Relatos Peregrinos

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Sandra Azevedo

Estella - Los Arcos - 18/05/2005 - 6ª ETAPA

Percurso: 20,4 KM

"Quando estiveres no Caminho viva o presente...
e esqueça tua vida anterior".

Passada quase uma semana, observei com satisfação como caminhando diariamente, quase sem descanso, meu corpo já se acostumou e responde muito bem. Uma ocasião para maravilhar-me da capacidade de adaptação do organismo. Exceto as terríveis "ampollas" que a cada dia vão aparecendo mais.

Porém o Caminho de Santiago não é só feito de bolhas, pedras, subidas e descidas, há também coisas bonitas e interessantes como uma das paradas mais gratas do Caminho: a Fonte de Vinho de Irache, uma única fonte de vinho que conheço.

Um cartaz na entrada dizia:

A "Fuente del Vino" é um lindo painel incrustado na parede de onde sobressaem duas torneiras: uma de água e a outra de vinho tinto, completamente gratuíto, por isso se considera a este último único no mundo.

Podíamos beber à vontade no local mas não era permitido encher o cantil para levar, pois um aparelho de vídeo nos observava e um cartaz na parede assim dizia:

Do outro lado da "Bodega" havia um museu do vinho e a venda de garrafas. A pessoa que comprava muitas ganhava de brinde um cajado de peregrino. Tive vontade de comprar para trazer ao Brasil e presentear todos os amigos, mas como faria para carregar? Fiquei só na vontade e gostaria que todos se sentissem presenteados.

Em frente fica  o famoso Monastério de Santa Maria la Real de Irache, antigo hospital de peregrinos, um dos primeiros do Caminho e o primeiro da Navarra, anterior ao de Roncesvalles, hoje convertido em museu onde entramos para visitá-lo.

Detalhes da fachada da Igreja do Monastério de Irache.

Uma das peças do museu:

Estava acompanhada do Jacques, o francês que vinha caminhando comigo desde que saí de Roncesvalles. Ele se encantou pelo local que estava em obras e como havia trazido uma pedra da construção da sua casa em Marseille, onde morava, pediu ao porteiro que esta sua pedra fosse utilizada na área que estava em reforma, mas seu pedido não pode ser atendido. Vi a tristeza estampada no seu rosto e então falei para ele colocar numa fonte que havia no pátio interno do Monastério. Motivei-o a fazer uma oração e colocar aquela pedra ali dentro da fonte com toda a sua fé e entrega já que aquele havia sido o local que ele se sentiu motivado a deixar a sua oferta. E foi o que ele fez. Tirei uma foto dele neste momento mas foi com a câmera dele, motivo pelo qual não pude ilustrar aqui este momento.

A Igreja datava do século XI, que foi quando os beneditinos iniciaram a construção do monastério sobre outro anterior do século VIII.

Aí também o Jacques deixou o seu cajado de madeira que trouxe da sua peregrinação à Lourdes.

Muito me emocionei com a sua fé, despreendimento e bondade. Ele era casado mas a sua mulher estava bem doente e ele dizia que se algum dia ela partisse ele ia se dedicar a um monastério. Iria se tornar Monje.

Continuamos nosso caminho e logo avistamos o povoado de Azqueta onde de longe identifico a casa do PABLITO. Ainda aqui no Brasil fui informada de que ao avistar a casa deste ilustre personagem do Caminho de Santiago, deveria ir gritando o seu nome. E foi isso mesmo que fiz juntamente com o Jacques, que nunca tinha escutado falar dele.

Pablito, conhecido pelas suas varas de "avellano" . Este navarro trabalhador, honrado e de grande coração, convida os peregrinos que passam por sua casa,  a tomar um café e um gostoso bate-papo.

Pablito, ademais, prepara cada ano de três mil a quatro mil varas de avellano. Primeiro vai ao monte, corta-as, trata-as e as tem sempre dispostas para presentear aos peregrinos. Foi com o maior prazer que recebi seus ensinamentos de como se deve levar e utilizar a vara. Apesar de ter levado daqui do Brasil o meu bastão, recebi com muita emoção a vara que ele me levou a escolher nos fundos da sua casa. Ainda nos levou num enorme galpão onde estavam penduradas um montão de cabaças.

Ele nos mandou que as olhássemos com carinho e escolhesse a que mais tocasse o nosso coração. Escolhi a minha e o Jacques a dele.

