Relatos Peregrinos

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Sandra Azevedo


19/05/2005 - 7ª ETAPA - LOS ARCOS - VIANA

Percurso: 18,5 KM

"Cada um tem sua própria natureza,
seu próprio caminho.
Somente você poderá encontrá-lo.
Somente você poderá percorrê-lo."

Saímos de Los Arcos um pouco tarde porque tive de ir ao Correio para despachar algumas coisas para Santiago para diminuir o peso da minha mochila. O Jacques, me acompanhou, sempre muito amável e paciente comigo. Daí seguimos cruzando a ponte sobre o Rio Odrón. Passamos pela porta principal de um cemitério onde havia escrito:
                "YO QUE FUE LO QUE TÚ ÉRES, TÚ SERÁS LO QUE YO SOY."
Seguíamos conversando e notamos que a vegetação mudara radicalmente em relação aos campos de trigo, dando lugar às belíssimas "amapolas" margeando o Caminho.


De Los Arcos a Sansol a caminhada é muito agradável, entre vastas culturas de vinhas. Esta região de La Rioja é considerada uma das mais importantes da Espanha na produção de vinho.



À saída de Sansol se avista a paisagem de Torres del Rio.


TORRES DEL RIO
Entre suas casas de pedra quase se consegue ocultar a presença de uma magnífica e harmoniosa jóia românica do século XII, se trata da igreja do Santo Sepulcro, de planta octogonal como a de Eunate. Seu interior está coroado por uma cúpula de numerosos arcos que se cruzam formando uma estrela de oito pontas.



CRUZ DA IGREJA DO SANTO SEPULCRO


 Pouco depois de passarmos por Torres del Rio, mais ou menos uns 4 quilometros adiante, está a ermita de Nuestra Señora del Poyo, que desempenhou importantes trabalhos assistenciais para os peregrinos que percorriam o Caminho. A Igreja, de nave românica, foi restaurada depois de ser demolida durante as guerras carlistas, e conta com uma imagem da Virgem que data do século XIV. 



Ao sair da Igreja, em um bar chamado Pata de Oca, encontrei um poema escrito por Ibn Arabi, místico sufi hispanoárabe que também havia realizado a peregrinação até Santiago.




Porta de uma casa em Torres del Rio


Ainda faltavam uns 10 quilômetros para chegarmos em Viana. Uma borboleta azul me acompanhou durante um bom período de tempo. O calor estava insuportável. Encontramos uma construção de pedras que mais parecia um iglu e aproveitamos para descansar e lanchar. O mais interessante é que lá dentro era bem frio. Soubemos depois que estas construções serviam para o descanso dos trabalhadores.




Lá dentro encontramos vários bilhetes e orações. Jacques e eu escrevemos nossas mensagens e prendemos entre as pedras, deixando assim a nossa marca.



Viana
A última cidade do Caminho navarro, se ergue sobre uma fortificada altura e apresenta atrativos de todo tipo. 



  No século XV Carlos III, o Nobre, criou aqui o Principado de Viana, título que ostentava o herdeiro da coroa de Navarra e que corresponde aos herdeiros dos monarcas espanhóis.



Entre os numerosos monumentos da cidade sobressai a igreja de Santa Maria, construída entre os séculos XIV e XVI, tem cinco naves, onze capelas e a coroa da nave tem uma altura de 80 metros. Sua fachada principal, do século XVI, é de grande altura e adornada em toda a superfície com relevos sobre o nascimento de Jesus, a adoração dos Reis Magos, a Anunciação de Maria e a caída da Cruz. Enterrado na porta da Igreja o monumental sepulcro de César Borgia, filho natural do Papa Alejandro VI, que o nomeou cardeal aos 16 anos de idade, figura importante na história da cidade, coroado de ambição e infâmia. Aqui faleceu, combatendo na guerra que enfrentou a Juan II de Aragón com o Príncipe de Viana, filho deste. Primeiramente foi enterrado dentro da Catedral, em uma urna no altar mor. Pouco tempo depois o Bispo da época, decidiu que não era digno de receber sepultura em lugar santo. Tiraram seus restos mortais e depositaram em frente à porta da Igreja. 


Tomei um susto quando o Jacques demonstrou vontade de seguir mais adiante, até a cidade de Logroño. Já estava tarde, passava das 18 horas e meus pés ardiam como fogo. Não bastassem as bolhas por todo os pés, as unhas estavam todas inflamadas e prestes a cair. Falei para ele que ficaria para pernoitar em Viana. Sentamos num bar onde comemos alguma coisa e, mais uma vez ele encheu os olhos de lágrimas e falou que ainda nos encontraríamos e chegaríamos juntos em Santiago.

Estávamos caminhando juntos há vários dias e isto incentivava a intimidade com a natureza e com nós mesmos, levando-nos a comungar com o que é divino em ambos. Costumávamos fazer da nossa caminhada uma prática consciente e silenciosa de atenção à natureza. O sol, as árvores, os pássaros, o cuco, os rios, sempre foram nossos companheiros de caminhada. Conseguíamos manter a intimidade com eles mesmo estando andando na companhia um do outro.

