Relatos Peregrinos

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Solange

Caminho Português

Fazer o Caminho de Santiago por terras lusas significaria navegar com coragem, determinação e muito espírito de aventura, haja vista a ausência das famosas setas amarelas, tão comuns no Caminho Francês, e sobretudo dos refúgios acolhedores de corpos cansados.

Partindo de Porto, mais precisamente da casa dos amigos dos peregrinos - Djalma e Zelda - levei comigo o esboço do guia do Caminho Português, delineado pelo casal após árduos traçados obtidos de estudos constantes.

Mais adiante, em São Cristóvão de Cabeçudos, encontrei as famosas setas amarelas, e dali segui até Braga, para depois seguir só pelo instinto, ou melhor, pela estrada nacional, até Ponte de Lima.

Foram 35 km de caminhada, de Braga a Ponte de Lima, em asfalto e sob um sol escaldante, sem qualquer nuvem para refrescar. Houve, por sorte, inúmeros bares e cafés ao longo da rodovia, aonde mais uma vez encontrei a simpatia e a solidariedade do povo português.

Muitos não compreendiam o porquê de uma pessoa (ainda mais uma mulher sozinha) estar a andar desde Porto, até Santiago de Compostela. Promessa? Não! Apenas o desejo do autoconhecimento, da sabedoria, do encontro comigo mesma e com Deus.

Estar no Caminho de Santiago mais uma vez significaria entrar novamente por um tubo de luz, um túnel de energia, só que por uma outra entrada e com poucas indicações de saída.

Sim, mais uma vez a peregrinação...mais uma vez a determinação, a coragem e a perseverança para seguir adiante, apesar das dores físicas e dificuldades materiais.

Todos os caminhos levam a Deus, mas nem sempre todas as setas amarelas levam ao caminho certo. Estava eu em Labruja, um nome bastante significativo, pois LA BRUJA, em espanhol, significa " a bruxa", e justamente por estar quase entrando na Galícia, aonde rezam as lendas ser um local de grande concentração de bruxas, fadas e duendes, comecei a experimentar uma leve sensação de ter sido alvo (quem sabe...!) de um feitiço lançado por uma dessas bruxas das florestas.

Uma seta amarela, pintada no chão, conduziu-me a um bosque de eucaliptos e pinheiros. Já dava pra ter visto, desde o início, tratar-se de uma arapuca, pois o mato roçava-me o pescoço e os espinhos arrancavam-me a pele. A um certo momento, já completamente perdida das árvores pintadas de amarelo, pensei em voltar, inutilmente...pois não dava mais para ver as minhas próprias pegadas.

Teria sido este desvio uma brincadeira das bruxas das florestas, a rirem-se de mim por suas maldades? Ou teria sido um teste de fé? Afinal...não desejei o caminho do mago, da sabedoria, do autoconhecimento? A um certo momento ouvi o barulho de um chocalho...de cascavel??? Quem sabe....
Calmamente peguei o canivete suíço, próprio para situações imprevisíveis. Com o mato no pescoço só me restava o movimento dos braços, a afastar os espinhos das roseiras. Já não ouvia mais o barulho dos carros...apenas o balançar do vento e o batuque do meu coração.

Ao clamar por Jesus, pelos caboclos das matas e espíritos invisíveis da natureza, restaram-me a esperança e a certeza de que com toda a calma e confiança eu me desvencilharia daquela situação incômoda. Dito e feito, após o teste de fé eu calei a gargalhada das bruxas e segui bosque adentro, por uma estrada ampla e com marcas de rodas.

1º round, venci a energia ying (negativa), mas ao sair do bosque deparei-me no mesmo lugar de antes, bem antes de entrar no bosque! Perdi três horas da minha caminhada, graças a uma seta amarela que parecia indicar-me o caminho certo (mas também ganhei três horas de ensinamento...por toda a vida).

O que essa experiência me trouxe? Nem todos os caminhos que me ensinam poderão levar-me à estrada certa...Se por acaso eu descobrir que entrei no caminho errado, que eu tenha fé, confiança e determinação para retornar ao ponto de partida e recomeçar a minha jornada...até encontrar o caminho certo!

Este é o caminho do mago. São os testes de força e sabedoria. O autoconhecimento. Eu descobri que posso recomeçar quantas vezes forem necessárias. Eu tenho o meu escudo de proteção, pois sempre que me abaixei para carregar a minha cruz...estava lá a concha de Santiago, pendurada no meu pescoço, a dizer-me que eu não estava só. E como dizem os peregrinos...ULTREYA ! (que as luzes das estrelas iluminem o teu caminho).

