Relatos Peregrinos

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Sonia Bernarque

O Caminho “Unido” de Santiago

Sonia (abraço em Santiago)

Tenho o hábito de ligar meu micro e a primeira coisa é acessar a Intranet. “Para quê?”, pergunta de muitos. Respondo imediatamente: “Para me inteirar de tudo o que acontece e aconteceu ou acontecerá no Banco, minha casa durante horas do dia”. Num destes dias, deparo-me com a inscrição para o Caminho de Santiago, do qual ouvira falar milhões de vezes.
Primeira reação: inscrever-me imediatamente, pois eram poucas vagas. Após a inscrição, tortura mental – “estou louca, não tenho grana, mas tenho férias”; “não perguntei a meu marido, mas fiz duas inscrições”; “esqueci de perguntar se ele queria, mas se não for sorteada não preciso nem falar para ele, mas e se for... ?”
Decidi não pensar mais e trabalhar.
Dias depois, a confirmação, e aí, tinha que decidir rapidamente o que fazer, não sei, ferrou...
Vamos lá. Decidi ligar para meu marido e despejar tudo de uma vez para que ele não consiga raciocinar. Funcionou, ele aceitou, mas veio a pergunta: “Quanto?” Não temos dinheiro, mas para minha surpresa ele topou, disse que daríamos um jeito, pois era uma oportunidade imperdível.
“ Feito”, respondi ao e-mail e fechei a data, longe, para dar tempo de economizar e minimizar os gastos.
Dia 28 de outubro, perfeito, melhor data impossível, aniversário de uma pessoa super, hiper importante em minha vida, MEU PAI. Afinal, sem ele eu não estaria hoje atrás de um computador tentando exprimir o que não se pode exprimir, explicar o inexplicável, exteriorizar sentimentos que não podem ser transcritos em palavras devido à imensa emoção.
Outro passo importante: solicitar as férias a meu chefe - eu era nova no departamento, mas tinha férias pendentes. Outras perguntas insuportáveis a atormentar meu cérebro, que apesar de loira, funciona, ele aceitaria. Se não, ferrou de novo.
Enchi-me de coragem e fui. Deu certo ele aceitou. Novo e-mail confirmando a data. Perfeito, até agora. Outro e-mail, o pagamento, tudo bem, tinha conseguido guardar uma reserva, mas e as contas do mês, e agora, vai faltar, esqueça, você chegou até aqui, vai desistir agora?
NÃO. Paguei.
Alguns meses se passaram, e tudo sendo planejado, detalhe a detalhe, mas havia tempo. Que nada, outro e-mail, a viagem tinha que ser antecipada, ferrou de novo, eu não estava mais acreditando, ora-ora, vai desistir agora? NÃO, vamos lá e fui pedir ao meu chefe uma antecipação, ufa!!! Aceitou, e aí confirma e-mail de novo.
A essa altura, já perdi altura a noção de quantos e-mails foram. Mas e aí, outro problema - as passagens - não me programei para uma antecipação, ferrou de novo, não, vamos lá comece a pesquisar e fui à luta. Pesquisa, pesquisa e mais pesquisa, encontrei!!!
E o pagamento? Ora, ora, se cheguei até aqui, é por que estava escrito em algum lugar, nas estrelas talvez (isso é letra de música). Fechei de uma vez, em suaves prestações, só para acalmar o cérebro, que a essa altura já estava fervilhando (no final, não eram tão suaves assim, mas deixa prá lá, pois o futuro a Deus pertence, nesse caso a mim, pois a conta sou eu quem paga).
E assim se passaram os meses, mas lembrei-me de enviar um e-mail ao pessoal do América Caminha agradecendo pela iniciativa, pois afinal de contas, não é todo dia que se comemora o Ano Santo do Caminho, e que logo estaria sendo esse o meu caminho.

