se na minha vivência, quando estive por lá, em setembro/outubro do ano passado (1999):

- Roncesvalles: o refúgio é bom, mas o esquema lá é quase que militar,  cheio de regras e proibições, que, aos poucos, durante o Caminho, percebemos que não têm razão de ser. O interessante é que a maioria das pessoas  com quem conversei não dormiu direito ali (inclusive eu), talvez pela excitação de ser a primeira noite para a maioria;

- Larassoaña: maravilhoso, num pueblo maravilhoso e um hospitaleiro, Santiago, o alcaide, fascinado com brasileiros. Ganhou uma camisa Brasil/500 Anos minha;


- Puente La Reina: fiquei no primeiro refúgio, logo na entrada. Gostei, principalmente da educação do hospitaleiro, um garoto de não mais que 16 anos;

- Estella: o refúgio é bom, principalmente por ter inúmeras máquinas de refrigerantes, iogurtes, cafés, chocolates e outros alimentos, na base da moedinha. No entanto, o hospitaleiro é grosso, sem educação e, pior, um tarado, dava em cima das peregrinas. Ouvi falar que uma o denuncio e que foi até preso por lá;

- Los Arcos: bom refúgio e o hospitaleiro também paparica muito os brasileiros. Ganhou outra camisa do Brasil minha. Os peregrinos ficam em contâiners, com ar condicionado. Gostei muito, mas conheci um grupo de peregrinos que teve problemas lá, pois passava das oito da manhã e eles eram "tocados" dali, para a limpeza, pela faxineira. No entanto, uma americana se atrasou, pois estava fazendo curativo em suas inúmeras bolhas, e a faxineira, ao invés de ir limpando os outros contâiners, enquanto ela se aprontava, discutiu com ela e simplesmente a trancou lá dentro, por mais de meia hora. Lamentável e desnecessário;

- Vianna: o refúgio parecia ser bom, mas cheguei lá em meio a uma tempestade, completamente encharcado e não havia luz. Não foi uma noite agradável para mim;

- Navarrete: o hospitaleiro, Félix, não sabe o que fazer para agradar brasileiro. Não fiquei ali, mas conheci algumas pessoas que disseram que ele trata melhor os peregrinos do que as peregrinas, descaradamente. Presenciei também umas cena outra vez desagradável: eram umas onze da manhã, eu conversava com o Félix, quando chegou uma alemã, visivelmente em mau estado, com febre, dizendo que estava passando mal, que havia ido ao médico e ele lhe recomendara repouso absoluto. O hospitaleiro disse-lhe que iria abrir o refúgio para ela, mas que ela somente poderia ficar ali uma noite. No dia seguinte, mesmo que não estivesse bem, teria que procurar outro lugar para ficar. Fiquei chocado. E, pior, entre falar isso e abrir, efetivamente, o refúgio, ele gastou meia hora, enquanto a peregrina ficava esperando, no sol escaldante, pela "boa vontade" do sujeito. Decepcionei-me e me mandei dali;

- Nájera: o refúgio é super acolhedor, mas tem poucos banheiros (dois apenas). No mais, é dez;

- Azofra: o carinho de María Tobía e do Padre Ignácio mandam que o peregrino passe uma noite ali. Cheguei ali passando mal, com uma forte intoxicação alimentar e ambos me colocaram no refúgio e a primeira coisa que disseram foi que eu poderia ficar ali quanto tempo necessitasse. Lembrei-me do dia anterior, quando o Félix proibiu a alemã de ficar mais de uma noite. O refúgio é simples, fica ao lado da igreja. Mas o calor humano ali existente compensa a falta de qualquer luxo. E conversar com María Ignácio ou com o Padre Ignácio fazem com que não tenhamos vontade de ir embora;>

- Grañón: simplesmente o melhor de todos. Faço minhas as palavras da Lílian, que já descreveu suas experiências ali. Eu ainda estava mal de saúde, mas passei ali uma das melhores noites do Caminho. E fiquei sabendo também que o padre, depois que passei por lá, ajudou a salvar um peregrino brasileiro que chegou lá vomitando sangue, por causa de uma úlcera. O padre o levou para o hospital de uma cidade maior e ficou com ele até que o mesmo tivesse condições de voltar para o Brasil;

- Villafranca Montes de Oca: o pior de todos!!! Fica numa velha escola. Não há vasos sanitários, mas apenas aqueles "poleirinhos", onde se faz as necessidades em pé, como nas cadeias. O chão é de mármore, frio. Não há cozinha e a hospitaleira só aparece lá para recolher o dinheiro dos peregrinos. Depois some de novo. Faltou cama também e muitos peregrinos tiveram que dormir no mármore gelado. Mas o pior mesmo, como eu disse, são os banheiros (apenas dois e um só chuveiro), além da sujeira. Fujam de lá.