Aí vai o meu roteiro:

1º dia - Porto/São Gonçalo (aqui eu me hospedei no único café da freguesia. É só pedir ao dono. Ele é gente fina e costuma albergar peregrinos, pois não existe pousada nem hotel na cidade. No café você pode pedir uma sopa, que apelidei de "levanta defunto" ao preço de Esc. 150. Aqui eu pedi: sopa, água, vinho, pão, biscoito e pão com queijo, tudo isso pelo preço de Esc. 720. A hospedagem fica em cima do café. É um sobrado que ele está guardando para o seu filho, quando ele se casar. Tem até varanda, que dá vista para a rodovia).

2º dia - São Gonçalo/Vila Nova de Famalicão. Ao sair de São Gonçalo, passei por um bosque de eucalipto muito bonito, e também imenso. Aqui eu me perdi, pois as árvores não têm sinalização. Não sei se o Djalma já sinalizou. Pergunte a ele. No meio do percurso eu acabei saindo em outra paragem, e acabei passando por Trofa/St. Bárbara. Eu dei para o Djalma um cartão de um habitante de Trofa, que disse poder albergar, em sua casa, qualquer peregrino. O cartão deve estar com ele ainda. Pergunte o telefone e o nome do gentil cavalheiro. Por volta das 18h eu estava no final da Vila Nova de Famalicão, e tive que repousar no Hotel Moutados. hotelmoutados@mail.telepac.pt. O preço da diária é Esc. 8000, mas o gerente faz por Esc. 6500 para peregrino. É um excelente hotel, com excelente café da manhã. Dá para levar até um sanduíche reforçado p/ caminhada, e uns saquinhos de chá, dos mais variados sabores, para saborear no refúgio. Tem um restaurante ao lado do hotel, que pertence ao mesmo dano. Eu paguei Esc. 1800 pelo jantar. Esta foi a única extravagância de gastos. No restante, a hospedagem ficou por Esc. 4000, e a comida por Esc 750. Antes de chegar a Vila Nova de Famalicão eu passei por Lousado, Cabeçudos e Santiago de Antas, que fazem parte da rota.

3º dia - Vila Nova de Famalicão/Braga. Cuidado com a estrada. Até chegar a Braga, um bom percurso vai por uma estrada sinuosa, sem acostamento. Muitíssimo cuidado. Os carros são velozes e costumam buzinar, o que causa sobressaltos, principalmente quando a gente está curtindo a beleza do caminho (ai, quantas belezas...!). No percurso eu passei por Telhado (a sinalização é boa e irregular ao mesmo tempo. Acabei entrando e saindo no mesmo lugar. Não sei se o Djalma já consertou). Passei também por Lugar do Campo e Lomar. A entrada para Braga vai bem, até chegar dentro da cidade. A marcação se perdeu, com o tanto de construções novas. Procure o albergue, no endereço que te dei.

4º dia - Braga/Ponte de Lima. Ai, Ponte de Lima, que cidade linda! Pena que não deu pra conhecer. De Braga a Ponte de Lima você vai pegar um retão. É rodovia ponta a ponta, mas tudo muito tranqüilo, pois há casas de um lado e outro. Há muitos cafés. De qualquer forma, cuidado. O povo corre! Preste atenção na saída de Ponte de Lima. A marcação está irregular. Não entre nas estradas de terra, logo ao sair da cidade. Vai parar em plantação de alguma coisa. Melhor ir seguindo pela estrada. Passei por Frossos, Lajes, Freiriz.

5º dia.Ponte de Lima/Rubiães. Lembra-se de Paulo Coelho, ao falar de um ponto sinistro no caminho francês, num lugar aonde só habita uma mulher, com um monte de cachorros bravos? Pois é....sempre há um ponto sinistro no Caminho de Santiago....Prepare-se! Aqui muita coisa pode acontecer. Suspense...Vai passar por Labruja e Romarigães...Mistério...Não entre num bosque, em Labruja. O povo desta vila não gosta de peregrinos e há setas marcando direções erradas. Eu me perdi no bosque, cuja seta estava no chão. Fiquei arranhada com o mato fechado. E só saí do bosque por intervenção divina, pois nem mais o barulho dos carros eu ouvia. Depois de ficar 3 horas no bosque, acabei saindo no mesmo lugar por onde já tinha passado, só que no início de uma ladeira imensa, sob um sol causticante das 14h. Não siga, em hipótese alguma, qualquer seta que esteja no chão. Não entre em bosque algum. Siga pela estrada que serpenteia as casas. Em Rubiães fiquei numa residencial (quarto com TV). Paguei Esc 3000.

