Relatos Peregrinos

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Solange Reis
PUENTE FITERO (ÍTERO DE LA VEGA) - (14/08/2001)

Segundo dia de caminhada. Nosso destino era Frómista. Tínhamos saído de Hornillos Del Camino.

Uma tempestade que se aproximava nos levou a ficar em Puente Fitero, muitos kms antes do destino programado para pararmos de caminhar naquele dia. Bendita tempestade.

O Albergue- "Ermita de San Nicolás", é uma construção muito antiga, não tem luz elétrica, tudo muito rústico, mas com banheiros novos construídos do lado de fora, tudo muito limpo.

Fomos recebidos pelo hospitaleiro, Maurício, um italiano, com muito carinho e avisados que seria servido aos peregrinos, um jantar oferecido por um grupo de Italianos que estavam em outro albergue próximo. Ainda nos pediu Maurício que fôssemos breves, pois antes do jantar, seria realizada uma cerimônia de bênçãos.

A mesa preparada para servir o jantar, muito grande, para mais de trinta pessoas, tinha um espaço reservado aos doze peregrinos e nesse espaço, estava posta com pratos de louça, copos de vidro, enquanto aqueles que tinham preparado o jantar, e todos os demais do grupo seriam servidos em utensílios descartáveis, num gesto de humildade que já chamou a atenção.

Nos sentamos para a cerimônia no que se pode chamar de um altar. Maurício, vestindo uma capa, (da Ordem de Malta) se preparou para realizar a cerimônia e portando um jarro e uma bacia, ajoelhou-se à frente de cada peregrino (éramos doze) e lavando os nossos pés, nos abençoava dizendo: "Que Cristo te bendiga e que teus pés te levem até Santiago". Após a benção, ele beijava nossos pés. O que posso dizer desse gesto que representou tanta humildade e desprendimento, além da convicção da seriedade com que naquele local era encarado o Caminho de Santiago? A emoção foi geral. Assim como eu, muitos choraram, pois cada um foi tocado naquele momento, por algo muito sério e verdadeiro.

Depois foi servido o jantar, (à luz de velas) macarrão, vinho, pão, frutas, tudo fornecido pelos Italianos (também peregrinos) que estavam oferecendo o jantar e pelo Albergue que é mantido por um grupo de peregrinos italianos que fazem parte da Ordem de Malta e todos os anos se revezam ficando durante um determinado período no Albergue, recebendo, alimentando e abençoando os peregrinos. Para dormirmos, alguém tocou uma linda música clássica ao violão.Ao acordar,também ouvimos a mesma música. Agora escrevendo, conseguí me lembrar dela. Muitas vezes tento e não consigo. Foi uma experiência muito emocionante. Pela simplicidade, pela mensagem que nos foi passada. Jamais vou esquecer o que senti naquela noite, onde fomos carinhosamente cuidados por pessoas que levam muito a sério e trabalham para manter vivo o espírito do Caminho.
 

Enviado por Solange Reis
 
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