Não sou chegada a despedidas e agora, mais uma vez, estava tendo que fazer isto, de alguém que já fazia parte do meu Caminho por algum tempo.
Talvez por estarmos fazendo o Caminho sozinhos criamos um laço de amizade muito forte em tão pouco tempo de convivência.

A dimensão espiritual, religiosa ou pessoal de cada caminhada não é medida em quilômetros, número de bolhas nos pés e amizades que construímos, e sim pelas propostas que cada um carrega para a trilha das setas amarelas, assim que cada um iria seguir seu próprio Caminho..

O Caminho ensina a não esperar e não adiar um segundo sequer os cuidados que o corpo pede e que a consciência percebe; meus pés se encontravam num estado lastimável e eu não tinha mais condições de continuar caminhando até Logroño e, além do mais, tinha planejado dormir em Viana.
E assim me despedi do meu amigo. Não sabia eu, que não o encontraria mais. Escrevi num guardanapo do restaurante uma mensagem para ele:

"Que o caminho seja brando aos teus pés, que o vento sopre leve em teus ombros; que o Sol brilhe cálido em tuas faces, que as chuvas caiam serenas em teus campos. E, até que eu de novo te veja, que Deus te guarde nas Palmas da Mãos!" (Desconheço a autoria).

Vi o Jacques seguir seu caminho, olhar várias vezes para trás e me acenar e então, me dirigi ao Albergue.
Pelo adiantado das horas não encontrei mais lugar, porém, a hospitaleira perguntou se eu me incomodava de dormir na cozinha onde vários outros peregrinos iriam dormir. Claro que aceitei e ainda agradeci. Graças a Deus durmo muito bem e em qualquer lugar. Nada atrapalha o meu sono: nem os roncos dos peregrinos, os "puns", uma lanterna acesa, o barulho dos sacos de plástico. 

Junto à sala de entrada havia um salão onde tínhamos de deixar as botas e o cajado. Aí mesmo neste local havia máquina de lavar roupa, tanque e lugar para estender as roupas.

Ainda estava fazendo o registro com a hospítaleira quando chega uma alemã toda agoniada e entregou algo para ela. Não estava prestando atenção ao que estavam conversando mas, de repente, a hospitaleira me pediu para ler uma carta que estava escrita em português. Não era uma carta e sim, uma oração, que estava assinada por uma pessoa chamada Clara. Ela me perguntou se eu conhecia alguma brasileira com este nome e eu falei que havia conhecido 5 brasileiras mas nenhuma Clara. Aí foi que compreendi o que estava havendo: a alemã tinha encontrado uma pochete com euros, dólares e outros documentos, inclusive esta oração da Clara, e estava procurando a dona.

O banheiro ficava na parte superior onde estavam os dormitórios. Fui logo tomar meu banho e cuidar dos meus pés. Minhas unhas caíram e tinha todos os dedos dos pés inflamados além de bolhas por todo o solado dos pés e calcanhares. Uma brasileira que estava neste albergue começou a gritar comigo porque não se conformava de que eu quizesse continuar caminhando. Segundo ela eu deveria ficar aí mais uns dias para me tratar. Falei para ela que não ia interromper meu caminho, que eu sabia das minhas condições e dos meus limites. Ela foi bastante rude ao me tratar falando alto, me chamando de maluca, e que eu deveria procurar um médico e não seguir adiante . Já me encontrava fragilizada com a despedida do Jacques e comecei a chorar.

"Que a feiúra da indelicadeza dos outros possam me impelir a me fazer belo com a bondade. Possam os modos grosseiros dos meus companheiros lembrar-me de usar palavras doces, sempre. Se pedras de mentes pecadoras forem arremessadas contra mim, permita-me enviar de volta apenas mísseis de boa-vontade. Assim como o jasmim deixa cair suas flores sobre as mãos que portam machados e que golpeiam suas raízes, assim, sobre todos aqueles que agem hostilmente contra mim, possa eu derramar flores de perdão.
(Paramahansa Yogananda, "Whispers From Eternity")

Uma peregrina canadense que já me conhecia, ao ver o estado dos meus pés, fez de tudo para me ceder sua cama para que eu não dormisse no chão. Agradeci bastante mas ela insistia, só aceitou os meus argumentos quando lhe falei que para mim era melhor dormir no chão da cozinha pois os dormitórios ficavam no andar de cima, e a subida de escadas era um martírio para os meus sofridos pés.

Resolvi sair mas não consegui encontrar nenhum médico para me atender àquela hora. No Caminho esta foi uma das dificuldades que encontrei.
Quando passei por uma Praça vi a alemã sentada numa mesa com outras pessoas. Por diversas vezes havíamos ficado nos mesmos albergues.
Resolvi ir numa farmácia gastar mais "euros" em material de curativo.

