Relatos Peregrinos

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Tânia Almeida

Reflexões

Hoje completa um ano que comecei minha viagem rumo à Espanha, e gostaria de dividir meus sentimentos e reflexões.

Para mim, o Caminho foi uma coisa totalmente inesperada. Sabia que existia por ter lido há muitos anos o livro do Paulo Coelho, mas nunca pensei em fazê-lo.

O que me levou a tomar uma decisão tão contrária ao modo como vivi a minha vida adulta? Eu, a "certinha" que não se arrisca, não gosta de exercício e banho frio, só fala português e tem medo de contato com muita gente, sair do conforto de minha casa para caminhar 1 mês pela Espanha!!!!

Minha vida tomou um rumo muito diferente dos meus sonhos de adolescente, das minhas expectativas. Quando me imaginava no ano 2000, teria uma carreira profissional na área científica, seria solteira, independente e sem compromissos. Viajaria muito e já conheceria toda a Europa de trem.

Na realidade, estava casada e com um filho, era dona de casa e minhas viagens se limitavam à casa dos familiares.

Então, bateu a maior crise: o que estou fazendo? Não deveria correr atrás dos meus sonhos? Deveria me conformar com minhas escolhas ou largar tudo e começar de novo?

Foi neste estado de espírito que surgiu a possibilidade do Caminho, através de uma amiga que iria e me convidou para acompanhá-la. Fosse em outro momento, provavelmente teria recusado. Mas queria pensar, decidir o que fazer, descobrir se estava só acomodada ou se estava satisfeita com tudo.

Foram apenas dois meses de preparo. Também acho que se fosse mais tempo, acabaria desistindo. Mas tudo se encaixou perfeitamente. Já tinha mochila e saco de dormir, precisei comprar só a bota. Parcelei as passagens, meu marido conseguiu uma viagem a trabalho para o exterior e dividiu os dólares comigo. Minha sogra veio tomar conta da casa e do meu filho.

Embarcamos num sábado. Cheias de planos e ansiedade. Demorei a acreditar que estava realmente fazendo aquilo, deixando tudo para seguir flechas amarelas pelo norte da Espanha!!!

Foi uma das melhores decisões que tomei. Decidi muitos assuntos pendentes comigo mesma, muitos mais do que imaginava possível. E descobri que ainda tenho muitos mais a resolver, e mas tenho força para isso, é só eu querer.

Conheci muitas pessoas, todas buscando alguma coisa. Nem todas encontraram exatamente o que queriam, mas descobri que no Caminho se aprende o que se precisa, e isso não é necessariamente o que se quer. Com todas elas troquei alguma coisa, mesmo com as pessoas que não gostei ou não gostaram de mim. De muitas, recebi mais do que dei, e aceitei que isso não é vergonha. Vergonha é não doar nada em momento nenhum, receber é importante e o orgulho não deve impedir isso.

Minha vida mudou, tomei decisões e defini o que queria. Agora tenho um emprego, tomei as decisões que queria. Mesmo depois do caminho, continuo com dúvidas, que vou decidindo aos poucos. Acredito que iria mudar de qualquer jeito, mas o caminho foi um catalisador, ajudou a colocar tudo em perspectiva.

Não tenho como descrever em poucas linhas a intensidade, a força de tudo que aprendi, nem estou tentando. Só queria dividir um momento de alegria e felicidade pela oportunidade que tive no momento certo. E dizer que não acredito em coincidências e acaso.

Aos que ainda não foram por algum problema que surgiu ou que ainda não tem data marcada, acreditem que vocês irão quando for o tempo certo. Tenham fé.
 

Enviado por Tânia Almeida
 
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