6º dia. Rubiães/Tui. Melzinho na chupeta. É só seguir para o abraço. Antes de chegar a Valença, v. vai descer por uma estrada maravilhosa, com árvores por todos os lados. E do alto, você vê uma cidade lá de cima, com seu rio imenso...é lindo. Cuidado com os carros, e preste atenção nas curvas. Eu tive que encolher a barriga. A 5 km de Valença você vai ver um restaurante, que fica ao lado de uma rodovia. Almoce lá por Esc 900. (frango, batata frita, arroz, salada). Delicioso....Atenção. Você vai ter que passar pela rodovia para chegar até Valença. É extremamente perigoso. Num trecho do caminho tem que cruzar a rodovia. Depois você pega a estrada lateral. Olhos bem abertos. Terminando o caminho por Portugal, algumas informações: a água mineral custa de Esc 80 a Esc. 100. Café, idem. Imperial (chopinho), Esc. 100. Coca-Cola, Esc. 100. Chocolate. Esc. 100. Cartão telefônico, trinta unidades. Esc. 650. Picolé. Esc. 220. Ônibus de Lisboa para Porto. Esc. 2200. (Perto da rodoviária existe um restaurante self-service. Paguei Esc 705. Ônibus do aeroporto até a estação principal de Lisboa (Roccio) . Esc. 450.Se em Porto você não puder ficar no albergue da juventude, você encontra pensão, com banheiro no quarto, por Esc. 5000.

7º dia - Tui/Redondelas. Espanha! Você vai atravessar uma ponte linda para Tui. Em lá chegando, é só seguir as flechas até o refúgio (oficina del peregrino). Olha, a puxada é muito grande até Redondelas. Se você não agüentar, vai chegar por volta das 13h numa cidade, da qual não me recordo o nome (acho que é Porriño). Só que nela não haverá refúgio. Melhor seguir até Redondelas, se tiver disposição. Creio que o percurso total é de 36km. Em Redondelas tem um restaurante muito bom perto do refúgio. Prepare o bolso: Esc. 1790, com um vinho maravilhoso....8º dia - Redondelas/ Pontevedra. Beleza de percurso. Descanso das pernas....

9º dia. Pontevedras/Caldas del Reyes. Em Caldas del Reyes não tem refúgio. Procure o abrigo de idosos chamado LAS HERMANITAS DE LOS ANCIANOS DESAMPARADOS. Há uma freira lá que parece um anjo. Elas abrigam peregrinos. Recomendo que deixe Pes.1000 para os velhinhos. A freira não vai querer aceitar. Insista. Vale a pena contribuir, tamanha é a caridade e solidariedade com que somos recebidos.

10º dia. Caldas del Reyes/Padrón
. Melzinho na chupeta...

11º dia. Padrón/Santiago
. É só seguir para o abraço...Em Santiago você pode ficar no hostal Suso, ao preço de Pes. 2500, com quarto individual sem banheiro. Mas não se preocupe. O banheiro fica de frente para o quarto, e a chave fica contigo. O hostal fica na mesma rua da oficina del peregrino, aonde se troca a credencial. ´´E só descer a rua. Se você voltar para Portugal de trem, vai pagar Pes. 5500. Cuidado quando chegar em Porto. Recomendo que pague mais Esc. 1800 de complemento da passagem, para pegar um trem de primeira qualidade. Caso contrário, pelo mesmo preço que pagou na Espanha, você vai pegar um trem que é pior do que pau de arara. Ao chegar em Porto, dirija-se imediatamente ao balcão de passagem. Vai ter que marcar o assento, pois caso contrário vais pagar uma multa de Esc. 10.000 se pegar o trem bom e não marcar o assento. Marque o assento e pague mais Esc. 1800.

Leiam a reportagem sobre da qual Solange participou, no Jornal Diário do Minho, do Porto (Portugal), em 25.07.2000.

Vejam seu Álbum Peregrino.

Enviado por Solange
 
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