Quando passei por um restaurante escutei alguém me chamar. Eram as brasileiras: a Keka, a Núbia, a Luciana e a Érica. A Keka estava com os olhos inchados de tanto chorar e me disse que tinha de voltar para o Brasil pois não tinham encontrado lugar no albergue e estavam em uma pensão. A pochete dela estava molhada de suor e enquanto tomava banho havia colocado para secar na sacada da janela. Porém quando foi pegar, não mais a encontrou pois havia caído na rua, onde já não estava quando desceu para procurar.

Falei para ela da alemã que encontrei no albergue procurando a dona de uma pochete onde havia uma oração escrita por Clara, que deduzi ser a respectiva dona. Ela então falou: - é a minha pochete, a oração é da Clara, uma amiga de Floripa que me deu para entregar a Santiago".
Aí eu falei que deveríamos ir imediatamente à praça onde eu havia visto a alemã pela última vez para saber o que ela tinha feito da pochete.
Para nossa alegria ela ainda estava lá e falou que havia entregue no departamento de polícia e que teríamos de ir até lá. Foi o que fizemos e, graças a Deus, a Keka recuperou sua pochete com tudo o que havia dentro.

Combinamos que no outro dia elas passariam no albergue para me pegar para seguirmos juntas.
Já era tarde quando cheguei ao albergue.

Mais uma nova emoção me esperava neste dia.
A porta do albergue já estava fechada e já estávamos deitados na enorme cozinha. Éramos mais de 20 peregrinos acomodados pelo chão com os sacos de dormir quase grudados uns aos outros. De repente alguém começou a bater forte na porta pedindo para abrir.

A hospitaleira que já estava saindo para dormir em sua casa, foi ver o que estava acontecendo. Era um ciclista espanhol que queria entrar para pernoitar. Por mais que ela explicasse que o albergue estava lotado e, inclusive, fechado, ele deu para gritar. Ela então chegou onde estávamos e perguntou se nos incomodaríamos de deixar entrar mais um peregrino. Com o escândalo que o espanhol estava fazendo na porta, ninguém se atreveu a dizer que não aceitaria. Assim que ele entrou fazendo barulho, alguém reclamou. Começou a maior briga.

O espaço já estava totalmente ocupado mas ele não quiz nem saber e foi logo colocando seu colchonete junto de uma australiana que começou a esbravejar querendo que ele se retirasse de junto dela. Ele dizia que dali não sairia e acabou outros peregrinos entrando na discussão. Aproveitei para por em prática meu aprendizado do "CURSO EM MILAGRES" e troquei de lugar com a australiana. 

"Tu podes fazer muito em favor da tua própria cura e da dos outros se, em uma situação que necessite de ajuda, pensares deste modo:
Eu estou aqui só para ser verdadeiramente útil.
Eu estou aqui para representar Aquele Que me enviou.
Eu não tenho que me preocupar com o que dizer ou o que fazer, porque Aquele Que me enviou me dirigirá.
Eu estou contente em estar aonde quer que Ele deseje, sabendo que Ele vai comigo.
Eu serei curado na medida em que eu permitir que Ele me ensine a curar".
(Extraído do Livro UM CURSO EM MILAGRES)

O "CURSO EM MILAGRES" aponta caminhos e já mudou a vida de muitas pessoas que hoje manifestam milagres diariamente em suas vidas. É um curso de transformação pessoal que muda a frequência do padrão de pensamento e toca as pessoas de forma diferente, no momento certo. Os exercícios práticos fazem romper os bloqueios do passado e reafirmar novos valores. Destinado a todos que querem aprender a ver o mundo e a própria vida de uma forma diferente, o CURSO EM MILAGRES mostra que não estamos no Planeta para sofrer mas, sim, para operar pequenos e grandes milagres, porque "Milagres são Naturais, quando eles não acontecem alguma coisa saiu errada!"



Quando estava me preparando para fazer o Caminho tive a oportunidade de ler o livro de Antoin A. Khalil: O Caminho do Coração, e assim como eu, ele faz parte de um grupo que se reune semanalmente para ler e discutir trechos deste livro UM CURSO EM MILAGRES. No seu depoimento, ele faz um comentário de que havia pensado em levar o livro com ele, porém, devido ao seu peso, descartou esta hipótese. E teve a idéia de providenciar cópia de pequenas partes para levar e ler durante a viagem. Deixou para fazer isto na última semana e o universo não conspirou a seu favor, não conseguindo tirar a xerox como pensava. Tomou isto como um sinal de que não era para levar e não levou. Mas a sua idéia serviu para mim, e eu assim fiz. Meus agradecimentos a você Antoin, pela ótima dica.  

O ciclista espanhol ainda continuou aprontando. Levantava toda hora, arrumava o colchonete, acendia uma lanterna forte, mexia nos sacos plásticos dentro da mochila, tornava a se levantar e passar por cima das pessoas. A cada momento se escutava um "psiuuu" e aí era que ele mais provocava. Ninguém mais se atreveu a reclamar  até que ele se cansou e resolveu dormir e nos deixar em paz.

Os selos do dia:

 

Enviado por Sandra Azevedo
 
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