- Burgos: excelente o refúgio, que fica no parque. Só que não tem cozinha. Destaco aqui, não o refúgio, mas o Hospital Militar, que fica em frente e atende aos peregrinos. Havia cinco dias que eu estava passando mau. Fui lá numa manhã e fui atendido por uma junta médica, que exigiu que eu voltasse de noite, para nova avaliação do meu estado, desaconselhando-me a caminhar naquele dia (o que atendi). Até exame de sangue fizeram. E não cobraram nada. Fiquei com uma excelente impressão;

- Arroyo San Bol: não fiquei lá porque o hospitaleiro só queria mulheres em sua companhia. Me recebeu de maneira áspera, querendo me cobrar 500 pesetas, por nada, já que não há cozinha, não há comida, não há chuveiro e tampouco banheiro (palavras do hospitaleiro). No entanto, fiquei sabendo que, para mulheres, ele não cobrava nada e ainda cozinhava para elas. Outro tarado no Caminho. Mas o pior ali é que não há banheiro;

- Hontanas: muito bom, de excelente qualidade. Há cozinha e as hospitaleiras também servem janta aos peregrinos (cobram, claro), pois não há restaurantes na cidade.

- Boadilla del Camino: outro refúgio excelente. Foi reformado há pouco e é administrado por uma família, que serve refeições no local. Foi o melhor banho de todo o Caminho. Dizem que o filho da hospitaleira toca flauta muito bem, para os peregrinos. Na noite que eu estive lá, ninguém queria saber disso (incluindo eu e ele mesmo), pois havia jogo do Barcelona na televisão;

- Carrión de Los Condes: há dois. Fiquei no das monjas. Cobram o dobro do outro, mas fornecem toalhas, travesseiros, fronhas e lençóis limpinhos. As instalações são boas e há uma cozinha razoável também;

- Terradillos de Los Templários: refúgio muito bom, mas como é privado, cobram o dobro dos municipais. Não há cozinha, mas servem refeições no local, de excelente qualidade. Há máquina de lavar roupa também.

- León: há dois refúgios. O municipal, que dizem ser de excelente qualidade, mas que não conheci. Fiquei no outro, das monjas carbajales. Não gostei. Não havia luz no banheiro e em metade do dormitório, as camas são muito próximas umas das outras e não há cozinha. Mas há duas vantagens: a localização, bem próximo à Catedral (o outro é bem mais distante) e a prece que as monjas fazem de noite, quando convidam (ou melhor, intimam) todos os peregrinos para assistir. Imperdível;

- Villar de Mazarife: muito bom também. Está sendo reformado, aos poucos, pelo hospitaleiro, um agricultor que também é prefeito da cidade. É simples, mas acolhedor. Tem uma boa cozinha. Só não está melhor porque sofre concorrência direta com o de Villadangos del Páramo, pois há dois caminhos, e ambos disputam entre si o título de ser o caminho original. Gostei muito de ficar ali;

- Astorga: apesar de aparentar ser novo, é horrível. Muito apertado, não há cozinha e há somente dois banheiros. Fica muito cheio sempre, pois não há outro refúgio nas proximidades;

- Rabanal do Camino: há três refúgios. Conheci dois e ambos são muito, mas muito bons mesmo. Há lareira, cozinha, amplos dormitórios e no que fiquei (El Gualcelmo, administrado por uma associação inglesa) é servido um forte café da manhã. Sem contar que a cidadezinha é um encanto, toda de pedra.

- Manjarín: somente passei por ali. Dizem que o lugar é místico etc. etc. Mas não gostei, pois o lugar é pura sujeira. O hospitaleiro, que dizem ser templário e alternativo, bem que poderia deixar aquilo um lugar mais limpo. Havia inúmeras latas abertas e vazias sobre os cômodos, inclusive as camas. Não acho que para ser alternativo é preciso ser sujo. Mas teve gente que adorou dormir ali. Questão de opinião;

- Molinaseca: um dos melhores, com cozinha, máquina de lavar roupa e centrífuga, todo de madeira e o hospitaleiro é muito educado. Há uma boa cozinha. A única desvantagem é que fica depois da cidade, já fora dela. Se se quer comprar algo, tem-se que voltar cerca de um quilômetro. Isso para o peregrino, ao final do dia e, pior, para trás, é um suplício. Mas vale a pena ficar ali, principalmente porque dizem que o refúgio seguinte, de Ponferrada, é muito ruim;

