Relatos Peregrinos

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Sérgio França

A Noite

Acordei com o tilintar da chuva na janela. Estava sozinho naquele albergue para peregrinos em Castrojeriz. Fazia frio, e acendi então a lareira assistindo o fogo consumir a pouca lenha que restava. Alegrei-me com a presença do fogo e me aconcheguei-me comigo mesmo.

O responsável pelo albergue havia me entregado a chave do albergue. Disse-me que se fosse no verão, haveriam outros quinhentos peregrinos, mas como eu era o único a pernoitar, poderia entregar a chave quando partisse.

Levantei-me e abri a janela que dava para o campo. Debrucei-me sobre a janela e passei a contemplar o céu repleto de estrelas. A noite é, dentre tantos convites da natureza, uma deleitosa oportunidade para o cultivo da paz de espírito. Ela pode tardar para chegar ou anunciar sua vinda mais cedo que de costume, mas quando vem chega majestosa, com seu longo manto negro com detalhes de estrelas cintilantes para cobrir a terra. São momentos ternos para com a vida e a admiração sua maneira de absorção.

Foi ali, contemplando aquelas mesmas estrelas que ilustravam o céu desde os primórdios da história do homem, que me faziam pensar que tudo na vida é imutável em sua essência. Vasculhei em minha memória procurando impressões de um tempo passado.

Lembranças nos dão uma visão de nós mesmos, o que fomos e o que acreditávamos que era verdade. Memória é uma estória vivida, escrita com aventura, corrigida com reflexão e ilustrada com alegria no livro da vida.

O presente é fascinante, intenso, tão seguro e eterno. Parece nunca ter fim enquanto dura, quando o temido tempo então, intercede mudando o rumo das coisas. E aquele momento que parecia ser tão eterno nos escorrega entre as mãos fluindo num rumo desconhecido… o futuro. O tempo é severo, não se modifica para se ajustar às condições de cada um e no entanto eu estava ali contemplando as estrelas que me faziam regozijar como se as estrelas pudessem reter as emoções do tempo.

Cada momento na vida é crucial. Não se junta momentos de alegria para dar sentido à existência. É necessário viver cada respiração como se fosse a última inalação a ser dada.

O silêncio era absoluto, senão fascinante. Não imaginava o quanto importante é o silêncio em nossas vidas. Se houvessem quinhentos peregrinos ali naquele momento, eu não estaria refletindo sobre uma nova percepção de vida, uma outra forma de perceber a realidade.

As vezes, na tentativa de ser simpático, se acaba aniquilando esse silêncio tão precioso na vida. Essa lucidez que eu tanto almejava encontrar, mas que não consegui encontrar na mesmice e distrações do dia-a-dia.

Senti-me mais livre, livre para escolher as aventuras que eu quisesse viver. Sentia-me responsável por estar ali naquele momento e grato pela nova percepção. Em meus anos de aprendizado no caminho espiritual, havia me aprofundado nos mistérios esotéricos na tentativa de controlar meu destino. Mas agora percebia que isso não passara de conhecimento. Sem a harmonia interior e a união com o Criador, não havia conhecimento que se fizesse valer.

Lembrei-me das coisas que havia abandonado ao longo do Caminho e que agora necessitava. Melhor não esquecer ou ignorar o que havia aprendido, pois tudo se transforma o tempo todo.

Olhei mais alto para o céu à espera de Sua resposta, uma mensagem, mesmo que sem palavras, qualquer sinal… vinda da alma do universo onde reside Ele, quem criou tudo.
 

Enviado por Sérgio França
 
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