Sonia e Marcio


Mil coisas na cabeça, mas uma delas era poder agradecer a idéia tão bonita de se encorajar funcionários, dar-lhes oportunidades de conhecimento, de união, de troca de experiências. Nobre é o homem que pensa em eventos como estes, nos quais o principal é o ser humano envolvido, é mostrar o que é ser humano e quão humanos somos, pois o Caminho é isso, um encontro de seres humanos, que foram capazes de ser humanos, encontrando seres tão humanos existentes em um mundo que, às vezes, nos parece tão desumano.
E a viagem chegou. Saí daqui com uma bagagem lotada, de roupas, NÃO, de esperança, de medo, de desconfiança, de alegria, de tristeza, de luta, de coragem, de encontros, de desencontros, de perguntas, ah!!! Muitas perguntas – “mas para quem?”, “quem vamos encontrar?”, “para onde estou indo, afinal?”
NÃO SEI, mas vou.
Chegou finalmente o grande dia, embarcamos eu e meu esposo, dois “muchileiros”, totalmente motivados e conhecedores de tudo o que havia sobre o tal caminho. Tudo estranho, para meu marido mais ainda - não fala espanhol ou qualquer outro idioma, mas ainda bem que eu, sim, afinal neta de espanhol, faça me o favor, dizia eu a ele, vai dar pra trás agora, deixa comigo, fica frio, deixa comigo.
Primeiro contato com alguém do caminho, na fila da imigração, uma senhora, Cecília, 65 anos, que graça e que ânimo, que contagiou a todos e foi adotada por todos durante a caminhada, árdua muitas vezes, que o diga minha valente amigaNora - que graça, descobrimos lá que trabalhamos na mesma VP, mas ela em Comunicações Internas e eu no Jurídico, que vergonha, falta de tempo de conhecer a área toda.
Voltando à Cecília, mãe de Cristina, outra simpatia, vindas de Mococa, quantas estórias, quanta experiência. Chegamos ao hotel, e até agora tudo bem.
No dia seguinte lá, estávamos todos na recepção, e começaram as apresentações, a maioria da Rede, Margarete, a sorridente Alzira, o gaúcho Gerson, a mineira Luciana, as meninas do Rio (Lu e Kátia) e o simpático casal de Araraquara (Carlos e Márcia, sempre filmando tudo). Chega o guia, com sotaque Português, mas não era de Portugal, era da Galícia, terra linda e abençoada, mas que terno e que gravata uiii, nada combinava.
E chega o ônibus, mas o motorista, ora vejam só, que pinta de galã, Alfonso, que fez aniversário durante o caminho e longe de sua família, o adotamos, todos os 24 (o guia, os brasileiros e os espanhóis, que graça). Começamos a viagem meio tímidos, quietos, sem muitas perguntas, mas meu marido, sempre pisando na jaca, pois o portunhol, meu Deus, que horror, foi quebrando o gelo aos poucos e perguntas vão surgindo naturalmente, como a própria integração, interação, cooperação e assim por diante.
Durante 6 dias, longos, pois começávamos cedo, foram dias de muita confraternização, união, saber um pouco de cada um, pois estávamos juntos do café da manhã ao jantar, e às vezes, no cafezinho depois do jantar, pois o Márcio, meu marido, pé na jaca de novo, aprontava das suas, fanático por café, e olha que levamos nosso super hiper Kit “Cafezinho Brasileiro”, foi aos pouquinhos adquirindo o carinho dos espanhóis, até um brasileiro encontrou em uma de nossas paradas em hotéis.
Ah!!! já ia me esquecendo: que hotéis, a equipe que dedicou-se à escolha está de parabéns e confesso que temos de tirar o chapéu. Pois bem, o Márcio, pé na jaca, encontrou um nordestino, criado em Tocantins que fora ganhar a vida na Espanha (Galícia, para ser exata), muito legal o rapaz, tão legal, que estávamos em pleno jantar, quando o guia me chama, logo eu, meu Deus, o que eu fiz, quem me achou, logo aqui, pensei comigo, é alguma pegadinha do Faustão. Que nada, era um presente para o casal Aparecido, como fomos nomeados pelo guia, por chamarmos Sonia Aparecida e Marcio Aparecido, ganhamos um vinho, muito legal. Foi uma cena muito engraçada e difícil de esquecer, pois estávamos bem na ponta da mesa, enorme, e era como se estivéssemos recebendo amigos para jantar e assim nos portamos, foi muito legal.
E o caminho foi assim, abrindo-se aos poucos, conhecemos pessoas e havíamos levado pequenas lembrancinhas, que distribuímos (eram pequenas imagens, botons e fitinhas de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso querido Brasil, e também pequenas bandeirinhas) e isso fez a alegria de muitas pessoas, inclusive algumas derramaram lágrimas que dificilmente esqueceremos, acho que marcamos a vida de muitas pessoas além do grupo.
Enfim acreditei a vida toda do poder de 5 verbos que fazem parte do meu perfil: CRER, QUERER, PODER, FAZER e SER. Crer no ser humano, e que podemos fazer tudo quando queremos ser simplesmente SERES HUMANOS. É muito difícil transmitir a todos o que nós (esse grupo ,em especial) sentimos, ouvimos, tocamos durante essa jornada linda em nossas vidas e por isso fica aqui o convite a todos que queiram como nós, SENTIR, OUVIR, TOCAR, emoções, pequenas flores, ouvir a água, os pássaros, as pessoas idosas que moram nesse trajeto, enfim, fica aqui o convite e também o agradecimento a todos que nos proporcionaram a oportunidade de fazê-lo e aos que participaram conosco dessa viagem simplesmente mágica - talvez seja essa a palavra mais próxima, mágica, magia dos sons, do olfato, do toque. Beijos.

Grupo America Caminha (projeto Banco Santander para o ano Jacobeo de 2004)


Enviado por Sonia Bernarque
 
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