- Villafranca del Bierzo: há três refúgios. Eu fiquei no do Rato, o Ave Fênix, e não tenho do que me queixar. Após o incêndio, ele está fazendo o trabalho de reconstrução, com a família. Gostei do fato de que ele reservou o primeiro quarto reformado para os peregrinos que têm mais de 40 anos de idade (eu tenho 32, ou seja, não fiquei lá, mas achei válida a iniciativa). Os demais ficam num cômodo velho, improvisado. Não há cozinha;

- Vga de Valcarce: o refúgio é bom, tem máquina de lavar e de secar roupa. Fica numa antiga escola e é muito espaçoso. Mas estava muito sujo. A vantagem de ficar ali é que você recupera as forças para, no dia seguinte, iniciar a subida ao Cebreiro. Não há cozinha;


"A subida do Cebreiro é uma das partes mais famosas e mais temidas do Caminho de Santiago, pois é muito puxada. Cheguei ao "pueblo" às 13h. Ainda dava para caminhar mais, mas a magia do lugar me fascinou. Quase todo em pedra, no alto na montanha, com uma constante névoa que dá um toque de magia ao lugar, lembrando aqueles filmes medievais. Decidi ficar ali até o dia seguinte e assistir à missa de noite, naquela que é uma das igrejas mais famosas do Caminho, pois é o cenário de um dos tantos milagres que se conta na peregrinação a Santiago, quando pão e vinho teriam se transformado em carne e sangue. No Cebreiro assisti ao pôr do sol e à alvorada mais bonitos de todo o Caminho. Foi com pesar que parti, no dia seguinte, em direção à próxima etapa. Mas jamais me esquecerei daquele lugar."

- O Cebreiro: o refúgio é bom, amplo, espaçoso, tem uma grande cozinha. Não pelo refúgio, mas pelo pueblo e pela missa na igreja de Santa María La Real, acho imperdível passar uma noite no lugar, formado por casas e construções de pedras, no alto da montanha, no portão de entrada da Galícia;

- Triacastela: refúgio bom, com vários quartos com dois beliches cada. Fica logo na entrada da cidade e tem máquina de lavar e secar. Não me lembro de ter visto cozinha, mas tem um bar logo em frente;

- Sarria: refúgio enorme, com um excelente banho. A partir daqui, a maioria dos refúgios estará lotada, pois faltam pouco mais de 100km para Santiago e muitos peregrinos fazem somente esta parte, principalmente os espanhóis. Há que se preparar para tal inconveniente. Eu troquei alguns refúgios, a partir daqui, por hostais;

- Portomarín: refúgio pequeno e os beliches ficam praticamente grudados uns aos outros. Difícil andar entre as camas, principalmente com a mochila nas costas. Há cozinha. Estava tão cheio, principalmente de crianças e peregrinos de fim de semanas (mulheres até de salto alto!!!) que o troquei por um hostal;

- Melide: refúgio enorme, de três andares. Há cozinha e vários banheiros, mas, como na maioria dos refúgios da Galícia, que são administrados pelas prefeituras, os funcionários/hospitaleiros não parecem se preocupar muito com os peregrinos não. Apenas cobram o dinheiro e pronto, numa coisa bem "profissional" e fria;

- Monte do Gozo: excelente complexo preparado para receber peregrinos e turistas. Perde um pouco o clima, a sensação de se estar num refúgio, mas a infra-estrutura é de primeira. Vale dormir ali e, no dia seguinte, descer cedinho para Santiago, assistindo à missa dos peregrinos;

- Santiago: o refúgio fica num velho (e imponente) seminário. Há o "titular", para onde são mandados os primeiros peregrinos. É enorme e custa a lotar. Há também o "reserva", no mesmo prédio, mas em outra ala, que só é usado quando o primeiro lota. É incrível, mas o "reserva" é bem melhor que o titular, principalmente no que se refere aos banheiros, que são separados (masc./fem.), bem maiores e mais novos. Não entendo porque não se coloca os peregrinos logo ali. O pior é que o peregrino, quando chega, se o "titular" está cheio, vai para o "reserva". Chega lá, adora o lugar, pois é mesmo um show. Só que, no dia seguinte, é rebaixado e obrigado a ir para o "titular", para sua decepção.

- Finisterre: há um novo refúgio lá, que fornece até credencial, a "Finisterrana". É muito bom, com uma excelente cozinha e uma hospitaleira muito educada.


"Foto da Igreja de Santa María La Real, no Cebreiro, tirada por Alexandre Barros, em 1999."
 

Enviado por Alexandre Barros
 
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