Na saída o Jacques fez menção de deixar "alguns euros" para ele, pela sua dedicação e bondade. Porém ele, muito humildemente e sem se sentir ofendido com tal oferta,  não aceitou de hipótese alguma. Havia levado daqui do Brasil vários "pins", chaveiros, fitas do Sr. do Bonfim, pedras semi - preciosas, e dei um de cada para ele que com orgulho me mostrou a fita do Sr. do Bonfim que tinha amarrada no seu pulso.

O Jacques deixou seu outro bastão, dobrável igual ao meu, de presente para ele. E passou a utilizar apenas o cajado dado pelo Pablito. Durante uns dias andei com o cajado do Pablito e mantinha o meu dobrado e amarrado na mochila. Até que um dia dei para uma brasileira, a Érica que não levava cajado e estava com um início de tendinite numa das pernas, sentindo muitas dores. Senti muito ao me desfazer deste presente mas apesar de ser por uma justa razão, o fato de ser de madeira e fino, machucava muito a minha mão. O que levei daqui realmente serviu como minha terceira perna durante todo o trajeto. Ai se não fosse ele...Até hoje o mantenho com muito carinho pois compartilhamos juntos tantos esforços e fui amparada e impulsionada sempre por ele.

Obrigada meu cajado!!!

E de Azqueta  continuamos por grandes campos de vinhedos até chegarmos em Villamayor de Monjardín.

Aí paramos para almoçar já que nos esperavam mais de doze quilômetros absolutamente sem nada, sem nenhum povoado e nem ao menos árvores até chegarmos em
Los Arcos.

Desde à distância, Villamayor de Monjardín nos trás a memória a imagem dos castelos dos contos de fadas que um dia, faz muito tempo, deixamos abandonados em algum lugar de nosso coração infantil. O povoado, na ladeira de uma colina pontiaguda é coroada por um castelo no qual agora se ergue uma capela.

No início do monte, antes de chegar as lindas casas de Villamayor, há uma antiga construção gótica que oculta, ao fundo de uma grande escadaria, uma piscina de água gelada. É uma das tantas fontes que encontramos no Caminho.
Certamente, agradecemos a frescura destas águas quando o corpo transpira suado e, ainda se agradece mais, à sombra que abranda nosso cansaço.

São esses pequenos instantes do Caminho, os passados no regaço de uma antiga fonte, que nos permitem tomar perspectiva do que estamos fazendo. Enquanto caminhamos há momentos suaves, ligeiros, que permitem a reflexão e a oportunidade de apreciar o momento presente; porém, mais tarde, os perdemos diante das dificuldades e esforços, e a mente e o coração perdem o contato com a realidade transcendente que se está vivendo.

No abrigo freco de uma fonte, a alma tem um diálogo silencioso com a existência, contemplando como se fosse nova a paisagem recém recorrida, saboreando-a desde a plácida serenidade que nos proporciona o murmulho das águas. E é justamente aí que o ato de caminhar adquire seu pleno significado, porque somente dentro desta quietude se pode dar movimento à alma, e somente na quietude se adquire nossa razão de ser.

São nestes profundos instantes que as fontes nos dão as águas de onde o espírito bebe o licor que a vida lhe dá. São estes os instantes em que as fontes falam aos ouvidos dos peregrinos, e lhes dizem que tudo no universo flue como fluem as águas; que cada parte do Universo, por menor que seja, dá vida com sua presença ao resto pelo simples fato de existir e fluir sem resistência às alternâncias do tempo.

São esses os dons que, alimentando corpo, alma e espírito, oferecem as fontes aos que se propõem a escutá-las ao longo do Caminho.

O JACQUES MORTO DE CANSADO...

SÃO MUITAS AS CASAS FLORIDAS NOS "PUEBLOS"
DO CAMINHO.

Na companhia agradável do Jacques estes doze quilômetros passaram rapidamente e chegamos a Los Arcos por volta das 15:00 h.

 

No Caminho não dá para visitarmos todas as Igrejas pois muitas delas encontram-se fechadas.

Chegamos ao albergue por volta das 15 horas e uma vez de banho tomado nos dispomos a comer. Mais tarde visitamos a Igreja de Santa María, onde se harmonizam elementos do românico, gótico e barroco. É um magnífico templo que demonstra a importância do lugar em épocas passadas. Concluída a visita tivemos a oportunidade de assistir a santa missa e admirar a Virgem iluminada da Igreja de Santa Maria de Los Arcos.

Abaixo os carimbos do dia.

Mais uma etapa cumprida. Que Deus me mantenha consciente no "aqui" e no "agora", para que eu possa perceber a imensidão da Sua Obra!
 

Enviado por Sandra Azevedo
 
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